Portugal deve investir no México, mesmo com mercado do livro em crise

O mercado editorial do México está em crise com quebras de produção e de comercialização, mas isso não deve impedir Portugal de apostar no país, afirmou o presidente da Câmara Nacional da Indústria Editorial Mexicana.

Em declarações à agência Lusa, Carlos Anaya Rosique explicou que feiras do livro com a de Guadalajara, onde este ano Portugal é país convidado, permitem que os editores mexicanos e do universo latino-americano cheguem a mais autores portugueses.

"Vale a pena apostar no México", disse, apesar dos problemas estruturais que levaram a quebras em 2017 na produção e comercialização livreira pública e privada.

Segundo dados oficiais apresentados na feira, em 2017 produziram-se 294 milhões de livros, entre obras de editoras privadas e a produção custeada pelo setor público, e a faturação anual foi de 437 milhões de euros. Representou um ligeiro aumento em relação a 2016, mas a tendência é de estagnação.

Para Carlos Anaya Rosique, as razões para esta situação de fragilidade prendem-se com a "debilidade dos canais de comercialização, o aumento de pirataria", a necessidade de políticas públicas integradas e de apoio "a toda a cadeia, do criador ao leitor".

Muitas das obras portuguesas traduzidas e editadas no estrangeiro contam com o apoio da Direção-Geral do Livro, Arquivos e Bibliotecas, como o que aconteceu este ano, com um programa especial para tradução de livros para espanhol e para editoras ibero-americanas, por causa da Feira de Guadalajara.

Esse programa permitiu a tradução de romances, livro infantil, antologias e obras poéticas, de Fernando Pessoa a João Tordo, de Florbela Espanca a José Eduardo Agualusa.

Uma das editoras mexicanas com traduções apoiadas é a independente Almadía, que acaba de editar "Uma menina está perdida no seu século à procura do pai", de Gonçalo M. Tavares, obra que se junta a um catálogo que desde há cinco anos tem mais literatura em língua portuguesa.

A culpa é do angolano Ondjaki, porque foi ele que sugeriu à editora a publicação de outros autores de língua portuguesa, sobretudo africanos, como contou à Lusa o editor Gustavo Cerna.

"Sentimos que há uma ligação particular e enriquecedora sobre uma certa conceção da ideia da natureza, que se pode chamar pré-moderna. E nesse sentido, uma literatura muito forte", afirmou o editor mexicano.

Para Gustavo Cerna, há um renovado interesse e uma maior circulação de literatura portuguesa na América Latina e isso será já uma das consequências da estratégia de tradução de obras para espanhol quando Portugal foi país convidado da Feira do Livro de Bogotá (Colômbia) em 2013.

Além de Gonçalo M. Tavares, de quem vai publicar em breve um novo título, a Almadía tem também no catálogo José Eduardo Agualusa, de Angola, e Mia Couto, de Moçambique.

Este último passou por Guadalajara para vários debates, tendo contado à agência Lusa que o destaque dado a Portugal é positivo e, por extensão, beneficia também a literatura lusófona e, em particular, a moçambicana.

"O que se espelha aqui [na feira] é um prolongamento de uma relação histórica que acontece com Portugal, com França, em relação às chamadas antigas colónias. Inverteu-se esse antigo relacionamento, as antigas colónias veem agora nas antigas potências algum parceiro. São parceiros recíprocos que promovem aquilo que é a afirmação da língua portuguesa", disse.

Mia Couto entende que há "um relativo à vontade de autores lusófonos em tirar partido dessa relação herdada do passado". "Para entrarmos no mundo temos que entrar por essa porta que se chama Portugal", disse.

O escritor lamenta que a ligação de Moçambique ao universo literário ibero-americano seja "muito precária, dispersa, fragmentada". A literatura moçambicana "existe de maneira muito nebulosa".

Dizendo que gosta mais de ir a escolas do que a feiras, Mia Couto contou ainda que está a escrever um novo romance, num regresso à infância na Beira (Moçambique). "É um romance que é construído de uma maneira... é a primeira vez, com pequenos fragmentos, misturo tudo, poesia, crónica, romance, contos", revelou.

O romance é, aliás, o género literário mais em destaque na feira, nas traduções, nos autores presentes, através de nomes como António Lobo Antunes, Gonçalo M. Tavares, Afonso Cruz, José Luís Peixoto, Lídia Jorge.

"Eu gostava de ver mais poesia traduzida, mas o caminho vai-se fazendo", disse à Lusa o poeta, professor e crítico António Carlos Cortez.

A poucos dias de receber o Grande Prémio APE de Poesia, pela antologia "Dor Concreta" (1999-2013), António Carlos Cortez acaba de ver uma obra traduzida para espanhol, "Waiting for the miracle", pelo editor Victor Mendiola, e esteve em Guadalajara para apresentar e falar de poesia.

Para ele, esta operação de charme literário no México não será inconsequente. "Prova que vivemos um período cultural que temos e aproveitar. Tem de haver uma consciencialização política", opinou.

A 32.ª Feira Internacional do Livro de Guadalajara termina no domingo e contará com a presença do primeiro-ministro português, António Costa.

Ler mais

Exclusivos