Óbito/Luís Amaro: Oliveira Martins lamenta perda de referência da cultura portuguesa

O administrador executivo da Fundação Calouste Gulbenkian, Guilherme d'Oliveira Martins, lamentou hoje a morte do poeta e bibliógrafo Luís Amaro, salientando que a cultura portuguesa perdeu uma referência.

"A Fundação Calouste Gulbenkian exprime uma especial homenagem à Memória de Luís Amaro, uma das almas da revista Colóquio/Letras", afirmou Guilherme d'Oliveira Martins numa declaração escrita enviada à Lusa, na qual recorda que Luís Amaro foi secretário de redação da revista (1971-1986), diretor-adjunto (1986-1989) e consultor editorial (1989-1996).

O antigo ministro salientou que o trabalho de Luís Amaro "na Colóquio/Letras foi notável, a convite de Hernâni Cidade e Jacinto do Prado Coelho, a ele se devendo o alto padrão editorial da revista, tanto no domínio tipográfico quanto bibliográfico".

"A Luís Amaro se devem edições de cartas de Afonso Lopes Vieira, Ribeiro Couto, José Régio, Manuel Mendes, David Mourão-Ferreira, e, em colaboração, da correspondência de M. Teixeira-Gomes e Mário Beirão. Apresentou inéditos de José Régio e Mário de Sá-Carneiro, além de textos sobre António Botto e Mário Beirão", realçou Oliveira Martins, que lembrou que Luís Amaro foi amigo de Sebastião da Gama, David Mourão-Ferreira, Vergílio Ferreira, João Gaspar Simões e Agostinho da Silva, tendo tido ação relevante na Portugália Editora.

Desta forma, "a cultura portuguesa perde uma referência -- de cuja discrição e bom gosto a Fundação Calouste Gulbenkian muito se orgulha".

O poeta, editor e bibliógrafo Luís Amaro morreu hoje, no Hospital Egas Moniz, em Lisboa, vítima de pneumonia, aos 95 anos, anunciaram a Direção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas (DGLAB) e a Fundação Calouste Gulbenkian.

O velório tem lugar a partir das 18:00 de hoje, na Igreja de Queluz e o funeral parte, do mesmo local, no sábado, às 10:30, em direção ao Cemitério de Queluz, segundo detalhes facultados à Lusa pela Fundação Calouste Gulbenkian e pela família.

Nascido em Aljustrel, em 05 de maio de 1923, Luís Amaro fez, com António Luís Moita, António Ramos Rosa, José Terra e Raúl de Carvalho, parte do grupo que dirigiu a revista Árvore entre 1951 e 1953.

A viagem para Lisboa é proporcionada por Agostinho da Silva, passando a trabalhar na Livraria Portugália. Nas palavras do poeta e crítico literário Eduardo Pitta, Luís Amaro "conheceu toda a gente que foi gente a partir de 1940, o que lhe permitia desatar o nó de controvérsias intrincadas".

Em 1949, publica o livro de estreia, "Dádiva", pela Portugália Editora, que vem a ser reeditado em 1975 com mais poemas sob o título "Diário Íntimo". Em 2006, a &etc publica uma segunda edição de "Diário Íntimo".

"Avesso a holofotes", nas palavras de Eduardo Pitta, "a discrição em pessoa", segundo a história publicada na Colóquio/Letras, Luís Amaro teve um "extraordinário percurso enquanto homem e intelectual".

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