Milhares manifestaram-se em São Tomé contra governo do PM Patrice Trovoada

Cerca de três mil pessoas manifestaram-se hoje em São Tomé contra o governo do primeiro-ministro Patrice Trovoada, em resposta a uma convocatória conjunta da oposição, segundo dados da organização.

Em três anos de governo do partido Ação Democrática Independente (ADI), a manifestação de hoje foi a mais participada contra o que a oposição alega serem tentativas do primeiro-ministro Patrice Trovoada de implantar uma ditadura no país.

A organização da manifestação foi assumida por todos os partidos da oposição, com e sem assento parlamentar, e considerada como "uma demonstração de convergência e de unidade de ação".

Os manifestantes convergiram para o campo de futebol do Riboque, o bairro mais popular da capital são-tomense, e percorreram as artérias centrais da cidade, para se concentrarem, primeiro diante do palácio presidencial, onde empunharam cartazes com palavras de ordem contra o governo, o Presidente da República, Evaristo Carvalho, o plano de instalação do Tribunal Constitucional e, sobretudo, contra o primeiro-ministro Patrice Trovoada.

"Abaixo a nova Hora de Patrice Trovoada" foi um dos cartazes mais expressivo, destacando a impopularidade da recente decisão governamental que decretou o avanço dos relógios em uma hora.

Outros cartazes tinham escrito "Democracia Sim, Ditadura Não", "Abaixo Tribunal Constitucional do ADI" e "não Queremos Presidente Assina Só", este último numa alusão ao que é interpretado pela oposição como uma atitude de submissão do Presidente da República à vontade do primeiro-ministro.

No palácio presidencial, uma representação composta por representantes de todos os partidos da oposição entregou um "Manifesto de Repudio e Indignação".

No documento, os partidos exprimem a sua "total indignação e protesto" contra o que classificam como "excessos de autoritarismo, abuso de poder e frequentes violações da Constituição da república", numa referência à recente decisão do chefe de Estado de promulgar a lei orgânica que cria o Tribunal Constitucional, quando o diploma se encontra no Tribunal Constitucional para fiscalização de constitucionalidade.

Depois do palácio presidencial, os manifestantes dirigiram-se à sede dos tribunais à volta da qual montaram um cordão humano em solidariedade para com o juiz presidente Silva Gomes Cravid que declarou "nula e inexistente" a promulgação presidencial.

A manifestação terminou nas proximidades do palácio do governo com declarações políticas de representantes de todas as forças políticas envolvidas na sua organização.

O objetivo era uma concentração no jardim frontal ao palácio do governo, mas um forte cordão policial e de agente de segurança impôs uma distância de alguns metros.

Falando à multidão, uma das figuras mais carismáticas do principal partido da oposição, o Movimento de Libertação de São Tomé e Príncipe -- Partido Social Democrata (MLSTP-PSD) e ex-ministra da defesa, Elsa Pinto, denunciou alegados atos do governo nas últimas horas para desmobilizar os manifestantes, nomeadamente a distribuição do arroz e de dinheiro.

O líder do Partido da Convergência Democrática (PCD), Arlindo Carvalho, disse que a manifestação marca o início de uma série contínua de ações de mobilização popular contra o governo.

"Quem tem medo fica em casa, mas nós vamos continuar", disse Arlindo Carvalho, criticando o novo horário e acusando Patrice Trovoada de estar "sintonizado com a sua hora biológica que é a hora do Gabão".

"Mas nós e as crianças que agora têm que acordar de madrugada não estão", acrescentou.

Amilton Vaz, uma presença destacada por se tratar de um antigo apoiante firme da ADI, criticou duramente o primeiro-ministro Patrice Trovoada, a quem acusou de "tentar implantar uma ditadura no país".

Embora tenha sido anunciada uma contramanifestação da ADI, não houve qualquer sinal da mesma.

Os últimos dias foram caracterizados por um clima tenso, com declarações do primeiro-ministro, guerras de palavras nas redes sociais e uma intensa mobilização do partido do governo para frustrar a realização da manifestação.

Rafael Branco, ex-primeiro-ministro do MLSTP-PSD, considera que a manifestação "foi um grande sucesso" e que "foi um indicador de que a população está a perder o medo".

Aliás, "contra o medo instalado" foi uma das palavras de ordem da manifestação, que decorreu sem incidentes e em ambiente de festa, com uma banda musical a acompanhar o cortejo durante todo o seu trajeto.

O ato de protesto terminou com muitos temas emblemáticos do cancioneiro da resistência anticolonial.

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