ENTREVISTA: NATO contraria possibilidade de a Europa ser autónoma -- vice-MNE russo

Lisboa, 20 abr 2019 (Lusa) -- O vice-ministro russo dos Negócios Estrangeiros Alexander Grushko considerou em entrevista à Lusa que a NATO está a "regressar a 1949" e tenta contrariar a possibilidade de a Europa assegurar uma dimensão militar e de defesa autónomas.

"Parece que a NATO está a regressar a 1949, quando foi estabelecida para contrariar a designada ameaça da União Soviética, que não existia", considerou Alexander Grushko, que na quinta-feira manteve em Lisboa consultas políticas bilaterais centradas na intensificação do comércio e investimento e no reforço da cooperação no domínio cultural, para além da troca de pontos de vista sobre temas da agenda internacional.

"Se observarmos o estado das relações entre a NATO e a União Europeia, torna-se claro que a NATO está a tentar que as ambições da UE em garantir uma dimensão militar e de defesa autónoma fiquem sob o seu controlo", assinalou o responsável russo, 63 anos, no serviço diplomático desde 1977 e que entre 2012 e 2018 foi o representante permanente da Rússia na NATO, em Bruxelas.

"Estamos numa situação difícil. As relações NATO-Rússia não estão numa boa fase. Em 2014, a NATO decidiu suspender todas as iniciativas práticas com a Rússia, e na totalidade não temos qualquer agenda positiva", salientou, numa referência à degradação das relações entre Moscovo e o Ocidente na sequência do "caso Skripal", ou a anexação da Crimeia pela Rússia, que implicou a expulsão mútua de centenas de diplomatas e o reforço das sanções económicas ocidentais.

A inexistência de uma "agenda positiva" entre as duas partes implica a necessidade de encontrar "formas de desanuviamento", de "redução da escalada" ou de "não permitir que as más perceções sejam o essencial na política e no planeamento de defesa", defendeu o vice-MNE russo, reconduzido neste cargo em janeiro de 2018 após ter ocupado as mesmas funções entre 2005 e 2012.

Alexander Grushko responsabiliza a Aliança Atlântica por ter interrompido "todos os canais de comunicação entre os militares", uma situação que prejudica o diálogo político, incluindo no Conselho NATO-Rússia, o mecanismo de consultas, cooperação e ação conjunta estabelecido em 2002.

"Como podemos discutir estas questões a nível político sem envolver os militares?", interrogou-se.

"Na nossa perspetiva, os contextos militares são extremamente importantes e esperamos que os aliados europeus dos Estados Unidos entendam que é muito perigosa a inexistência de canais de comunicação entre os militares", alertou.

A "demonização da Rússia" está incluída, na perspetiva do diplomata, no planeamento militar da NATO, que após a fim da URSS e a dissolução do Pacto de Varsóvia iniciou uma expansão em direção ao leste europeu, que prossegue, e atingiu as fronteiras russas, e que já engloba as três ex-repúblicas soviéticas do Báltico.

"Existem muitas histórias sobre as nossas intenções agressivas. Não é verdade, mas o que a NATO faz nas vizinhanças da Rússia é muito preocupante. Melhoria de infraestruturas, deslocação de tropas adicionais, policiamento aéreo com o pretexto de proteger os países do Báltico e que tem origem na base aérea de Amari, na Estónia, um percurso aéreo de apenas a cinco minutos até São Petersburgo", indicou.

No início de abril, os 29 Estados-membros da NATO reuniram-se em Washington para celebrar os 70 anos da fundação e uma "Rússia mais agressiva" foi tema em destaque nos debates.

A relação entre as duas partes agravou-se após os Estados Unidos anunciaram a decisão de se retirarem do Tratado de Forças Nucleares de Alcance Intermediário (INF, de 1987), ao alegarem um reiterado incumprimento por parte da Rússia.

"Não sei que motivos tinham em mente para essa decisão", sustentou, ao assinalar que a decisão de retirada pertence a Washington, apesar de a NATO culpabilizar a Rússia.

"A NATO diz que começou a adaptar-se a uma nova realidade pós-INF. Há planos para fazer regressar ogivas nucleares norte-americanas para a Europa, mísseis intermédios, mas a NATO diz ter planos para aumentar as capacidades na defesa aérea, e de defesa de mísseis", sugeriue.

"Penso sinceramente que a Europa deveria elevar a sua voz porque é um perigo para a Europa", acentuou.

E recorda a resposta de Moscovo: "O Presidente [Vladimir] Putin foi claro ao referir que vamos reagir se os EUA iniciarem o programa de deslocação desses mísseis, e faremos o mesmo. Mas enquanto não existirem esses mísseis, incluindo na Europa, a Rússia não estacionará os seus mísseis".

O vice-MNE russo insistiu que a imagem da Rússia no Ocidente é resultado da "propaganda", da "demonização" promovida pela NATO em termos militares, e rejeita qualquer intenção agressiva na Europa. Também recordou que a cooperação com os países europeus tem privilegiado a "cooperação, grandes projetos, gasodutos, espaços comuns..." e a necessidade de criar um "conselho de segurança UE-Rússia", que incluiria a participação e cooperação em operações de gestão em crises.

Neste cenário, acusou os Estados Unidos de terem pressionado os países europeus a "mudar a sua política", e alude ao caso Skripal, a tentativa de envenenamento em Inglaterra, em março de 2008 do ex-agente duplo Serguei Skripal e de sua filha Yulia através de agente enervante, com o mundo a parecer regressar aos tempos da Guerra fria.

A Rússia sempre negou envolvimento nesta ação, considerada uma "agressão" em território de um país aliado.

"Propusemos de imediato ao Reino Unido uma cooperação neste caso. Enviámos 70 notificações, sem resposta. Pedimos a possibilidade de o nosso departamento consular de se encontrar com Skripal e sua filha. Não os vimos, e isso é inacreditável. Mas na ausência de outras explicações, a UE decidiu aplicar sanções à Rússia", afirmou.

"E isso é muito perigoso porque, como disse, a política prática está a ser baseada em determinadas perceções que nada têm a ver com a realidade", repetiu.

O "envolvimento da Rússia no referendo sobre o 'Brexit', ou a interferência nas presidênciais norte-americanas de 2016 também mereceram um comentário do diplomata, ao recordar que a ideia da consulta à população partiu do ex-primeiro-ministro britânico David Cameron.

"Não temos meios para penetrar na cabeça de líderes políticos, ainda não", ironizou. E em relação às presidenciais de 2016 nos EUA, que elegeram Donald Trump, recordou que o designado Relatório Mueller "deu em zero, em nada".

E precisou: "Está relacionado com a sensatez comum. E deveríamos entender que não é normal estabelecer este género de relação com a Rússia".

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