Ambientalistas e indústria mantêm desacordo sobre glifosato, Bruxelas vai votar licença

Ambientalistas e grupos de consumidores continuam em desacordo com a indústria acerca da utilização do herbicida glifosato, os primeiros dizendo que é um produto cancerígeno, a segunda que é necessário para conseguir alimentos suficientes para a população europeia.

O Parlamento Europeu defendeu hoje a proibição do glifosato na União Europeia (UE) a partir de 2022, com restrições até essa data, opondo-se à proposta da Comissão Europeia para renovar a licença deste herbicida por mais 10 anos.

A resolução do Parlamento Europeu, não vinculativa, foi hoje aprovada, na véspera de os Estados-membros votarem a proposta de renovação de autorização do glifosato.

Nos últimos meses sucederam-se as críticas ao glifosato e as petições para que deixe de ser usado, com a apresentação de estudos científicos a provar que é cancerígeno, enquanto a indústria de químicos se baseia igualmente em trabalhos de cientistas para defender o contrário.

Segundo a Avaaz, que se apresenta como uma comunidade de 45 milhões de membros, mais de dois milhões de pessoas, entre os quais 17 mil portugueses, assinaram uma petição dirigida a várias entidades europeias, como o comissário de Saúde da UE, Vytenis Andriukaitis, a pedir a suspensão imediata do glifosato.

"Como cidadãos de todas as partes do mundo, ficamos alarmados ao saber que o glifosato é 'possivelmente cancerígeno para seres humanos' e apelamos para que os senhores exerçam o princípio de precaução e suspendam imediatamente a aprovação do glifosato, presente em herbicidas como o 'Roundup' da Monsanto", refere aquela petição.

"Até que seja comprovada a segurança do glifosato, os senhores devem garantir que as pessoas não sejam expostas a este perigo", acrescenta.

Na segunda-feira, também a organização ambientalista Greenpeace entregou uma petição a dois comissários europeus em Bruxelas, assinada por 1,3 milhões de pessoas, pela proibição do glifosato.

A petição foi baseada num estudo da Agência Internacional para a Investigação sobre o Cancro, um órgão da Organização Mundial de Saúde, que o classificou como "carcinogénico provável para o ser humano" em 2015, ao contrário das agências europeias para a Segurança Alimentar e dos Produtos Químicos.

O diretor executivo da Associação Nacional da Indústria para a Proteção das Plantas (ANIPLA), António Lopes Dias, transmitiu hoje à agência Lusa a preocupação que "o Parlamento Europeu esteja a ser influenciado pelas ONG" (organizações não governamentais), cujas alegações "já foram contrariadas por entidades científicas".

"São 500 milhões de europeus que necessitam ser alimentados", o que exige a utilização de glifosato na agricultura, referiu, realçando que "não há qualquer indício ou parecer" a apontar para a perigosidade do herbicida.

António Lopes Dias insistiu ainda que não renovar a licença para o glifosato "seria um sério revés para a economia portuguesa".

Em julho, a Comissão Europeia manifestou-se favorável à renovação da licença, apoiando-se no relatório da Agência Europeia de Segurança Alimentar (AESA) de 2015, segundo o qual não há razões para classificar o glifosato como cancerígeno. Parte desse relatório, dizem os jornais, terá sido copiado de um documento da empresa que produz o herbicida.

Em 2014, a Quercus lançou uma campanha nacional a apelar aos municípios para que deixem de utilizar pesticidas para eliminar ervas daninhas em jardins e outros locais públicos, com o argumento de que são responsáveis por danos na saúde, podendo provocar cancro.

Em janeiro, o Governo aprovou a proibição de uso de pesticidas em espaços públicos como jardins infantis, parques e jardins urbanos, escolas e hospitais "com o objetivo de reduzir e controlar os efeitos sobre a saúde pública".

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