Rúben de Carvalho no Museu do Fado

Antigo vereador da CDU na Câmara Municipal de Lisboa, falecido em 2019, vai dar nome ao auditório do Museu od Fado

O primeiro-ministro e secretário-geral do PCP estiveram esta quarta-feira juntos numa homenagem ao histórico dirigente comunista Ruben de Carvalho, que Costa considerou ser o exemplo de que é possível haver "posicionamento político e ideológico" claros, mas dar-se "com todos".

Poucos minutos depois de inaugurarem uma placa com o nome de Ruben de Carvalho para designar um auditório no Museu do Fado, em Lisboa, António Costa falou sobre o antigo adversário, por duas vezes, nas eleições autárquicas, mas, sobretudo, "um amigo" que foi "decisivo na construção" da democracia em Portugal.

"O Ruben, infelizmente, nunca pôde exercer funções executivas na Câmara Municipal [de Lisboa]. Quem é homem de partido sabe que os partidos por vezes têm razões que a própria razão desconhece, mas tenho a certeza de que a câmara e, sobretudo a cidade, perdeu muito por o Ruben não ter exercido essas funções", sublinhou o chefe do Governo, sustentando que "foi nessa adversidade do combate político, franco, leal", que construíram a amizade.

Visivelmente emocionado durante a intervenção que fez - perante o atual secretário-geral comunista, Jerónimo de Sousa, o presidente da autarquia da capital, Fernando Medina, e respetivo executivo, entre outros convidados -, António Costa recordou Ruben de Carvalho como um exemplo de "compreensão de que a política não prescinde" do respeito humano "entre todos aqueles que se dedicam à política de corpo".

O histórico dirigente do PCP era "um grande construtor de pontos e sabia bem que quem tem ideias claras e firmes sobre o seu posicionamento político e ideológico pode-se dar com todos, porque não é isso que afeta as suas convicções e não é isso, seguramente, que afetará as convicções dos outros".

Já Jerónimo de Sousa recordou a "intervenção fundamental para a verdadeira recuperação do prestígio do fado junto das camadas intelectuais que se tinham afastado dele, contribuindo para o fim de alguma estagnação em que se encontrava".

O percurso político e cultural lado a lado do antigo deputado e vereador nos municípios de Lisboa e Setúbal foi, na opinião do secretário-geral comunista, um contributo importante para o reconhecimento do fado como Património Cultural Imaterial da Humanidade pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO).

E foi nas palavras do histórico secretário-geral comunista Álvaro Cunhal que o atual dirigente comunista encontrou as palavras certas para descrever Ruben de Carvalho no Portugal.

"Portugal democrático precisa deles [dos intelectuais]. Precisa da sua obra, como parte integrante da democracia, como fator de elevação cultural do povo, como elemento de formação do Homem, como motivo de alegria e felicidade. Portugal democrático, para se defender e progredir, precisa da ação, do trabalho e da obra dos intelectuais", aludiu Jerónimo de Sousa. "É justa esta homenagem", finalizou.

Ruben de Carvalho morreu em 11 de junho de 2019, com 74 anos.

Ruben de Carvalho aderiu ao Partido Comunista Português em 1970. Foi funcionário do partido entre 1974 e 1997 e era membro do Comité Central desde 1979.

Aquando da sua morte era o único membro do Comité Central do PCP que tinha estado preso nas prisões da PIDE, a polícia política da ditadura finda em 25 de Abril de 1974.

Foi responsável na Câmara Municipal de Lisboa pelo Roteiro do Antifascismo e fazia parte da organização da Festa do Avante! desde o seu início, em 1976.

Jornalista de profissão, Ruben de Carvalho foi também chefe de redação do semanário "Avante!", órgão central do PCP, entre abril de 1974 e 1995, chefe de redação da revista "Vida Mundial" e redator coordenador do jornal "O Século".

Ruben de Carvalho manteve, na RDP1, o programa "Radicais Livres", onde debatia temas de atualidade com Jaime Nogueira Pinto.

O histórico comunista foi membro das "comissões juvenis de apoio" à candidatura do General Humberto Delgado, chefe de gabinete do Ministro Sem Pasta, Francisco Pereira de Moura, no I Governo Provisório após o 25 de Abril de 1974, deputado à Assembleia da República eleito pelo distrito de Setúbal e vereador nas câmaras municipais de Lisboa e Setúbal.

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