InPulsar. "Esta associação olha as pessoas de frente e não de cima"

Há uma associação para o desenvolvimento comunitário que marcou a última década na cidade de Leiria. Desde os sem-abrigo aos refugiados, das crianças aos idosos, há sempre uma porta para abrir. O objetivo é ajudar quem precisa com 10 projetos que orgulham toda a equipa.

Miguel Xavier chegou à direção da InPulsar em 2016, quando a associação ainda só tinha dois projetos - o Giro Ó Bairro e Giros na Rua. Hoje são 10, tantos quantos os anos de existência que acaba de comemorar. A conversa com o DN acontece numa altura em que a diretora-geral, Lisete Cordeiro, acaba de participar numa conferência internacional em que relatou, no Brasil, o caso da associação de Leiria que espantou a comunidade internacional.

Entre aquele 29 de março de 2012 e os dias que correm, muito mudou no tecido urbano da cidade. "Estamos a falar de 40 mil euros para 600 mil de orçamento. Também nos tornámos IPSS. Foi um grande salto. Era algo que nós ambicionávamos e que, por diversas razões, ainda não tínhamos conseguido. Também a consignação do IRS permite-nos ter mais uma janela de oportunidade", revelou Miguel Xavier. O presidente tem consciência de que "o grande problema destas organizações é precisamente a sua sustentabilidade". Ou seja, viver de projetos que são financiados, mas em que muitas vezes o dinheiro só chega às associações já depois de ter sido gasto.

A palavra voluntariado sempre fez parte do léxico de Miguel Xavier. Nasceu numa casa em que os outros sempre estiveram muito presentes, em que os pais sempre tiveram "uma grande paixão pela causa pública". Por isso, não foi difícil convencê-lo a liderar uma lista para a direção da InPulsar. "Fiz uma lista com os amigos, mas rapidamente percebi que tínhamos de alterar aquilo... porque era a sério e eram precisas pessoas que se dedicassem verdadeiramente à causa, que estivessem presentes nas reuniões, que fosse mesmo uma equipa dinâmica e multidisciplinar", explicou.

Em Leiria, a InPulsar apoia as populações mais frágeis e muito diversas, desde a comunidade cigana aos refugiados, passando pelos sem-abrigo, às pessoas infetadas pelo HIV, toxicodependentes, entre outros.

Respeitar a dignidade

"A grande mais valia da InPulsar é o facto de olhar para as pessoas e respeitar a sua dignidade e a sua diferença", garante Miguel Xavier, que ainda acrescenta outra particularidade: "Ser pouco burocrata." O que quer isso dizer? "Qualquer pessoa que chegue à InPulsar é olhada de frente e não de cima. É sempre respeitado a sua dificuldade, o seu problema. E com a máxima de resolver as questões, mesmo que não se incluam em nenhum dos nossos projetos", sublinha.

Um dos projetos que mais entusiasmou a equipa foi o "Morada Certa", que retirou da rua pessoas que eram sem-abrigo há mais de 10 anos. "Neste momento já temos 15 apartamentos. Conseguimos dar uma morada e devolver a dignidade a 15 pessoas", revela.

A InPulsar tem atualmente em curso 10 projetos. O mais mais antigo é o Giro Ó Bairro - intervenção comunitária junto da comunidade cigana no bairro social da Cova das Faias, às portas da cidade de Leiria. "Nós tentamos quebrar o "destino anunciado" de fazer a vida na feira, com aquele projeto da nossa escolinha como é carinhosamente chamada", conta. Trata-se afinal de um espaço onde as crianças e jovens do bairro se dirigem, quando regressam das aulas para fazerem os trabalhos de casa. Uma espécie de ATL que nunca parou, mesmo nos períodos mais agrestes da pandemia.

Miguel Xavier reputa de muito importante esse trabalho que continuou a ser feito ao longo desta década. "É muito fácil marginalizar a comunidade cigana. Nós vemos que há alguns políticos que utilizam essas comunidades para ganhar votos e depois esquecem-se que há lá crianças, que vão para as escolas, ouvem os colegas e depois são marginalizadas na própria escola. Por isso, é daqueles projetos em que o trabalho ainda não está concluído."

Também o projeto Giros na Rua, em parceria com o Serviço de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e nas Dependências (SICAD), que intervém junto da população toxicodependente, já vem desde há muito tempo. De permeio, a InPulsar lançou vários outros projetos, sendo o mais recente o "Aqui Mundos", dedicado aos refugiados. Foi iniciado quando começaram a chegar jovens do Afeganistão a Leiria. "Era preciso apoio para ingressarem na escola ou no mercado de trabalho", diz.

Mas entre as duas mãos cheias de projetos que fizeram crescer a InPulsar ao longo da última década, há um outro, igualmente recente, que é também caro à equipa que dá corpo à associação: "É um bocadinho parecido com o Morada Certa, mas é de apartamentos partilhados, para dar resposta imediata a quem está na rua há pouco tempo. No fundo, é para atuar de forma precoce, evitando que as pessoas se tornem sem-abrigo e vivam na rua de forma crónica. Reestruturamos a vida dessa pessoa e, passados três meses, tentamos devolvê-la à sociedade".

A sustentabilidade económica continua a ser uma preocupação para a direção da InPulsar. Por isso, candidatam-se a tudo o que conseguem e acham que faz sentido. Têm como parceiras várias empresas privadas. Mas o que lhes falta, afinal? "Viver sem pensar que os projetos vão acabar. Se um dia nós sairmos da Cova das Faias, por exemplo, o que será daquelas crianças?", questiona Miguel Xavier. Apesar de tudo, aquela ainda é uma uma região economicamente fértil, onde as empresas respondem à chamada.

dnot@dn.pt

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