"Era um verdadeiro centro comercial , tudo o que imagina podia comprar aqui"

Nas ruas de Santa Marta e de São José fecham lojas todos os dias, culpa da pandemia. Mas há anos que o comércio tradicional está em morte lenta: restaurantes, prontos-a-vestir, sapatarias, talhos, peixarias, antiquários, ourivesarias, cabeleireiros e tantos outros.

As ruas de Santa Marta e São José, em Lisboa, já foram um centro comercial com porta para a rua. Havia de tudo à venda, contam os comerciantes dessa altura. Com a pandemia - o teletrabalho e a diminuição de turistas -, e a mudança do perfil de residentes, as duas artérias perderam comércio e muita da tradição. Fecham lojas todos os dias, os que resistem tentam adaptar-se à nova realidade. Também há novos negócios mas que não compensam os extintos.

Santa Marta e São José são duas das artérias interiores que ligam o Marquês de Pombal aos Restauradores, paralelas à Avenida da Liberdade. Começam no cruzamento com a do Conde Redondo e terminam no Ascensor do Lavra. Prédios antigos, um ou outro restaurado, outros em construção, espaços entaipados, lojas encerradas ou a anunciar o fim.


"Era um verdadeiro centro comercial, tudo o que pudesse imaginar podia comprar aqui. Tem fechado tudo", lamenta Agostinho Gonçalves, 55 anos, que, com a mulher Rosário Gonçalves, 53, explora a Vidreira Santa Marta desde 2010. Hoje, um negócio muito diferente de quando foi inaugurada há 60 anos e que dita o nome.

Mudou depois para artigos de decoração, já era assim quando entrou a Rosário, em 1988. "Vendíamos artigos de cozinha, loiças, vidros, panelas e utensílios domésticos que não se encontram facilmente." Há quatro anos fizeram obras e adaptaram-se ao incremento do turismo. Passaram a vender souvenirs, como panos e artigos típicos, recordações de Lisboa e artigos de cortiça. "Tudo produto nacional, só se não houver é que procuramos lá fora."

É esta diversidade que os tem mantido, mesmo durante os meses de confinamento. "Aqui, até carvão se fazia, o cliente vinha de longe para vir às ruas de Santa Marta e de São José. Tudo isso desapareceu e nós resistimos porque o que vendemos não tem concorrência, ninguém abre uma loja para vender panelas", defende Agostinho.

Entra uma cliente, entusiasma-se com um copo de alumínio, acha graça à forma de filhós, compra um pequeno grelhador. "É suficiente, vivo sozinha", justifica Rosa Branca, 60 anos, que vive no Lumiar. "Sou transplantada do Hospital de Santa Marta , em 2010. E faço toda a minha vida aqui, gosto do comércio tradicional, não gosto de grandes superfícies."

Lojas que eram tradição

Agostinho vai à porta da sua loja e começa a enumerar o comércio que desapareceu e cujos lugares alcança só com o olhar: o Ferrador, cujo prédio vai para obras, a Taberna de Santa Marta, o Atelier de Beleza, a casa dos relógios cujo dono faleceu, o alfaiate, a casa de chá, a loja de eletrodomésticos, o talho que deu lugar a congelados e, depois, a florista, outro talho que fechou, a ourivesaria que agora é restaurante, a peixaria que desapareceu, vários prontos-a-vestir falidos, a sapataria em liquidação, o prédio onde era a Cerimónia que ardeu e está a ser reconstruído, o estofador que deixou a arte, prédios devolutos... E tantos antiquários que faziam da zona um centro do ramo.

O DN não conseguiu encontrar dados sobre o número de espaços que encerraram e abriram na última década junto dos organismos oficiais. A Junta de Freguesia de Santo António, que inclui as duas ruas, remete para a Câmara Municipal de Lisboa, que é quem licencia os negócios - eles apenas são responsáveis pela ocupação da via pública e desde 2015. Tinham, então, 46 estabelecimentos com ocupação da via pública em Santa Marta e São José - atualmente têm 59. Refira-se que, com a pandemia, muitos restaurantes abriram esplanadas, logo não é indicativo, o melhor, aconselham, é ir à zona com alguém que a conheça e contar.

Longe estão os anos de 2018 e 2019, os melhores segundo Agostinho Gonçalves. Espera recuperar parte, agora que o país, e o mundo, voltou a abrir-se em resultado da vacinação contra o SARS-CoV-2. Está a tentar que o seu espaço seja considerado uma loja com história, um símbolo de diferenciação e que lhe traria maior divulgação.


As lojas com história são uma iniciativa da Câmara Municipal de Lisboa. "Uma das suas prioridades é trabalhar com o comércio tradicional e histórico da cidade no sentido de, por um lado, preservar e salvaguardar os estabelecimentos e o seu património material, histórico e cultural e, por outro lado, dinamizar e reativar a atividade comercial, essencial para a sua existência", justifica a autarquia, salientando ser uma iniciativa pioneira no país. Mas ostentar este selo não é uma garantia de clientela. A Leitaria e Manteigaria A Minhota, na Rua de São José, era uma loja com história e não resistiu.

Morador e turista diferente

Carlos Santos, dono do Minimercado Garrafeira, no número 40 de Santa Marta, tem uma explicação para a ausência de clientela. "As empresas e os escritórios têm estado fechados, as pessoas não vêm trabalhar. É consequência da pandemia, mas havia muita coisa que já tinha fechado. Daqui até ao Hospital de Santa Marta não há comércio. O maior problema é que não há moradores. E eram eles que faziam funcionar o comércio local. As pessoas que vêm para aqui morar não compram à gente, chegam tarde e compram online. Os turistas também mudaram, eram famílias que vinham para o alojamento local e davam uma certa gracinha à loja. Agora, são jovens e querem ir para o Bairro Alto. Até a própria restauração teve uma grande quebra".

Explora há 40 anos o minimercado que já se chamou Mercearia Bijou de Santa Marta. Vende um pouco de tudo, "vai dando para a despesa". A sorte é que a "renda não é cara". Explica que a sua mais-valia é a qualidade e ter produtos que não se encontram nos estabelecimentos asiáticos do género.


Os estabelecimentos tradicionais têm dado lugar a espaços explorados por cidadãos de Nepal, Bangladesh e Paquistão, não só mercearias como restaurantes. E há um ou outro negócio que abriu para ficar, mesmo que outros do mesmo ramo tenham morrido. É o caso da DegAtelier, arranjos e confeção de roupa, que Elisabete Santos, 45 anos, abriu há nove anos. "Temos uma boa clientela, tivemos problemas no início da pandemia mas estabilizou. Temos tanto trabalho que precisamos de mais funcionários e não encontramos."

Veio do Brasil há 16 anos, onde já trabalhava no ramo. O seu braço direito é a filha, Liliana Leite, 26. Tem clientes individuais e muitas lojas da Avenida que a ela recorrem. Sobretudo para arranjos de roupa, mas também confeção. Completam a equipa um alfaiate do Bangladesh e um costureiro do Uzbequistão.

Mais à frente está a Casa das Conchas, na família há mais de 60 anos, conta Ângelo Fernandes, 53, casado com uma das herdeiras. Foi uma colchoaria, depois o sogro começou a vender móveis por catálogo, mais tarde a fazer artigos em casquinha, até se transformar num antiquário. "Com o 25 de AbrilMercearia Bijou de Santa Marta., muita gente vendeu o recheio das casas e ele começou a comprar e a vender", explica. Desde 1974.


"Estas ruas chegaram a ter 12 antiquários, agora somos três", lamenta Ângelo. Eles próprios tiveram de se adaptar, sublinhando que é a mulher, Cristina Fernandes, a grande mentora. Atualmente, é uma loja vintage, bricabraque, compra usado e recicla. "Começámos a recuperar os móveis, depois fizemos workshops para as pessoas aprenderem a reciclar e, agora, vendemos os materiais. Tivemos de nos adaptar à pandemia."

Recorda os tempos em que trocavam experiências e peças entre antiquários, as empresas ali instaladas. Por exemplo, os CTT que empregavam 430 pessoas.

Há um ano e meio veio a pandemia e foi o golpe fatal. A Casa das Conchas aguentou: "Não nos podemos queixar, tivemos de nos reinventar. Fechámos três meses no primeiro confinamento, mudámos a oficina para casa e passámos a vender online. No segundo, fechámos a loja, trabalhávamos cá dentro e entregávamos em casa. Fazem muita falta os turistas, era um cliente certo e acabou. Agora é malta nova, que não tem dinheiro."

Manuel Ferreira, 64 anos, sente o mesmo problema na faturação. Está à porta do Cantinho S. José, eleito uma das 25 tasquinhas de Lisboa. Toma conta da casa com dois cunhados - antes da pandemia tinham sete funcionários. O espaço é de 1956 e está nas mãos da família há 30 anos. Servem almoços e jantares, comida típica portuguesa, alguns dos pratos verdadeiras raridades.

"Sobrevivemos mas infelizmente o bolso está a esvaziar, está uma desgraça. Chegámos a servir 120/130 almoços, agora são 20, às poucas pessoas que vêm aos escritórios. À noite são turistas, mas é malta nova, com pouco dinheiro." Enumera os restaurantes vizinhos que fecharam, vários até chegar ao cruzamento com a Rua das Pretas. Abriram outros, mais modernos, mas alguns também já fecharam.

ceuneves@dn.pt

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