Zelensky e Putin contam espingardas

Presidente ucraniano ainda não decidiu se vai mobilizar meio milhão enquanto aguarda assistência ocidental. Líder russo com discurso vitorioso.
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Volodymyr Zelensky, em conferência de imprensa, e Vladimir Putin, num encontro com os militares de topo, fizeram um balanço dos avanços e recuos dos últimos meses de conflito e perspetivaram os próximos capítulos de uma guerra sem fim à vista. Enquanto o líder russo, com um otimismo há meses impossível, reafirmou que não abdica de alcançar os objetivos que se propôs quando lançou a invasão à Ucrânia - desmilitarização e desnazificação do país vizinho -, o presidente ucraniano disse que confiar no apoio internacional e na capacidade de resistência do seu povo.

Um dos anúncios mais relevantes de Zelensky, na conferência de imprensa, é a de que o seu país vai ter mais defesas aéreas. "Este inverno é diferente, com perdas e desafios. Mas estamos a ficar mais fortes e mais poderosos. Vários novos sistemas Patriot estarão na Ucrânia para proteger o nosso país no inverno", assegurou, sem adiantar o número dos sistemas.

Enquanto disse estar otimista sobre receber ajuda em breve dos parceiros ocidentais, destacou a necessidade de fortalecer a indústria de defesa. A esse propósito, anunciou a produção de "um milhão de drones" em 2024. "É muito mau quando ainda temos a velha burocracia soviética em termos de logística. Tínhamos 20 mil drones num armazém e, por alguma razão, não os conseguíamos levar para a linha da frente".

Sobre os recursos humanos, que escasseiam no exército, Zelensky informou que as forças armadas propuseram mobilizar de 450 mil a 500 mil pessoas para continuar a lutar contra a invasão russa. No entanto, disse não ter tomado uma decisão, embora tenha garantido que não irá obrigar as mulheres a fazerem parte dos conscritos.

Em reunião com os altos quadros da Defesa e das forças armadas, Vladimir Putin afirmou que a iniciativa da guerra na Ucrânia é russa e que não vai desistir dos objetivos da por si chamada operação militar especial. "Avaliando a situação no terreno, na frente [de batalha], pode-se afirmar com segurança que as nossas tropas têm a iniciativa. Em suma, fazemos o que consideramos necessário, fazemos o que queremos. Quando os nossos comandantes consideram necessário manter as defesas ativas, estão a fazê-lo, e estamos a melhorar as nossas posições onde é necessário", disse.

Putin admitiu que "2023 foi um ano tenso para as forças armadas", mas que os militares cumpriram "profissionalmente" a sua missão e "garantiram a soberania do país a nível global, a paridade nuclear e a segurança estratégica da Rússia". Segundo estimativas do jornal online Mozhem Obyasnit, com base na proposta de orçamento para 2024, que aloca uma compensação à família dos soldados mortos, terão morrido mais de cem mil militares russos.

No entanto, a hora é de apontar para as alegadas fraquezas da Ucrânia. "O inimigo sofreu pesadas baixas e, em grande medida, desperdiçou as suas reservas enquanto tentava mostrar pelo menos alguns resultados da sua chamada contraofensiva aos seus amos", disse Putin, tendo acrescentado que "o mito da invulnerabilidade das armas ocidentais também caiu por terra".

"Todas as tentativas do Ocidente para nos derrotar militarmente, uma derrota estratégica, foram destruídas pela coragem e pela fortaleza dos nossos soldados, pelo poder crescente das nossas forças armadas e pelo potencial das nossas indústrias militares", afirmou Putin.

O presidente russo, que na semana passada garantiu que a Rússia não tem interesse em entrar em conflito com a NATO, considerou que "o Ocidente não renuncia à estratégia de contenção da Rússia e tão pouco dos seus objetivos agressivos na Ucrânia". Ao que acrescentou: "Também não temos intenção de desistir dos objetivos da operação militar especial."

O líder russo acusou o Ocidente de continuar a sua "guerra híbrida" contra o Kremlin, fornecendo a Kiev informações de segurança "em tempo real" e armamento moderno, desde lançadores de foguetes, mísseis de longo alcance, munições e drones. "E, como bem sabemos, planeia entregar os caças F-16 à Ucrânia e o treino dos pilotos já está em curso."

Ainda assim, declarou que a Rússia está aberta a conversações para pôr fim ao conflito, mas nos seus termos. "Não vamos desistir do que é nosso. Se eles querem falar, deixem-nos entrar nas conversações. Mas nós vamos agir com base nos nossos interesses."

Para já sucedem-se alertas de responsáveis ocidentais. Depois do presidente norte-americano Joe Biden e do secretário-geral da NATO Jens Stoltenberg, foi a vez do chefe das forças armadas da Bélgica, que disse acreditar que a Rússia possa atacar a Moldávia ou os estados bálticos num futuro próximo. "A Europa deve preparar-se urgentemente e deixar claro que pode defender-se" e que "contra-atacará se necessário", disse Michek Hofman.

Já o ministro da Defesa russo, Sergei Shoigu, destacou as capacidades do que considera ser o "exército mais bem preparado e capaz do mundo, armado com armas avançadas que foram testadas em combate".

Shoigu disse que 650 mil soldados russos receberam experiência de combate na Ucrânia e parte deles minaram os campos em 7 mil quilómetros, impedindo a contraofensiva ucraniana. "Apesar das sanções, produzimos mais armas de alta tecnologia do que os países da NATO", disse.

Segundo Shoigu, as forças armadas receberam mais de 1500 tanques novos e modernizados, mais de 2500 veículos blindados e 237 aviões e helicópteros. Declarou que as indústrias de armas russas aumentaram a produção de tanques em 5,6 vezes, o número de drones construídos em 16,8 vezes e reforçaram a produção de munições de artilharia em 17,5 vezes desde o início da invasão.

O ministro anunciou ainda que as forças armadas russas estavam a finalizar os preparativos para colocar o míssil balístico intercontinental Sarmat em serviço de combate.

A embaixadora da Ucrânia em Portugal, Maryna Mykhailenko, ofereceu uma vyshyvanka (camisa bordada tradicional) ao ministro dos Negócios Estrangeiros João Gomes Cravinho durante uma receção, em Lisboa, em agradecimento aos portugueses que se têm distinguido no apoio e solidariedade para com o seu país.

A diplomata, a exercer funções em Lisboa desde maio, destacou o papel de Cravinho enquanto apoiante da causa ucraniana e dinamizador dos planos de reconstrução do país. Deixou ainda três notas sobre a atualidade: não é altura de desistir; é tempo para a justiça atuar no que respeita aos crimes de guerra; o projeto europeu não estará completo sem a Ucrânia. "Não houve outro país que tenha sacrificado tanto", disse.

cesar.avo@dn.pt

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