Sudão: pilhagem e destruição no avanço dos paramilitares para sul

Há oito meses que as forças do general Hamdan Dagalo combatem o Exército do general Abdel Fattah al-Burhan. População fugiu de Cartum, mas agora está de novo em risco.
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"As Forças de Apoio Rápido (RSF, na sigla em inglês) pilharam tudo: carros, camiões e tratores", lamenta-se um habitante de uma aldeia do estado de Aljazira, sob anonimato, por medo de represálias dos paramilitares em pleno avanço para sul no Sudão em guerra.

Os aldeões de Aljazira suspendem a respiração cada vez que ouvem o barulho de um carro ou de uma mota, porque receiam que os temíveis paramilitares das RSF estejam a bordo.

"No sábado, sete indivíduos armados com metralhadoras e com o uniforme das RSF bateram à minha porta", conta à AFP Abdine, que não quer revelar o apelido por questões de segurança.

Fizeram perguntas sobre o carro estacionado na sua garagem, antes de "virarem as armas contra nós", lamenta este habitante de Hasaheisa, uma aldeia localizada 50 quilómetros a norte da capital de Aljazira, Wad Madani.

A guerra sangrenta que opõe há oito meses o Exército Sudanês aos paramilitares das RSF, em Cartum, obrigou cerca de meio milhão de pessoas a procurarem refúgio mais a sul, neste estado agrícola até há pouco tempo poupado à violência. Mas, recentemente, os paramilitares, que controlam a maioria da capital, avançaram ao longo da estrada que liga a capital a Wad Madani, conquistando aldeia atrás de aldeia e aterrorizando os habitantes.

A 15 de dezembro, atacaram Wad Madani, forçando mais de 300 mil pessoas a fugir novamente, para o interior do estado de Aljazira, mas também em direção aos estados vizinhos de Sennar e Gedaref, segundo a ONU. Desde então, os paramilitares continuam a sua implacável descida em direção ao sul.

No sábado, foram vistos "15 quilómetros a norte de Sennar", 140 quilómetros a sul de Wad Madani, segundo indicaram testemunhas à AFP. "Os aviões do Exército bombardearam posições das Forças de Apoio Rápido ao norte da aldeia, provocando pânico entre os habitantes", relataram outras testemunhas.

Desde o início surpresa do conflito, a 15 de abril, o Exército liderado pelo general Abdel Fattah al-Burhan tem usado principalmente a sua vantagem aérea: é o único a ter aviões de combate. As RSF do general Mohamed Hamdan Dagalo, pelo contrário, privilegiam as tropas móveis, empoleiradas em carrinhas pick-up. Por onde quer que passem, aumenta o receio entre as mulheres e as jovens de serem alvo de "violências sexuais, uma ameaça recorrente" no Sudão, diz a ONG Save the Children.

No mercado de Hasaheisa, as portas das bancas estão abertas e a mercadoria que não interessava aos saqueadores está espalhada no solo, viu um jornalista da AFP. "As RSF vieram para nos combater, os cidadãos, ou para combater o Exército?", questiona Omar Hussein, de 42 anos, depois de as lojas e veículos que pertenciam à sua família serem pilhados ou destruídos.

Num outro mercado, o de Tamboul, a meio caminho entre Cartum e Wad Madani, os paramilitares chegaram disparando de forma indiscriminada, disseram testemunhas.

O conflito fez 12 mil mortos, segundo as Nações Unidas, um número seguramente subestimado, uma vez que zonas inteiras do país estão isoladas do mundo. Também causou 7,1 milhões de deslocados, dois quais 1,5 milhões fugiram para os países vizinhos, disse na semana passada Stéphane Dujarric, porta-voz do secretário-geral da ONU, descrevendo "a crise de deslocados mais importante do mundo".

O Conselho de Segurança das Nações Unidas mostrou-se na sexta-feira "preocupado" com a intensificação da violência no Sudão, "condenando firmemente" os ataques contra os civis e a extensão do conflito "a zonas que acolhem importantes populações de deslocados".

Rabah, que também quis esconder o nome da família, contou que quando os paramilitares "dispararam tiros diante da casa antes de entrar, entrámos todos em pânico". "Só saíram depois de revistar todos os quartos", contou ela à AFP.

Al-Tayeb, que vive numa aldeia próxima de Hasaheisa, foi surpreendido quando os paramilitares lhe fizeram "uma pergunta estranha: queriam saber como é que eu tinha conseguido o dinheiro para construir a minha casa, que herdei do meu pai e que foi construída há 35 anos". Uma resposta que, de qualquer forma, importa pouco aos combatentes.

No sábado, oito pessoas foram mortas pelas RSF na aldeia de Artadhwa, porque se opuseram às pilhagem, contaram testemunhas.

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