Rafael Botella. Do desejo de morrer aos projetos que agora o fazem viver

Um acidente de viação fez com que ficasse tetraplégico e a defender a morte assistida - aprovada em Espanha. Após receber apoio já pensa em aproveitar as ideias que idealizou.

Pela cabeça de Rafael Botella passou várias vezes a ideia de querer morrer. Tetraplégico desde os 19 anos por causa de um acidente de viação, em que morreu a sua namorada, foi só dez anos depois, quando começou a ter umas dores insuportáveis, que procurou informação para tentar acabar com a sua vida. "Para mim não é um problema andar de cadeira de rodas, é a minha vida, não é mau. E até o facto de não me poder mexer tem solução, alguém pode transportar-te e ajudar-te. Mas com a dor tens de ser tu a lidar, ninguém te pode ajudar e psicologicamente é duro", explicou o jovem de Valência durante um recente encontro virtual com jornalistas.

E foi precisamente quando procurou ajuda junto da Associação Direito a Morrer com Dignidade (DMD), que desde há quase 37 anos luta pela Lei da Eutanásia em Espanha (recém-entrada em vigor), que Rafael se agarrou de novo à vida. "Quando falei com ele senti a sua infinita vontade de viver, o problema estava nas dores", conta Javier Velasco, presidente da DMD. "Por isso procurámos uma solução, levámo-lo a Barcelona, a um centro especializado na sua doença para tratar de reduzir a dor, mas sem sucesso", lembra Velasco.

Nessa altura muitas coisas mudaram na vida do jovem que atualmente tem 36 anos. Foi entrevistado pelo diário El País onde contou a sua experiência e a partir daí começou a receber mensagens de apoio de pessoas que não conhecia. Tudo isto ajudou-o a "não querer morrer agora. Os médicos, a família, os amigos... eles estão a ajudar-me. A dor continua a afetar-me, mas também tenho a oportunidade de conhecer pessoas e ir até lugares que nunca imaginei, como a uma corrida de Moto GP", afirmou emocionado.

A vida de Rafael está agora cheia de projetos. "Estou a escrever um livro, a fazer uma curta-metragem sobre a minha vida e outra sobre bullying", conta. "Quando tens projetos estes empurram-te a dizer não à morte. Quero acabar tudo isto e ter pessoas ao lado ajuda", acrescenta.

Mas mesmo com esta experiência de vida, Rafael Botella é partidário da eutanásia. A Lei Orgânica de Regulação da Eutanásia entrou recentemente em vigor em Espanha, onde a partir de agora qualquer pessoa maior de idade com uma doença grave e incurável, que esteja a sofrer de forma "constante e intolerável", poderá solicitar ajuda médica para morrer.

Muitas pessoas entram em contacto com Rafael, perguntando-lhe sobre a possibilidade de ter ajuda para morrer. Nessa altura responde: "Não, espera, não faças isso, procura uma solução! Não quero dizer adeus às pessoas, mas quando entendes que sofrem muito ou não querem encontrar uma solução, deves respeitar a sua decisão", conclui.

Javier Velasco sublinhou o acompanhamento que a DMD oferece às pessoas que procuram a associação. "Ouvimos a sua história e tentamos perceber qual o motivo que os leva a querer acabar com a sua vida porque às vezes esse motivo não é real", sublinha.

Quanto à nova lei diz que é um avanço "nos direitos civis e uma nova possibilidade para uma morte de uma forma mais digna". Foram quase 40 anos de "luta", diz, lembrando que desde 2017 "sabíamos que ia chegar [a lei] antes ou depois". Mas Javier lamenta alguns obstáculos que se vão encontrar na aplicação da legislação pois esta não é nacional, já que são as comunidades autónomas que vão aplicá-la porque têm competências delegadas na saúde.

Sétimo país

Espanha é o sétimo país do mundo e o quarto na Europa a aprovar esta lei. A diferença em relação aos outros países é que "a lei espanhola é mais exaustiva, há um controlo prévio e posterior", explica o presidente da DMD. Reconhece que a lei "acaba por ser excessivamente burocrática e complexa para uma pessoa que solicita ajuda para morrer".

O processo deve demorar 45 dias e contempla a objeção de consciência para qualquer profissional da saúde que nele participa. Segundo as estimativas da Direito a Morrer com Dignidade, tendo em conta os números de Bélgica e Holanda, em Espanha os pedidos para morrer "não vão chegar a representar o 1% das mortes espanholas. Poderíamos chegar neste ano e meio até às 3500 pessoas, contando por alto. Mas em Espanha ainda há muito tabu sobre a morte".

A associação defende a formação dos profissionais da saúde porque "não sabem assumir a morte, para eles é um fracasso".

Rafael Botella e Javier Velasco lembram-se também da figura de Ramón Sampedro, uma história de vida, luta e morte contada por Alejandro Amenábar no filme Mar adentro que conquistou um Óscar em 2005. Um filme que mudou a forma como a sociedade encara a eutanásia.

Atualmente Rafael continua a fazer o que lhe disse um médico: "Que os projetos me permitam esquecer a dor. Quando tiver tudo feito, não sei, se calhar quero voltar a ir embora. E deveria ser respeitado", conclui.

dnot@dn.pt

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG