Primeiro foi o secretário de Estado norte-americano, Antony Blinken, a reafirmar a "inabalável assistência económica, humanitária e de segurança" à Ucrânia e a condenar os "ataques atrozes" que a Rússia realizou numa dúzia de cidades com o lançamento de mísseis e de drones de fabrico iraniano e que mataram pelo menos 14 pessoas e feriram 97..Horas depois foi o presidente dos EUA quem reagiu. Embora num tom em que procurou não amplificar mais ainda a gravidade dos acontecimentos, Joe Biden disse que os ataques "só reforçam ainda mais" o "compromisso de estar com o povo da Ucrânia durante o tempo que for necessário". E assegurou que o seu país irá continuar a "impor custos à Rússia pela sua agressão, responsabilizar Putin e a Rússia pelas suas atrocidades e crimes de guerra, e fornecer o apoio necessário para que as forças ucranianas defendam o seu país e a sua liberdade". Horas antes, Vladimir Putin, ao comentar a maior vaga de ataques em meses ao país sob ocupação, disse que "se as tentativas de ataques terroristas continuarem, a resposta da Rússia será dura"..As primeiras notícias sobre os ataques que apanharam os ucranianos em plena hora de ponta, de Kiev a Kharkiv, de Dnipro a Lviv, apontavam para esta demonstração de poderio bélico como uma retaliação à explosão que este fim de semana danificou a ponte de Kerch, que liga a Rússia à península da Crimeia, anexada por Moscovo em 2014..Os comentários do líder russo bem como do homem que alternou consigo nos cargos de topo, Dmitri Medvedev, apontam para uma resposta aos acontecimentos das últimas horas. No entanto, para os serviços de informações ucranianos, este ataque estava planeado muito antes. Num discurso proferido numa reunião de emergência do Conselho de Segurança Nacional, Putin declarou que os ataques - 84 mísseis de cruzeiro lançados do mar Cáspio e do mar Negro - foram a resposta à explosão na ponte que liga a Rússia com a Crimeia através de "armas de alta precisão e de longo alcance do ar, do mar e da terra" para realizar "ataques maciços aos alvos das instalações de energia, comando militar e comunicações da Ucrânia"..Os bombardeados têm outra versão. Só em Kiev, segundo o seu autarca Vitali Klitschko, foram atingidos 45 edifícios residenciais, três escolas, uma creche e dois centros de estudos, cinco estabelecimentos de saúde e ainda cinco alvos com infraestruturas críticas. Para o deputado russo Evgeny Popov, recai nos ucranianos a responsabilidade pelos mísseis russos atingirem alvos como instalações frequentadas por crianças. Segundo o russo, tal é resultado dos sistemas antimíssil ucranianos. Kiev afirma que conseguiu derrubar 43 mísseis de cruzeiro e 13 drones..Putin disse ainda que a Rússia continuará a retaliar se a Ucrânia voltar a atacar o que ele considera território "russo" e "ataques terroristas". Já Medvedev, que tem representado o papel de dirigente desbocado enquanto vice de Putin no Conselho de Segurança - tem reiterado as ameaças de uso de armas nucleares - afirmou que este foi só "o primeiro episódio" e que o objetivo é "o total desmantelamento do regime político da Ucrânia"..Esta narrativa de capacidade de pronta retaliação é rejeitada por Kiev. Segundo contam os serviços secretos militares ucranianos em comunicado, as forças militares receberam instruções do Kremlin para preparar ataques de mísseis em grande escala contra infraestruturas civis nos dias 2 e 3 de outubro..Certo é que estes ataques coordenados aconteceram dois dias depois de entrar em funções o novo comandante das forças russas na Ucrânia, Sergei Surovikin. O general liderou a campanha militar na Síria, cujos métodos passaram por arrasar cidades inteiras e usar armas químicas, o que leva alguns analistas a temer que se entre numa fase da guerra ainda mais brutal..No entanto, outros não veem que tal seja possível, uma vez que Moscovo não dispõe já de um arsenal grande de mísseis e devido às sanções terá dificuldades em fabricar mais, como se demonstra pelo uso de drones iranianos. "Não creio que a Rússia consiga manter este ritmo de ataques indefinidamente, e terão de recorrer a armas que não são adequadas", comentou à BBC o editor de Defesa da Economist Shashank Joshi..Volodymyr Zelensky, que discursa hoje aos líderes do G7, passou parte do dia a falar com outros líderes e que, no caso das conversas com Joe Biden, o canadiano Justin Trudeau e a britânica Liz Truss realçou a "prioridade número um" da defesa aérea. Segundo a Casa Branca, o presidente dos EUA empenhou-se em fornecer o apoio necessário para se defender, incluindo sistemas avançados de defesa aérea. No mesmo dia, o Ministério da Defesa da Alemanha anunciou a entrega do primeiro dos quatro sistemas de defesa aérea IRIS-T SLM..Twittertwitter1579427132367048706.Os ataques ordenados por Moscovo receberam pronta condenação internacional, do secretário-geral das Nações Unidas António Guterres aos aliados e parceiros da Ucrânia, UE, NATO e EUA à cabeça, mas também se ouviram reações em Pequim e em Nova Deli. O governo chinês apelou para o fim da escalada, ao passo que o executivo indiano instou para o "fim imediato das hostilidades" e o regresso ao diálogo e à diplomacia. Já a Moldávia, que viu o seu espaço aéreo violado por mísseis de cruzeiro lançados do mar Negro, chamou o embaixador russo..O ministro dos Negócios Estrangeiros da Estónia Urmas Reinsalu declarou a Rússia um "estado patrocinador de terrorismo do Estado" na sequência dos bombardeamentos de segunda-feira. Na semana passada a Comissão dos Negócios Estrangeiros do parlamento estónio anunciou que em breve os deputados irão votar uma declaração semelhante..Os deputados da Lituânia já o fizeram em maio e os da Letónia em agosto. Nos Estados Unidos, legislação bipartidária foi anunciada no Senado, mas ainda não tem data de votação. Há três semanas a administração Biden mostrou-se contra esse passo, alegando que poderá dificultar o acordo dos cereais no Mar Negro, bem como a posição de Zelensky ("poderia reduzir a sua flexibilidade para chegar a uma solução negociada", disse Jack Kirby, coordenador das comunicações do Conselho de Segurança Nacional dos EUA, em entrevista à Voice of America)..O governo alemão fez saber junto dos jornais que o presidente do Gabinete Federal para a Segurança das Informações (BSI, na sigla em alemão), responsável pela cibersegurança do país, tem os dias contados no cargo. Arne Schönbohm está sob suspeita por também fazer parte de uma associação que manterá contactos com os serviços de informações russos..Schönbohm disse que as alegações são "absurdas". Já o Ministério do Interior declarou "levar a sério" as acusações e que irá "investigar exaustivamente" a questão. A Alemanha sofreu no sábado uma sabotagem no serviço ferroviário. Um corte em cabos de comunicação paralisou o tráfego por três horas no norte do país..cesar.avo@dn.pt