"Preços elevados do gás não são do nosso interesse"

Tove Bruvik Westberg, embaixadora da Noruega, país forte em exportação de petróleo e gás, está preocupada como agravamento do preço da eletricidade por efeito do gás; mostra-se confiante na segurança das infraestruturas críticas de transporte de energia e quer estreitas as relações com Portugal

Com uma guerra a decorrer na Europa, como avalia hoje a posição geoestratégica da Noruega no continente?
A Noruega tem uma área terrestre quatro vezes o tamanho de Portugal e com uma distância do sul ao norte que leva 31 horas de carro numa viagem ininterrupta. Não é um país muito grande, mas que tem uma grande distância de uma ponta à outra. Fazemos parte do acordo do Espaço Económico Europeu e o nosso mercado principal é o dos países nórdicos, mas também da União Europeia em geral. Temos uma ligação muito estreita e bem organizada com a União Europeia (UE) e posso dar mais exemplos.

Quais são esses exemplos?
A relação Noruega-UE sempre foi um assunto relativamente intenso, houve dois referendos para decidir sobre a nossa adesão à UE. O primeiro, em 1972, o segundo em 1994. Os dois tiveram maioria dos votos contra, não com mais de 52% ou 53%, mas ainda assim com resposta negativa. Houve dois lados: o lado do não tinha o medo dos pescadores e agricultores de perderem acesso aos mercados e o lado do sim, que tinha o medo da Noruega ficar fora do mercado internacional. Mas assim continua, tem instrumentos, tem regras, mas claro, ainda ficamos sem estatuto como Portugal tem.

Acha que pode haver alguma alteração nessa vontade dos noruegueses, até por culpa da guerra?
É difícil dizer, mas o governo estabeleceu uma comissão no ano passado para durante 2023 realizar um relatório. No final do ano, vão apresentar esse relatório e as lições que podemos retirar disto. É importante dizer que temos aquele acordo que regula a relação entre a Noruega e a UE que continua sempre a ser aprofundado.

Com o conflito na Ucrânia, os países europeus tendem a ficar mais unidos. Como é que a Noruega entra nessa equação?
Ficamos nessa equação, sim. O ataque da Rússia é um tremendo sofrimento. Do nosso lado, achamos que a guerra mostrou a necessidade de estarmos unidos e de continuarmos a apoiar a Ucrânia para resistir a esta invasão. Do lado norueguês damos bastante apoio monetário e civil. Posso mencionar o apoio à verificação dos ataques contra a humanidade, a ajuda para comprar gás e também a ajuda militar. É importante reforçar que o fornecimento de gás, é um assunto muito importante entre e a UE.

"Do lado norueguês damos bastante apoio monetário e civil à Ucrânia, apoio à verificação dos ataques contra a humanidade, ajuda para comprar gás e ajuda militar."

Os ataques ao Nord Stream causaram forte preocupação?
O que é importante mencionar é que os preços altos do gás não têm nenhum interessa da parte da Noruega, fazemos parte de negociações e diálogos com a comunidade europeia. O nosso primeiro-ministro está sempre em contacto com a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen. A Noruega aumentou as exportações de gás em 8%, em 2022 face ao ano anterior. Atualmente, fornecemos um terço do abastecimento do gás da Europa. Temos todo o interesse em contribuir e fazer parte das soluções para implementar a estabilidade de fornecimento de energia na Europa. O diálogo entre a Noruega e a UE só se intensificou e aprofundou durante este período.

Acredita que as infraestruturas submarinas estarão agora mais seguras?
Sim, claro. Primeiro, o nível da nossa exportação de gás é historicamente alto e temos a preocupação com segurança da infraestrutura energética crítica. Temos mais de 9 mil quilómetros de oleodutos submarinos, sem contar com a enorme rede de cabos subaquáticos. E intensificámos as medidas de vigilância e proteção, assim como monitorizamos a infraestrutura crítica de perto.

A Noruega tem uma posição geográfica mais próxima da Rússia e da Ucrânia do que Portugal. Sente-se particularmente ameaçada por Putin?
Acho que não. Claro que há muita atenção ao que está a acontecer, mas temos sempre os mesmos países como vizinhos, sempre tivemos um diálogo construtivo, claro que isso mudou durante o último ano. Não sentimos grande preocupação de que algo poderá acontecer.

Como é que viu o pedido da Finlândia de adesão à NATO?
Damos muito apoio e ficamos contentes com o processo que está em curso com a Suécia e a Finlândia a aderir à NATO.

Putin não terá razão quando diz que a tentativa de adesão da Finlândia à NATO é uma ameaça para a Rússia?
Não. Ele dirá o que quiser dizer, mas o que é interessante para o nosso lado é observar como os países dentro da NATO sempre se conseguiram juntar e manter um diálogo construtivo. Isto é muito importante, mas claro que não é o que Putin quer.

Na Europa tem-se debatido a necessidade de uma política de defesa comum, mais financiamento e até de um eventual um exército europeu. A Noruega tem posição sobre esse assunto?
Claro que acompanhamos e queremos uma Europa forte, mas para nós a NATO também é um instrumento muito relevante.

O petróleo é uma das riquezas da Noruega, mas tem feito uma aposta nas renováveis. É uma estratégica para continuar?
A exportação da Noruega continua a ser baseada principalmente no petróleo, no gás e na pesca, mas temos grandes ambições em contribuir e fazer parcerias com a UEpara fazer parte do Green Deal e do instrumento Fit for 55. Temos bastantes ambições, particularmente aumentar o acesso à energia eólica e eólica offshore. Também é interessante mencionar que muita da competência e know-how para investirmos agora na energia eólica para alterar o transporte marítimo para uma forma mais ecológica, vem dos anos com a produção petrolífera. A competência de trabalhar no mar do norte em condições bastante difíceis e mesmo muita da tecnologia está a ser alterada para ser aplicada a outras fontes de energia. Há bastante interesse e dedicação por parte do governo norueguês. O governo aderiu a um objetivo de aumentar a exportação norueguesa, aumentando todas as áreas, exceto petróleo e gás. Também estamos a ver mais interesses em Portugal e no fim do mês, por exemplo, vamos receber uma delegação com companhias na área da energia eólica. Uma outra área para descarbonizar a produção também é o tema da captura e armazenamento de carbono, em que a Noruega tem bastante experiência. Nesta área, tivemos no fim de novembro um workshop em Portugal, aqui em Lisboa, com a indústria norueguesa e a portuguesa, com a investigação, sociedade civil e entidades públicas, para partilhar o conhecimento que a Noruega tem nesta área.

"A exportação da Noruega continua a ser baseada no petróleo, gás e pesca, mas temos grandes ambições em contribuir e fazer parcerias com a UE no Green Deal e Fit for 55."

Este mês, a nova delegação que vem a Lisboa vem também à procura de oportunidades de parceria?
Sim, vem procurar oportunidades de parceria até porque esta é uma área grande, portanto, também há uma vontade grande e disponibilidade da parte dos portugueses para trabalhar no mar do Norte, por exemplo.

Como pretende o governo reforçar essa aposta nas energias renováveis em 2023?
Não sei números concretos, mas posso dizer que o Fit for 55 e os instrumentos para continuar a dinamizar as indústrias verdes estão a ser avaliados por nós para vermos como ficam dentro do acordo que temos. Falamos também sobre os EEA Grants e sobre a parte de estimular a indústria verde e descarbonizar, assuntos que ficam dentro dos fundos que estão a ser utlizados e que ainda vão ser utilizados.

Já que estamos a falar dos EEA Grants, a Noruega também está a verificar a sua aplicação em Portugal, serão cerca de 100 milhões de euros. Quais são as prioridades de investimento?
Primeiro, dizer que no acordo que temos com Portugal decidimos as prioridades juntos. Como somos dois países com uma costa longa e os dois juntos temos quase 50% da costa europeia. Assim, o programa Crescimento Azul é muito importante dentro da cooperação que temos no EEA Grants. Investigação, inovação, cooperação entre companhias é o que existe. O ambiente é outra área e a cultura também, particularmente a que tem a ver com a história marítima. Depois, a consagração da igualdade de género e dos cidadãos ativos.

São 300 projetos já em marcha até abril de 2024. Quando chegarmos a esta data, o que seria para si uma vitória?
Primeiro, a troca de conhecimento e informações que existe entre instituições portuguesas e norueguesas e até mesmo da sociedade civil. Em segundo, toda a inovação que foi feita ao longo destes anos de implementação e, uma das áreas que podemos mencionar, é o navio de pesquisa Mário Ruivo que foi renovado com fundos do EEA Grants. É um instrumento decisivo para trabalharmos juntos, para continuar a fazer mais pesquisa nos cursos marítimos e no estado do mar. Outra área é a das alterações climáticas, dentro do programa do ambiente, há muita cooperação entre instituições norueguesas e portuguesas. Ao longo do tempo, fizeram vários planos para preparar a adaptação às alterações climáticas que estão a acontecer.

Portugal tem uma relação de longa história com a Noruega ao nível das pescas, sobretudo por causa do bacalhau. Como considera que vai evoluir nos próximos tempos?
Temos uma ligação muito forte nesta área. Desde 1830 que há bacalhau seco importado da Noruega para Portugal, é fascinante, tal como é absolutamente fascinante viajar por Portugal e encontrar as histórias das pessoas que viajaram durante décadas para o mar do norte para pescar. Foi importado para Portugal, no ano passado, 135 mil toneladas de bacalhau. É um elemento fundamental das nossas relações e é muito interessante que não dá para participar em nenhum encontro político entre Noruega e Portugal sem mencionar o assunto do bacalhau. É mesmo importante e até temos um representante em Lisboa, no Norwegian Seafood Council, e também eles têm sempre de se adaptar e introduzir novas maneiras para que os jovens continuem a ter interesse em preparar boa comida com bacalhau. É uma relação muito forte e muito boa, muito ligada aos assuntos do mar e às áreas das energias renováveis. Em novembro, tivemos uma visita em Oslo de dois secretários de estado - da Internacionalização e do Planeamento -, junto com a imprensa portuguesa. Durante a visita, a AICEP abriu uma delegação em Oslo. Estamos a observar que há diálogo e contacto muito positivo e continuamos a procurar, juntos, ainda mais oportunidades para reforçar as relações de investimentos e business.

Por causa das alterações climáticas, podemos ou não ficar sem bacalhau à mesa?
Não, não. E há também estudos interessantes nas escolas secundárias aqui em Portugal, tivemos conhecimento de preocupações de alguns jovens portugueses, mas não, é um sistema que está bem implantado a nível de acompanhar o estado do bacalhau no mar do norte.

Terminou a Cimeira de Davos. Que relevância lhe atribui?
É preciso mais atenção a como reforçar as medidas concretas.

Greta Thunberg disse em Davos, antes da pandemia, "chega de blá, blá, blá". É isso?
Sim, ela disse isso e é claro. Também foi um assunto muito importante no Cairo a questão de conseguir aumentar a implementação.

E que importância teve Davos?
Para a Noruega, esta Cimeira de Davos foi relevante por causa da questão energética. Os preços elevados do gás não são do nosso interesse, já que agravam o preço da eletricidade na Noruega, e têm um impacte negativo na indústria dos nossos principais parceiros europeus. A Noruega está comprometida com o aumento da nossa produção de energia de fontes renováveis, e assim dar um contributo cada vez maior para a descarbonização da economia europeia.

"A Cimeira de Davos foi relevante por causa da questão energética. A Noruega está comprometida com o aumento da produção de energia de fontes renováveis e em dar um contributo para a descarbonização da economia europeia."

Em termos de Fundo Soberano da Noruega, quais as apostas para o futuro?
O Fundo Soberano tem um instrumento muito importante a que chamamos o fundo de pensões, estabelecido para facilitar a poupança do governo para financiar momentos de despesas públicas e apoiar a despesa pública a longo-prazo. Temos um regulamento bastante rigoroso, foi o próprio parlamento que estabeleceu o enquadramento onde o fundo está dirigido. O sistema é que, a cada ano, o governo só pode utilizar uma pequena percentagem, não do valor do fundo, mas uma parte do rendimento anual do mesmo até 3% do valor do fundo até ao início do ano. É um sistema bem protegido, permite ter acesso a fundos ao longo dos anos, mas não para usar muito agora. Nessa fatia que é possível utilizar, o Fundo Soberano define áreas estratégicas - poderá ser o desenvolvimento em África, na Europa, social ou económico.

O que antevê para o futuro?
Têm uma administração e recebem as instruções do parlamento através do Ministério das Finanças, mas em geral é para continuar a investir nas áreas sustentáveis daqui para a frente. Mas não dá para aparecer e sugerir alguma coisa, são eles que avaliam. Mas foi decidido há uns anos atrás que não iríamos continuar a investir nas áreas não sustentáveis.

Qual é a grande meta que gostaria de alcançar no seu mandato enquanto embaixadora em Portugal?
É muito importante para mim mostrar as possibilidades e vontade de trabalhar com Portugal. Tudo o que está a acontecer aqui é em termos de atrair investimento nas áreas das energias renováveis, mas também fortalecer as ligações que temos relativamente ao mar. Estes são os assuntos mais importantes e é sempre importante acompanhar a boa implementação, porque também temos uma cooperação muito boa com a administração, o focal point que toma conta dos EEA Grants. Daqui a algumas semanas, vamos fazer uma visita à ilha da Madeira para organizar o match making entre companhias norueguesas e portuguesas lá. Portanto, a meta é fortalecer as relações económicas, além dos EEA Grants.

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