Manifestação de força gay contra Orbán

Marcha anual em Budapeste converteu-se em protesto contra nova lei que restringe conteúdos nos media sobre LGBT.

Uma marcha de orgulho LGBT transformada em manifestação contra a política do governo de Viktor Orbán foi o que aconteceu no sábado em Budapeste, tendo contado com o apoio declarado de mais de 40 embaixadas e instituições culturais estrangeiras na Hungria.

Como disse o porta-voz da organização Jojo Majercsik, a marcha deste ano não foi apenas uma celebração das lutas históricas do movimento, mas sobretudo um protesto contra as atuais políticas do executivo que visam as lésbicas, gays e restante abecedário não hetero. "Muitas pessoas LGBTQ têm medo e já não sentem que têm um lugar ou um futuro neste país", lamentou Majercsik à agência Associated Press.

O mesmo foi ouvido ao longo da marcha que atravessou o Danúbio pela ponte da Liberdade e se cruzou com minúsculas contramanifestações. "Este ano é muito mais importante, porque agora há verdadeiros riscos. A nossa situação é bastante má... O meu plano é que, se as coisas piorarem ainda mais, deixarei a Hungria", disse Mira Nagy, uma participante de 16 anos.

No início do mês entrou em vigor uma lei contestada quer pela comunidade LGBT, quer pela União Europeia, em mais um tema que marginaliza o governo nacionalista e populista de Orbán em relação aos parceiros europeus (embora conte com a solidariedade polaca). A Comissão Europeia lançou na semana passada dois procedimentos judiciais contra Budapeste por causa da nova lei, alegando que é discriminatória e contrária aos valores europeus de tolerância e liberdade individual.

A lei proíbe a exibição de conteúdos a menores que retratem a homossexualidade ou a mudança de género, exige que apenas organizações cívicas aprovadas pelo governo possam proporcionar educação sexual nas escolas, e limita a disponibilidade de conteúdos e textos nos media a menores que discutam a orientação sexual. As medidas foram anexadas a um projeto de lei que permite penas mais duras para os pedófilos.

O Fidesz, partido de Orbán, alega que as medidas relacionadas com as minorias sexuais visam proteger crianças e famílias e não visam os homossexuais adultos. Os manifestantes contrapõem que a legislação foi a mais recente ação governamental dirigida à comunidade LGBT, após uma proibição no ano passado da adoção por casais do mesmo sexo e mudança de género em documentos pessoais. A Hungria não permite o casamento homossexual, mas reconhece as uniões civis. "O governo continuou a sua campanha infame, de exclusão, e estigmatizante contra a comunidade LGBTQ", disse a marcha Pride de Budapeste.

Na quarta-feira, Orbán anunciou a realização de um referendo sobre a lei, perguntando aos húngaros se as crianças devem ser introduzidas a temas de orientação sexual nas escolas, e se a mudança de sexo deve ser promovida ou retratada às crianças. Questões "abertamente transfóbicas e homofóbicas" que fazem parte de uma "campanha de propaganda" para incitar ao ressentimento contra a comunidade LGBT, condena Majercsik.

cesar.avo@dn.pt

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG