Líder do Hezbollah aponta o dedo aos EUA e não exclui hipótese de "guerra total"

No aguardado discurso, Hassan Nasrallah disse que o grupo xiita libanês já está no conflito desde 8 de outubro - um dia depois do ataque do Hamas a Israel - mas não declarou uma guerra aberta contra os israelitas. Netanyahu avisa que pagarão "um preço inimaginável".
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Quase um mês depois do ataque surpresa do Hamas a Israel e do início dos bombardeamentos israelitas na Faixa de Gaza, o líder do grupo xiita libanês Hezbollah (aliado do grupo terrorista palestiniano) quebrou o silêncio. Hassan Nasrallah, desde local desconhecido, falou durante mais de uma hora para apontar o dedo aos EUA e avisar que não está totalmente afastada a hipótese de uma "guerra total". Mas não fez qualquer anúncio sobre planos concretos para arrastar ainda mais o Líbano para o conflito - apesar das trocas de tiros na região fronteiriça com Israel.

"A América é totalmente responsável pela atual guerra em Gaza" e pelo elevado número de mortos civis, afirmou Nasrallah, considerando que "Israel é simplesmente uma ferramenta" no conflito e que é "tão frágil como uma teia de aranha" - lembrando que ainda não conseguiu atingir os seus objetivos em Gaza. "Quem quiser impedir uma guerra regional, e isto é uma mensagem para os americanos, deve rapidamente parar a agressão a Gaza", acrescentou.

O líder do Hezbollah tinha ainda outras mensagens para os EUA: "Vocês sabem bem que se houver uma guerra na região, a vossa frota não vai servir para nada, nem o combate aéreo vai ajudar. Os vossos interesses e os vossos soldados e a vossa frota serão os primeiros a pagar o preço."

Após o ataque do Hamas de 7 de outubro, os EUA enviaram para o Mediterrâneo Oriental dois porta-aviões (e respetivos navios de apoio) - o USS Gerald R. Ford e o USS Dwight Eisenhower. Alegadamente há cerca de 45 mil militares norte-americanos na região do Médio Oriente, muitos deles estacionados contudo em bases nos países do Golfo (Koweit, Bahrein e Qatar). Ao largo do Iémen, um outro navio norte-americano intercetou há duas semanas vários drones e mísseis lançados pelos rebeldes hutis (também apoiados pelo Irão). Os militares dos EUA têm também sido alvo de ataques na Síria e no Iraque.

Em Washington, a porta-voz da Casa Branca, Karine Jean-Pierre, reagiu às declarações de Nasrallah, dizendo apenas que o Hezbollah "não devia tentar tirar vantagem do conflito em curso". Já o secretário de Estado norte-americano, Antony Blinken, em Telavive, avisou: "Estamos determinados a que não haja uma segunda ou terceira frente aberta neste conflito", lembrando que o presidente dos EUA, Joe Biden, "disse desde o primeiro dia a qualquer pessoa que estivesse a pensar em abrir uma segunda frente, a tirar vantagem da situação, para não o fazer".

Milhares de pessoas nas ruas de Beirute e Teerão assistiram ao discurso do líder do Hezbollah, que era aguardado com expectativa, tendo levado inclusivamente Israel a reforçar a segurança na fronteira. "Alguns alegam que o Hezbollah está prestes a entrar na disputa. Digo-vos: nós estamos envolvidos nesta batalha desde 8 de outubro", afirmou. "O que está a acontecer na nossa frente não aconteceu desde 1948 [o ano da criação do Estado de Israel], mesmo durante a guerra de julho de 2006", acrescentou.

Nasrallah explicou que os rockets que têm sido lançados diariamente contra o norte de Israel (atingindo maioritariamente alvos militares) visam manter na região as forças israelitas, que de outra forma estariam focadas na Faixa de Gaza. A escalada de tensão na fronteira já causou oito mortos em Israel (sete soldados e um civil) e pelo menos 69 no Líbano, entre eles 55 membros do grupo xiita libanês mas também um jornalista da Reuters. Nasrallah já declarou que todos os mortos devem ser considerados "mártires que caíram no caminho para Jerusalém".

"Alguns gostariam que o Hezbollah se envolvesse numa guerra total, mas posso dizer-vos que o que está a acontecer agora ao longo da fronteira entre Israel e o Líbano é significativo e não é o fim", referiu, lembrando que "todos os cenários estão em aberto" nesta frente e que tudo depende "do que acontecer em Gaza". Nasrallah alertou ainda Israel para o erro de lançar uma ofensiva preventiva contra o Hezbollah, considerando que "seria o erro mais parvo que cometeria em toda a sua existência".

O primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, respondeu na mesma moeda e pediu ao grupo xiita para não testar Israel. "Em relação à frente norte, reitero aos nossos inimigos: não se enganem a nosso respeito. Tal erro sairá caro. Vão pagar um preço inimaginável", disse num vídeo divulgado antes do início do Sabbath.

A última vez que o Hezbollah, que é uma importante força militar e política no Líbano (tem dois ministros no atual governo interino), esteve em guerra com Israel foi precisamente em 2006. O conflito foi desencadeado por uma incursão dos militantes do Hezbollah em território israelita, durante a qual foram raptados dois soldados israelitas. O grupo xiita exigiu a libertação dos prisioneiros libaneses em troca, mas Israel rejeitou, tendo bombardeado o Líbano e feito uma incursão no sul do país. A guerra durou pouco mais de um mês, até que foi alcançado um cessar-fogo com o apoio da ONU.

Formado no início da década de 1980 com o apoio do Irão para servir de contrapoder a Israel (que na altura ocupava o sul do Líbano de onde finalmente saiu em 2000), o Hezbollah aumentou desde a guerra de 2006 o número de militantes e conseguiu mais e melhores armas. A União Europeia discute há anos a possibilidade de incluir o grupo na lista de organizações terroristas, onde está apenas a sua "ala armada" - apesar de o Hezbollah não fazer qualquer diferenciação.

Nasrallah, o poderoso clérigo xiita que lidera o grupo desde 1992 mas não é visto em público há anos por questões de segurança, apelidou esta sexta-feira de "heroico" o ataque do Hamas, que causou a morte a 1400 pessoas em Israel. O líder do Hezbollah alegou que este foi "100% palestiniano", explicando que a operação foi organizada com tal secretismo que outros "grupos de resistência" não foram informados.

O clérigo explicou que os dois objetivos do grupo xiita são acabar a guerra e "permitir que a resistência triunfe", considerando que "a vitória de Gaza significa a vitória do povo palestiniano". Algo que, acrescentou, seria do interesse do Egito, da Jordânia, da Síria e também do Líbano. Daí que tenha apelado aos países árabes para que cortem o fornecimento de gás, petróleo e até alimentos a Israel.

De acordo com a Al-Jazeera, foram ouvidos tiros de celebração em Beirute, onde milhares encheram uma praça nos arredores sul da capital libanesa para ouvir o discurso, tal como no sul do país e na zona do vale de Beqaa - três áreas onde o Hezbollah tem um forte apoio popular. Mas, para muitos, o momento foi também de alívio, já que Nasrallah não anunciou um conflito aberto com Israel.

A classe política libanesa, incluindo o primeiro-ministro interino Najib Mikati (o país está sem presidente há mais de um ano após o final do mandato de Michel Aoun), tem falado de evitar uma guerra aberta com os israelitas. Contudo, muitos estão cientes que a decisão cabe a Nasrallah.

susana.f.salvador@dn.pt

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