Jack Teixeira já tinha acesso a documentos confidenciais desde 2021

FBI explicou detalhes da investigação que levou à detenção do lusodescendente por divulgação de informação secreta da defesa norte-americana: uma videochamada com outro utilizador da aplicação Discord foi fundamental.
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O lusodescendente Jack Teixeira, detido na quinta-feira (13) nos Estados Unidos por divulgação de documentos militares norte-americanos altamente confidenciais - entre os quais muitos relacionados com a atual Guerra na Ucrânia -, já tinha acesso a informação confidencial desde 2021, revelou o FBI no relatório de oito páginas sobre a investigação que levou à detenção do jovem norte-americano, de 21 anos.

A par da comparência de Jack Teixeira em tribunal, esta sexta-feira, foi divulgada a justificação da sua detenção. Conhecido como affidavit, o documento tem oito páginas e é escrito pelo agente do FBI que liderou a investigação que resultou na prisão do lusodescendente, neto de açorianos, membro da Guarda Aérea Nacional de Massachusetts, alistado desde 2019.

É no parágrafo 24 do documento que é revelado que Jack Teixeira tinha autorização a ficheiros "Top Secret" desde 2021. Mas não só: tinha também autorização para acessar a documentos ainda mais seguros classificados como "Acesso compartimentalizado sensível (SCI)". Estes ficheiros SCI referem-se a informações obtidas por serviços de inteligência e pode conter métodos usados ​​ou processos analíticos, sendo altamente classificado.

O acesso de Jack Teixeira a documentos tão classificados é um dos pontos controversos desta fuga de documentos que é já considerada como a mais grave nos Estados Unidos desde o caso de Edward Snowden em 2013. Um funcionário do Departamento de Defesa dos EUA disse que o jovem militar poderia ter um nível alto de habilitação de segurança por ser um especialista em tecnologia da informação e responsável por redes de comunicações militares.

Certo é que, na sequência deste caso, o presidente norte-americano Joe Biden já ordenou a que fossem revistas e apertadas as condições de acesso a documentos secretos e o Pentágono anunciou que vai conduzir uma revisão dos seus procedimentos de acesso, responsabilidade e controlo de inteligência para evitar que tais fugas aconteçam novamente, disse o secretário de Defesa dos EUA, Lloyd Austin.

No relatório detalhado sobre a investigação que conduziu à detenção de Jack Teixeira, o FBI descreve todos os passos dados. Destes, ressalta como fundamental um testemunho de um utilizador da rede social Discord, muito popular entre jogadores online e na qual o lusodescendente liderava um grupo de conversação, chamado "Thug Shaker Central", onde começou a publicar os documentos classificados. Primeiro, em dezembro, sob a forma de transcrição textual da informação contida em alguns dos ficheiros. Depois, a partir de janeiro, Teixeira começou mesmo a publicar fotos dos documentos, segundo o relatório do FBI - as informações espalharam-se entretanto para outras redes sociais, como Twitter ou Telegram.

Uma pista chave que levou a investigação a identificar Jack Teixeira começa a ser explicada no ponto 15 do relatório, onde se lê que o FBI entrevistou, a 10 de abril, outro membro desse pequeno grupo fechado de chat na plataforma Discord, identificado neste documento como "utilizador 1". Este terá dito aos agentes que o grupo de chat era usado para "discutir assuntos geopolíticos e guerras atuais e históricas".

Depois, lê-se no ponto 18, o utilizador interrogado pelo FBI disse ter falado várias vezes com o autor da divulgação dos documentos, agora identificado como Jack Teixeira, inclusive por videochamada. O FBI concluiu então que uma identificação visual seria possível.

Com os registos de faturação feitos na plataforma Discord, os investigadores obtiveram a carta de de Jack Teixeira e confrontaram a testemunha com a foto do lusodescendente, ao lado de outras cartas de condução aleatórias. A confirmação, por parte do inquirido, levou então o FBI a avançar para a detenção do jovem militar, na quinta-feira, junto à sua residência em North Dighton, Massachusetts.

O que os investigadores ainda não sugeriram foi qual terá sido o motivo de Teixeira nesta fuga de informação. O jovem militar alistou-se na Guarda Nacional da Força Aérea dos EUA em setembro de 2019 e era um especialista em Tecnologias de Informação e Comunicações que alcançou o posto de aviador de primeira classe em 2022 - o terceiro mais baixo para o pessoal alistado na força aérea.

A sua base era a Otis Air National Guard Base, em Cape Cod, cerca de 100 quilómetros a sul de Boston.

Amigos de Jack Teixeira descreveram-no ao jornal The Washington Post como um católico devoto e interessado em armas. Cresceu numa família com décadas de serviço militar: o pai passou 34 anos na mesma unidade militar que o filho, enquanto a mãe de Teixeira trabalhava para organizações sem fins lucrativos de apoio a veteranos.

Jack Teixeira, que foi esta sexta-feira ouvido em tribunal, em Boston, vai ficar detido até à próxima audiência, na quarta-feira (19), mas ficou a saber que enfrenta duas acusações de desvio de documentos oficiais sem autorização. Teixeira não foi obrigado a fazer qualquer declaração sobre a sua culpabilidade.

O lusodescendente apareceu em tribunal com um macacão bege, com aspeto taciturno, segundo relatos da AFP, e perante a família, na sala. A certa altura da curta audiência, ouviu-se o pai de Jack a gritar: "Nós amamos-te, Jack", ao que este respondeu com um: "Também te amo, pai".

As acusações acarretam penas de prisão até 15 anos. O procurador-geral dos EUA, Merrick Garland, disse que há "penas muito graves" associadas aos crimes de que Jack é acusado. "As pessoas que assinam acordos para receber documentos confidenciais reconhecem a importância para a segurança nacional de não divulgar esses documentos, e pretendemos enviar essa mensagem de como isso é importante para nossa segurança nacional", acrescentou Garland.

com agências

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