Guterres diz que guerra na Ucrânia ameaça humanidade mas evita condenações à Rússia

No debate da 77.ª sessão da Assembleia-Geral da ONU, o secretário-geral disse que a comunidade internacional "não está pronta ou disposta a enfrentar os grandes desafios dramáticos da nossa era". Sobre a Ucrânia, evitou condenar a Rússia.

O secretário-geral da ONU, António Guterres, afirmou esta terça-feira na abertura do debate da Assembleia-Geral que a guerra na Ucrânia é uma "ameaça ao futuro da humanidade", mas evitou qualquer condenação direta à Rússia.

Num discurso sobre os grandes problemas que afetam a ordem mundial, era esperado que Guterres colocasse o foco na situação na Ucrânia e o secretário-geral da ONU preferiu assinalar possíveis entendimentos para resolver o conflito ao apontar o acordo, envolvendo as Nações Unidas e a Turquia, para escoar cereais acumulados nos portos ucranianos desde o início da guerra.

"Quando nos reunimos num mundo repleto de turbulências, uma imagem de promessa e esperança vem à minha mente: o navio 'Brave Commander'. Ele navegou no Mar Negro com a bandeira da ONU hasteada orgulhosamente. Por um lado, o que vocês veem é uma embarcação como qualquer outra navegando pelos mares. Mas olhem mais de perto. Na sua essência, este navio é um símbolo do que o mundo pode alcançar quando agimos juntos", disse Guterres na abertura do seu discurso.

"Está carregado com cereais ucranianos para o povo do Corno de África. Ele navegou por uma zona de guerra - guiado pelas próprias partes do conflito -- como parte de uma iniciativa abrangente sem precedentes para obter mais alimentos e fertilizantes(...). A Ucrânia e a Federação Russa - com o apoio da Turquia - convergiram para que isso acontecesse, apesar das enormes complexidades, dos opositores e até do inferno da guerra. Alguns podem chamar de milagre no mar. Na verdade, é a diplomacia multilateral em ação", observou.

Frisando que a guerra desencadeou uma destruição generalizada, com violações massivas dos direitos humanos e do direito internacional humanitário, Guterres avaliou que os relatórios sobre cemitérios em Izium, cidade na região de Kharkiv, no nordeste da Ucrânia, são "extremamente preocupantes".

De acordo com as autoridades locais, foram descobertas 443 sepulturas em Izium, incluindo uma que continha os corpos de 17 soldados ucranianos e uma inscrição que dizia "Exército ucraniano, 17 pessoas. Izium, morgue".

"A luta custou milhares de vidas. Milhões foram deslocados. Milhares de milhões em todo o mundo foram afetados. Estamos a ver a ameaça de divisões perigosas entre o ocidente e o sul. Os riscos para a paz e a segurança globais são imensos. Devemos continuar a trabalhar pela paz de acordo com a Carta das Nações Unidas e o direito internacional", apelou.

Contudo, na visão do ex-primeiro-ministro português, a comunidade internacional "não está pronta ou disposta a enfrentar os grandes desafios dramáticos da nossa era", "crises que ameaçam o próprio futuro da humanidade e o destino do nosso planeta, como a guerra na Ucrânia e a multiplicação de conflitos em todo o mundo".

Ainda sobre as consequência diretas do conflito na Ucrânia, o líder das Nações Unidas sublinhou a necessidade de o mundo se unir para aliviar a crise alimentar global e "abordar urgentemente" a crise do mercado global de fertilizantes, apelando à "remoção de obstáculos" à exportação de fertilizantes russos.

"Este ano, o mundo tem comida suficiente, o problema é a distribuição. Mas se o mercado de fertilizantes não estiver estabilizado, o problema do próximo ano pode ser o próprio abastecimento de alimentos. (...) É essencial continuar a remover todos os obstáculos remanescentes à exportação de fertilizantes russos e seus ingredientes, incluindo amoníaco", afirmou

"Esses produtos não estão sujeitos a sanções - e estamos a avançar na eliminação dos efeitos indiretos. Outra grande preocupação é o impacto dos altos preços do gás na produção de fertilizantes nitrogenados. Isso também deve ser abordado com seriedade. Sem ação agora, a escassez global de fertilizantes irá transformar-se rapidamente numa escassez global de alimentos", alertou.

Nas palavras de Guterres, "um inverno de descontentamento global está no horizonte" e a humanidade está "presa numa colossal disfunção global".

O líder das Nações Unidas aludiu à necessidade de criação de mecanismos de diálogo para ultrapassar as divisões.

"É por isso que delineei elementos de uma nova Agenda para a Paz no meu relatório sobre a 'Nossa Agenda Comum'. Estamos empenhados em aproveitar ao máximo todas as ferramentas diplomáticas para a solução pacífica de disputas, conforme estabelecido na Carta das Nações Unidas", anunciou.

Nesse sentido, Guterres apelou à liderança e a participação das mulheres em todo o processo, e à prevenção e construção da paz.

"Isso significa fortalecer a previsão estratégica, antecipar pontos de conflito que podem explodir em violência e enfrentar ameaças emergentes representadas pela guerra cibernética e armas autónomas letais. Significa expandir o papel dos grupos regionais, fortalecer a manutenção da paz, intensificar o desarmamento e a não-proliferação, prevenir e combater o terrorismo e garantir a responsabilização. E significa reconhecer os direitos humanos como fundamentais para a prevenção", sublinhou.

O debate de alto nível da 77.ª sessão da Assembleia-Geral da ONU arrancou hoje, em Nova Iorque, com a presença de chefes de Estado e de Governo de todo o mundo, e irá prolongar-se até ao final da semana, com a guerra da Rússia na Ucrânia sob foco.

Espera-se que as potências ocidentais usem os seus discursos na ONU para reafirmem o seu apoio a Kiev e que procurem uma maior pressão sobre o Kremlin da parte de países com posições vagas, nomeadamente os africanos.

Por outro lado, espera-se que a Rússia utilize este evento para tentar minar a narrativa dos Estados Unidos e da Europa sobre a guerra.

Na semana passada, após um telefonema com o Presidente russo, Vladimir Putin, Guterres já havia admitido que um acordo de paz na Ucrânia "permanece muito distante", visão que se manifestou no discurso desta terça-feira.

Apesar de Guterres não ter usado o seu discurso para condenar as ações russas, é esperado que faça uma declaração mais incisiva durante uma reunião do Conselho de Segurança sobre a guerra agendada para quarta-feira e para a qual foram convidados os ministros das Relações Exteriores da Rússia e da Ucrânia.

Guterres diz que G20 caiu na "armadilha das divisões geopolíticas" e que há risco de "G-nada"

O secretário-geral da ONU, António Guterres, afirmou que o G20 "caiu na armadilha das divisões geopolíticas" e que as relações internacionais correm o risco de acabar com "G-nada", numa dura crítica à falta de cooperação e diálogo.

Guterres salientou que "o mundo está em perigo - e paralisado", com as "divisões geopolíticas a minar o trabalho do Conselho de Segurança, a minar o direito internacional, a minar a confiança e a fé das pessoas nas instituições democráticas, a minar todas as formas de cooperação internacional".

"Não podemos continuar assim. Mesmo os vários agrupamentos constituídos fora do sistema multilateral por alguns membros da comunidade internacional caíram na armadilha das divisões geopolíticas, como o G20", disse, referindo-se às maiores e emergentes economias do mundo.

"Num certo estágio, as relações internacionais pareciam estar a mover-se em direção a um mundo G20 agora corremos o risco de acabar com G-nada. Nenhuma cooperação. Sem diálogo. Não há solução coletiva de problemas. Mas a realidade é que vivemos num mundo onde a lógica da cooperação e do diálogo é o único caminho a seguir", exortou o secretário-geral.

Naquela que é a primeira Assembleia-Geral da ONU desde o início da invasão russa da Ucrânia, Guterres dedicou parte do seu discurso a esse conflito, advogando que o mesmo desencadeou uma destruição generalizada, com violações massivas dos direitos humanos e do direito internacional humanitário.

Contudo, o ex-primeiro-ministro português chamou a atenção dos chefes de Estado e de Governo ali presentes para conflitos e crises humanitárias que se estão a multiplicar ao redor do globo, "muitas vezes longe dos holofotes", referindo a crise económica e de Direitos Humanos no Afeganistão; as tensões regionais na República Democrática do Congo; os combates na Etiópia; a atuação de gangues no Haiti; a seca sem precedentes no Corno de África; ou as divisões na Líbia.

Também incluídos no discurso do líder da ONU foram os ciclos de violência em Israel e na Palestina; tensões no Iraque; a grave situação humanitária, de direitos humanos e de segurança em Myanmar; a atividade terrorista no Sahel; e a violência na Síria.

"A lista continua. Enquanto isso, a agitação nuclear e as ameaças à segurança das centrais nucleares estão a aumentar a instabilidade global", observou.

Guterres assinalou ainda que a lacuna de financiamento para o Apelo Humanitário Global das Nações Unidas ascende a 32 mil milhões de dólares (31,9 mil milhões de euros) - "a maior de todos os tempos".

O líder das Nações Unidas acusou ainda as grandes empresas das tecnologias de informação de "monetizar a indignação, raiva e negatividade".

"Plataformas de media social baseadas num modelo de negócios que monetiza a indignação, raiva e negatividade estão a causar danos incalculáveis às comunidades e sociedades. Discursos de ódio, desinformação e abuso - direcionados especialmente a mulheres e grupos vulneráveis - proliferam. Os nossos dados estão a ser comprados e vendidos para influenciar o nosso comportamento - enquanto o 'spyware' e a vigilância estão fora de controlo - tudo isso sem levar em conta a privacidade", apontou António Guterres.

"A inteligência artificial está a comprometer a integridade dos sistemas de informação, os media e, de facto, a própria democracia. A computação quântica pode destruir a segurança cibernética e aumentar o risco de mau funcionamento de sistemas complexos. Não temos o início de uma arquitetura global para lidar com nada disto", advogou.

"Este não é o mundo que escolhemos. Por causa das nossas decisões, o desenvolvimento sustentável em todos os lugares está em risco", disse.

Sublinhando que os países em desenvolvimento são os mais afetados, ao serem "atingidos por todos os lados", Guterres pediu diretamente um aumento imediato do financiamento para essas nações, assim como o alívio da divida.

"Precisamos de uma ação concertada. Hoje, estou a pedir o lançamento de um 'Estímulo Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS)' - liderado pelo G20 - para impulsionar massivamente o desenvolvimento sustentável dos países em desenvolvimento. A próxima Cimeira do G20 em Bali é o ponto de partida", anteviu.

O secretário-geral exigiu ainda uma profunda reforma estrutural no sistema financeiro global e em instituições internacionais, afirmando que os países africanos, em particular, estão sub-representados nesses sistemas.

"A divergência entre países desenvolvidos e em desenvolvimento - entre norte e sul - entre os privilegiados e os demais - está a tornar-se mais perigosa a cada dia. Está na raiz das tensões geopolíticas e da falta de confiança que envenenam todas as áreas da cooperação global, desde as vacinas a sanções e comércio", sustentou.

Contudo, Guterres concluiu o seu discurso destacando que tem esperança no futuro, esperança essa que encontra nos ativistas do clima e da paz; nos jovens que trabalham por um futuro melhor e mais pacífico; nas mulheres e meninas do mundo que lutam por aqueles que têm os seus direitos negados; na ciência e na academia; e nos heróis humanitários que disponibilizam em todo o mundo ajuda que salva vidas.

"As Nações Unidas estão com todos eles. (...) Vamos desenvolver soluções comuns para problemas comuns, fundadas na boa vontade, na confiança e nos direitos partilhados por cada ser humano. Vamos trabalhar como um, como uma coligação do mundo, como Nações Unidas", concluiu.

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