Ferido por rebeldes, Idriss Déby morre um dia após vencer sexto mandato

Há 30 anos no poder, presidente era um aliado do Ocidente na luta contra o terrorismo. Rebeldes prometem avançar para a capital.

Idriss Déby Itno, há 30 anos no poder no Chade, morreu esta terça-feira, um dia depois de conquistar o sexto mandato presidencial. Aliado do Ocidente na luta contra o terrorismo na região do Sahel, o marechal de 68 anos sucumbiu aos ferimentos sofridos em combate contra os rebeldes da Frente para a Mudança e a Concórdia no Chade (FACT). Um Conselho Militar de Transição, liderado pelo seu filho, o tenente-general Mahamat Idriss Déby, de 37 anos, dissolveu o governo e o Parlamento e prometeu eleições dentro de 18 meses. Mas os rebeldes, que lançaram a sua ofensiva junto à fronteira com a Líbia no dia das presidenciais de 11 de abril, rejeitam este cenário e prometem marchar sobre a capital N"Djamena.

"O presidente da República, chefe de Estado e comandante das Forças Armadas, Idriss Déby Itno, acaba de dar o último suspiro, defendendo a integridade territorial no campo de batalha. Com grande amargura anunciamos ao povo chadiano sua morte", disse o general Azem Bermandoa Agouna na televisão. O funeral de Estado é na sexta-feira, com o FACT a dizer que dará só "15 a 28 horas para que os filhos de Déby possam enterrar o pai, de acordo com a tradição".

Na segunda-feira, o mesmo porta-voz militar tinha declarado uma "grande vitória" na luta contra os rebeldes, com mais de 300 "neutralizados", alegando que a ofensiva nas províncias de Tibesti e Kanem tinha "terminado". O FACT, por sua vez, tinha dito que Idriss Déby estava ferido. Não era a primeira vez que o presidente, um antigo rebelde que chegou ao poder num golpe de Estado em 1990, se juntava aos militares no campo de batalha.

Nascido a 18 de junho de 1952, Idriss Déby (da etnia zaghawa, muçulmana) formou-se como piloto em França no final dos anos 1970. No regresso a casa, apoiou Hissène Habré, que viria a tornar-se presidente em 1982, chegando a chefe das Forças Armadas. Acusado por Habré de estar a planear um golpe, refugiou-se em 1989 no Sudão, conquistando o poder no ano seguinte e sendo eleito presidente pela primeira vez em 1996.

Desde então, foi sendo reeleito, tendo sido preciso mudar a Constituição em 2005 para acabar com o limite de dois mandatos. Este foi reintroduzido em 2018, quando os poderes presidenciais foram alargados, com os mandatos a passarem de cinco para seis anos e Idriss Déby a ser autorizado a candidatar-se. Em teoria, podia ficar no poder até 2033. Praticamente desde a primeira reeleição, em 2001, que os opositores denunciam fraude. A reeleição para o sexto mandato tinha sido garantida na segunda-feira, com os resultados provisórios a dar uma vitória com 79,3% dos votos (só fez melhor, 88,6%, em 2011).

Ao longo destas três décadas, Idriss Déby conseguiu sobreviver a meia dúzia de rebeliões e tentativas de golpe de Estado. Em 2008, os rebeldes cercaram o palácio presidencial, antes de a França vir em seu auxílio, tal como aconteceu já em 2019, com os franceses a lançarem ataques aéreos contra colunas rebeldes. Déby já tinha mostrado o seu valor: em 2013 enviou mais de dois mil militares para ajudar os franceses na ofensiva contra os jihadistas no norte do Mali, tendo lançado também várias ofensivas contra o Boko Haram. A eventual instabilidade no Chade poderá causar problemas em toda a região.

O presidente francês, Emmanuel Macron, reagiu à morte do "corajoso amigo" da França. "O Chade está a perder um grande soldado e um presidente que trabalhou incansavelmente para a segurança do país e da região durante três décadas". Na mensagem de condolências, o Eliseu sublinhou a importância de que "a transição se desenrole em condições pacíficas, num espírito de diálogo com todos os atores políticos e da sociedade civil", tendo em vista "um governo inclusivo que se apoie em instituições civis".

susana.f.salvador@dn.pt

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