Caças dão vantagem ao exército em Cartum, mas combates espalham-se

Supremacia aérea das forças leais a Al-Burhan estará a marcar a diferença na capital sudanesa diante dos paramilitares de Hemetti.
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Os combates seguiam este domingo pelo segundo dia consecutivo no Sudão, com os tiros a continuarem a soar apesar de uma pausa acordada de cerca de três horas para permitir um "corredor humanitário" para a retirada dos feridos. Mais de meia centena de civis já terão morrido, incluindo três funcionários das Nações Unidas, na luta pelo poder entre o exército e os paramilitares. Os primeiros, os único com acesso a caças, bombardearam várias bases dos paramilitares em Cartum e pareciam estar na mó de cima na capital. Mas mantinham-se as contradições sobre quem controlava o quê e havia relatos de que os combates se estavam a espalhar para outras zonas.

Após meses de tensão, os combates rebentaram no sábado entre o exército leal ao general Abdel Fattah al-Burhan, responsável pelo Conselho Soberano que governa desde o golpe de abril de 2019 que derrubou Omar al-Bashir, e os paramilitares das Forças de Apoio Rápido (RSF, na sigla em inglês). Estes têm raízes nas milícias janjawid, que lutaram ao lado do governo na guerra do Darfur, e são liderados pelo general Mohamed Hamdan Dagalo, conhecido como Hemetti, que é o número dois do conselho.

Os combates ameaçam ainda mais a transição democrática, que um golpe apoiados pelos dois líderes militares em finais de 2021 já tinha complicado. Após um ano de protestos, um pré-acordo negociado com apoio internacional junto com a liderança civil deveria voltar a colocar o processo democrático no rumo correto. Mas a tensão rebentou entre os militares por causa da integração das RSF nas forças regulares, com ambos os lados a trocarem acusações mútuas sobre quem terá sido responsável por iniciar os combates no sábado

Testemunhas disseram à AFP que explosões ensurdecedoras e tiroteios intensos abalaram este domingo os edifícios dos subúrbios a norte e a sul de Cartum, densamente povoados, com os tanques a cruzar as ruas e os caças a sobrevoar a baixa altitude. À Reuters, outras testemunhas explicaram que o exército teria destruído com bombardeamentos aéreos as bases e os quartéis das RSF, incluindo na cidade de Omdurman - na outra margem do rio Nilo frente a Cartum. Segundo a Al-Jazeera, os paramilitares disseram ter retirado das suas bases na capital, mas que não tinham sido derrotados. Além disso, os combates já se teriam espalhado para outras localidades, incluindo Porto Sudão, Kassala ou Kosti.

De acordo com a Reuters, ainda na capital do terceiro maior país de África, o exército teria conseguido recuperar o controlo da maior parte do palácio presidencial, que na véspera ambas as forças diziam controlar. Os paramilitares estariam também cercados no aeroporto de Cartum, alegadamente não querendo atacar para evitar danos nesta infraestrutura. Imagens satélite mostravam contudo vários aviões danificados.

A pausa temporária nos combates, proposta pelo enviado da ONU ao Sudão, Volker Perthes, foi aceite pelos dois lados durante a tarde, mas não terá sido cumprida a 100%. Os esforços diplomáticos para acabar definitivamente com os confrontos multiplicaram-se este domingo, depois dos apelos ao fim da violência - dos EUA, da União Europeia, da Rússia, da China ou da Liga Árabe. A Comissão da União Africana pediu um cessar-fogo "sem condições", dando indicações para o seu presidente, Moussa Faki Mahamat, "viajar imediatamente para o Sudão para se reunir com ambas as partes".

susana.f.salvador@dn.pt

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