Biden vs. Trump II nas presidenciais de todos os perigos

Guerras, economia, aborto, imigração ilegal, processos criminais, impeachment, deepfakes. Alguma vez houve uma eleição norte-americana com uma fasquia tão elevada?
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Vocês estão a ler as sondagens erradas", disse o presidente norte-americano Joe Biden aos jornalistas, à porta da sua sede de campanha de reeleição, em Delaware. Foi a terceira vez no último mês que o líder democrata tentou contrariar aquilo que tem sido mostrado em repetidas sondagens: Joe Biden está atrás de Donald Trump nas intenções de voto, a menos de um ano das eleições presidenciais de 2024. Em média, dois pontos percentuais abaixo, mas por vezes mais. Nalgumas sondagens os dois candidatos aparecem empatados. E em muitas há outra coisa que fica clara: ambos têm baixa popularidade e um rol considerável de problemas a caminho das urnas.

Biden e Trump deverão repetir o frente-a-frente de 2020, do qual o democrata saiu vencedor. Mas as condições que o levaram a vencer o ex-presidente republicano já não estão reunidas. Este é um momento de grande volatilidade, com pressões domésticas e externas tão fortes e em simultâneo que se diz já ser a eleição com a fasquia mais elevada de sempre.

Não é que essa análise seja inédita: há vários ciclos presidenciais que se diz que a próxima eleição será a mais importante da vida dos americanos. Desta vez, é capaz de ser mesmo.

O presente que os republicanos deixaram no sapatinho de Joe Biden foi a abertura formal de um inquérito de impeachment antes do Natal, baseado em suspeitas de tráfico de influências envolvendo o seu filho Hunter Biden. O processo tem sido visto como parco em evidências e motivado por questões políticas, mas ainda assim será um empecilho para a campanha presidencial do democrata, que está carregada de problemas. A começar pela quebra de popularidade e as sondagens que o mostram a perder para Trump - embora os analistas avisem que é demasiado cedo para isso.

"Neste momento, sondagens a nível nacional não valem grande coisa", diz ao DN Daniela Melo, cientista política luso-americana que leciona na Universidade de Boston. "Não se podem tirar grandes ilações das sondagens a nível nacional", continua, "porque ainda falta muito tempo e há aqui muitos fatores que podem afetar de maneiras imprevisíveis as tendências do eleitorado, tanto para a mobilização como para a desmobilização."

Também o professor de ciência política Thomas Holyoke, da Universidade Estadual da Califórnia em Fresno, aponta para isso. "Não vou dar muito peso às sondagens até junho ou julho do próximo ano", afirma. Muitos eleitores não estão com atenções viradas para a eleição, considera, e tantos outros ainda não tomaram uma decisão.

Mas as sondagens mostram um retrato do sentimento atual, e ele não é positivo.

"Isto não é um bom sinal para Biden", assente Daniela Melo. Nas últimas semanas, fontes internas da Casa Branca deram conta de que o presidente está muito preocupado com a sua quebra nas sondagens e baixa popularidade. "É realmente alarmante para um candidato a continuar na presidência", frisa a analista.

As sondagens nos swing states são as que mais importam neste momento, porque serão os estados que vão fazer a diferença na eleição. Em especial um trio da chamada "muralha azul": Michigan, Wisconsin e Pensilvânia.

"Destes três, o que está mais em risco é o Wisconsin", explica Melo. É um estado que Biden ganhou por apenas 0,7% e em que a mínima alteração pode inverter o resultado. Por exemplo, um recuo do apoio aos democratas por parte dos eleitores árabe-americanos e muçulmanos.

"O conflito Israel-Hamas pode ter um impacto na muralha azul", afiança a professora, referindo o movimento #AbandonBiden que se gerou nas redes sociais por causa do apoio a Israel. "Não é que seja uma população que vá virar o voto a nível nacional, mas não precisa disso. Só precisa de ficar em casa nos estados cruciais."

Ainda assim, o professor Holyoke acredita que ainda é cedo para perceber o impacto real que a guerra terá dentro de um ano. "Pergunto-me se o conflito em Gaza terá esmorecido quando chegarmos à eleição", sublinha. "Talvez ainda seja um grande problema, mas parece-me a esta altura que poderá começar a acalmar."

Certo é que Biden não está a perder apoio apenas num grupo específico. Em outubro, uma sondagem do New York Times/Siena College mostrou que apenas 71% dos eleitores afro-americanos nos estados decisivos disseram que iam votar em Biden, bastante menos que os 87% que votaram nele em 2020.

Há também descontentamento entre os eleitores mais jovens e progressistas e uma insatisfação generalizada em relação à gestão da economia, embora os especialistas insistam que os números não correspondem à perceção.

"Há aqui um efeito psicológico a trabalhar em que vemos os números e realmente a economia está muito bem durante Biden", frisa Daniela Melo. "Os salários subiram, o emprego continuou a crescer, a inflação está finalmente a esfriar. Mas o que é que as pessoas sentem na pele?", questiona. "O cabaz de compras subiu imenso e isso tem efeitos muito reais no eleitorado e na atitude em relação à economia."

O mito de que os republicanos são melhores em questões económicas, algo que as estatísticas não comprovam mas que é comum, não ajuda a situação para o presidente.

"Biden tem que jogar com isso na próxima eleição e não será muito fácil porque, apesar de ele ter muitas vitórias do ponto de vista económico, ainda não conseguiu ter uma mensagem que realmente tocasse nesse problema."

Uma questão adjacente, que afeta sobretudo as camadas mais jovens, é a crise na habitação. "É impossível comprar porque as taxas de juro estão tão altas que não conseguem fazer empréstimo à habitação e ao mesmo tempo não há habitação suficiente no mercado arrendatário para suprir essa diferença", diz Melo. Os eleitores mais jovens têm de se sujeitar a rendas "que têm subido de uma maneira absolutamente louca."

Do outro lado da barricada está um ex-presidente que enfrenta quatro julgamentos criminais e dezenas de acusações, além de processos civis que compõem um ramalhete impressionante de questões legais. Nos últimos dez dias, estes problemas tiveram um efeito de contágio quando o Supremo Tribunal do Colorado declarou Trump inelegível no estado e proibiu o seu nome nos boletins das primárias. O órgão deu razão a uma queixa do grupo Citizens for Responsibility and Ethics in Washington no âmbito da Secção 3 da 14.ª Emenda da Constituição dos EUA, que desqualifica oficiais que juraram proteger a Constituição e depois participaram numa insurreição. O tribunal considerou que Trump fez isso mesmo ao incitar o assalto ao Capitólio a 6 de janeiro de 2021. A decisão está suspensa até 4 de janeiro à espera que o Supremo Tribunal de Justiça, onde os conservadores têm uma super maioria, se pronuncie.

"Pode ser a nova bomba de 2024", considera Daniela Melo. "O Supremo pode tomar uma decisão que o retira do boletim em todos os estados ou fazer o contrário." Com dezenas de casos semelhantes a serem considerados por outros tribunais, afigura-se um possível efeito bola de neve. "Pode ser uma questão muito mobilizadora do eleitorado de ambas as partes", continua, e tornar o Supremo ainda mais politizado do que o que já está.

Havendo a possibilidade de Trump ser barrado dos boletins de voto, todas as previsões são incertas. Mas neste purgatório legal do ex-presidente estão também os julgamentos criminais, o primeiro dos quais está marcado para 4 de março de 2024, em Washington, D.C., referente à interferência nas eleições de 2020. Segue-se o caso da retenção de documentos classificados na Florida, a 20 de maio, e depois a interferência eleitoral na Geórgia com data proposta para 5 de agosto. O caso que envolve pagamentos para calar Stormy Daniels, em Nova Iorque, está marcado para 25 de março mas deverá ser adiado para acomodar o julgamento em D.C.

"Eu diria que será uma das eleições mais importantes", atesta Thomas Holyoke.

A ida às urnas a 5 de novembro de 2024 acontecerá numa altura de grande tumulto doméstico e internacional. Dentro de portas, além das questões económicas, há uma crise nas fronteiras com muitos migrantes à procura de asilo. Continuam os efeitos adversos da revogação do direito ao aborto, algo que poderá beneficiar os democratas nos estados onde o procedimento foi banido. Um novo governo de Donald Trump com republicanos a controlar o Congresso pode trazer uma proibição nacional do aborto. Ao nível do combate às alterações climáticas, afigura-se uma reversão das medidas colocadas em marcha pela atual administração.

É também possível que se iniciem audiências públicas relativas ao inquérito de impeachment de Joe Biden e prevê-se uma avalanche mediática na cobertura dos julgamentos de Trump.

Fora de portas, duas guerras com enormes implicações, em especial a da Ucrânia, que depende do apoio norte-americano para se continuar a defender da invasão russa. Uma vez que Trump tem sido vocal contra a NATO e contra o apoio à Ucrânia, a sua reeleição ameaça um regresso ao isolacionismo, deixando cair o país liderado por Volodymyr Zelensky.

"O apoio europeu não é o suficiente", salienta Daniela Melo. "Sem os Estados Unidos, a Ucrânia não consegue continuar a combater no terreno da mesma maneira."

A cientista política considera que se trata de uma crise existencial. "Podemos passar a ter um grande território entre a Europa e a Eurásia onde se combate uma guerra de guerrilha urbana por anos e anos." O impacto na fronteira da União Europeia é imprevisível e pode ter um efeito de contaminação, com ainda mais refugiados.

Isto acontece quando há um risco de contágio de populistas no poder, com vários países, da Argentina aos Países Baixos, a elegerem líderes extremistas.

"Estamos a atravessar um período bastante grave para a ordem liberal internacional", atesta Daniela Melo, referindo que há "uma preocupação muito grande" entre os especialistas em relações internacionais. "Há uma noção de que este é o ano em que ou vai ou racha para a ordem internacional."

Os conflitos Rússia-Ucrânia e Israel-Hamas, diz, podem ser lidos como sintomas de um realinhamento das forças internacionais no novo eixo Rússia, China, Irão e Coreia do Norte, e da fragilidade da coligação ocidental.

"Quando uma eleição nacional pode decidir se os Estados Unidos continuam a ser um membro da NATO ou não, chegamos ao cúmulo da fragilidade."

Tudo num momento em que a tecnologia pode tornar a desinformação tão sofisticada que atinge o ponto de não retorno.

"A fasquia é altíssima para os jornalistas. Estamos a falar de uma eleição onde agora temos a Inteligência Artificial, que nos dá ferramentas para criar deepfakes", frisa Daniela Melo. É mais um elemento que baralha as contas. "Eu acho que quem diga que sabe o que vai acontecer está a mentir ou tem uma bola de cristal melhor que a minha."

Para Thomas Holyoke, a magnitude das peças que se movem não tem precedentes. "É como pôr a política americana numa liquidificadora e pressionar o botão", compara. "Não sabemos o que vai sair dali."

Entrevista a Thomas Holyoke, professor de Ciência Política na Universidade Estadual da Califórnia em Fresno

Trump tem a nomeação garantida ou é possível que outro candidato seja nomeado?
É definitivamente uma subida a pique para Nikki Haley. Ron DeSantis não conseguirá chegar lá. A esperança para uma certa parte é que o velho Partido Republicano encontre a sua espinha e faça frente a Donald Trump. O governador do Iowa está a apoiar DeSantis, o governador de New Hampshire apoia Haley. Mas não estou certo de que vá fazer muita diferença.

Ele tem dito que vai governar como um ditador desde o primeiro dia. Isso eleva ainda mais a fasquia?
Aprendemos da pior forma que é melhor levar a sério o que Trump diz, porque ele não se desvia muito disso. Se diz que vai ser um ditador a partir do primeiro dia, é provável que o tente.

Os nomes que circulam para um potencial novo governo Trump são extremistas, de Steve Bannon a Stephen Miller. É possível que consiga colocá-los nos cargos mais altos da nação?
Não será fácil. O Senado teria que os aprovar. Mesmo que os republicanos consigam recuperar o Senado, o que é uma possibilidade distinta, penso que Mitch McConnell e outros senadores serão muito céticos quanto a isso. É interessante depender de pessoas como Mitch McConnell para salvar a democracia, mas podemos chegar a esse ponto.

Além do presidente, os eleitores norte-americanos serão chamados a eleger os 435 congressistas da Câmara dos Representantes e 33 dos 100 assentos no Senado. Estas escolhas ditarão o controlo do Congresso. Neste momento, os democratas controlam o Senado e os republicanos controlam a Câmara dos Representantes, ambos por margens mínimas. É possível (até provável dados os lugares em causa) que isto seja revertido: que os republicanos voltem a ser maioria no Senado e os democratas recuperem a Câmara. Qualquer legislação tem de passar pelas duas câmaras para ser aprovada, o que explica que um Congresso dividido produza muito pouca atividade legislativa efetiva. Os boletins de voto também incluirão medidas específicas dos estados, tais como o aumento do salário mínimo na Califórnia ou a proteção do direito ao aborto no Maryland.

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