A Alemanha cataloga a China como uma "parceira, concorrente e rival sistémica" na sua primeira estratégia de segurança nacional, acusando Pequim de agir repetidamente contra os interesses do país numa tentativa de reformular a ordem global..O documento preparado pela coligação de Olaf Scholz critica a China por colocar a estabilidade regional e a segurança internacional "sob pressão crescente" e por desrespeitar os direitos humanos.."A China está a tentar remodelar a ordem internacional existente, e baseada em regras, de várias maneiras; está a afirmar uma posição regionalmente dominante com cada vez mais vigor, agindo repetidamente contra os nossos interesses e valores", diz o documento estratégico..Ao mesmo tempo, a Alemanha reconhece que o gigante asiático "continua a ser um parceiro sem o qual muitos desafios e crises globais não podem ser resolvidos".."É por isso que devemos aproveitar as oportunidades de cooperação nesses campos em particular", diz o documento..A publicação do plano estratégico veio poucos dias antes da visita do primeiro-ministro chinês, Li Qiang, a Berlim..Questionado sobre que mensagem o documento enviava a Pequim, durante uma conferência de imprensa, Olaf Scholz disse que "o ponto é que a China vai continuar a crescer economicamente e que a integração da China no comércio mundial e nas relações económicas mundiais não deve ser prejudicada".."Mas, ao mesmo tempo, as questões de segurança que surgem para nós devem ser tidas em consideração", disse o Chanceler, acrescentando que a Alemanha "não quer dissociação, quer reduzir os riscos"..Elaborado sob a direção do Ministério dos Negócios Estrangeiros, o documento estratégico abrange compromissos de defesa como o voto de dois por cento das despesas da NATO, a segurança da cadeia de abastecimento e os ciberataques..O documento cita a Rússia como "sendo atualmente a ameaça mais significativa à paz e segurança da zona euro-atlântica", criticando a invasão russa da Ucrânia..A guerra abalou profundamente a Alemanha, forçando o país a abandonar as políticas pacifistas de longa data para, em vez disso, rearmar drasticamente o seu exército..O conflito também levou Berlim a acelerar os planos para reduzir a sua dependência da China, depois de a pandemia de covid-19 ter sido um alerta para os riscos de depender do gigante asiático no que diz respeito a produtos essenciais para a saúde como batas cirúrgicas, máscaras ou medicamentos..Nos últimos meses, a Alemanha tem estado ocupada a diversificar as suas importações ou a trazer para o seu território a produção de componentes essenciais, como os chips semicondutores. Mas os gigantes da exportação alemã manifestaram a sua preocupação com o afastamento da China, receando alienar esse mercado..Num claro aviso às empresas alemãs, a ministra dos Negócios Estrangeiros, Annalena Baerbock, sublinhou que Berlim não poderá ajudar os grandes grupos industriais com laços profundos com a China, em caso de uma crise com Pequim..A ministra acrescentou que, nas discussões com as empresas alemãs, ela e Scholz sublinharam que é preciso tirar lições da guerra da Rússia contra a Ucrânia..A eurodeputada alemã sublinhou a importância de reforçar a cooperação com Pequim em domínios em que ambas as partes possam chegar a acordo..Uma das áreas-chave é o clima, onde a cooperação do gigante asiático é crucial para que o mundo consiga limitar o aquecimento a 1,5 graus Celsius. "É óbvio que vemos o mundo de uma forma completamente diferente. Mas ao reconhecermos que a crise climática é a maior ameaça à segurança... temos um ponto de encontro com a China", afirmou Baerbock.."Não se pode dizer que se quer salvar o clima mundial mas não se quer falar com a China"..No entanto, os analistas afirmam que a estratégia não contém quaisquer respostas sobre a forma como a Alemanha irá lidar com as ameaças mais prementes.."O documento contém muitas ideias inteligentes para lidar com um mundo multipolar e considera aspetos importantes de um entendimento abrangente de segurança que vai além de um núcleo militar", observou o diário Tagesspiegel.."Mas não traça qualquer linha de ação para as ameaças mais urgentes na atual situação mundial", acrescentou, notando que, já em 2024, "o pilar mais importante da segurança poderá ceder" se Donald Trump for reeleito presidente dos EUA.