Impeachment e cocaína

Quando a realidade parece um circo há muita probabilidade de você está a fazer papel de palhaço.
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Esta é uma das questões que se colocam aos brasileiros neste momento de impeachment. O congresso do Brasil é um show de horrores. Quando estão todos reunidos dá vontade de trancar a porta e deitar a chave fora.

A coisa é tão feia, tão surrealista, que dá azo aos mais bizarros acontecimentos. É o caso do misterioso pó branco, por exemplo.

Vou ter que explicar. A história não saiu nos meios de comunicação portugueses (que, aliás, demonstraram esta semana uma entusiasmante simpatia pela esquerda brasileira; os mesmos meios que, em Portugal, são de direita confessos, vá se perceber...).

Na terça-feira à tarde, Dilma discursava para o Senado e para as câmaras de televisão. Quem estava em casa via, em primeiro plano, a rotunda ainda-Presidenta (vestida com o que parecia a capa de um sofá) a lamuriar-se (numa língua vagamente semelhante ao português) da sua má sorte na vida.

Eis que, no contra-plano, aparece a mão de um possível senador a balançar um saquinho de plástico transparente com um suspeito pó branco dentro. Noutro lugar do planeta, talvez ninguém nem notasse. No Brasil, a reação foi imediata: aquilo só poderia ser cocaína.

A coisa é de suma importância. O fim de um regime pode ser pelas urnas, pelas armas ou pelas anedotas. Não é à toa que os governos totalitários detestam humoristas.

Dilma não foi mandada embora só porque atraiçoada ou porque incompetente. Um dos seus grandes problemas foi ter se tornado um meme ambulante.

Jornais sérios como “O Estado de São Paulo”, “Folha de São Paulo” e o “O Globo” tiveram que ir atrás do assunto para esclarecer o ocorrido. Na prática, a questão era saber quem era, afinal, o congressista viciado em coca.

Não foi preciso muita investigação. A assessoria de imprensa do deputado baiano Antônio Imbassahy enviou uma nota a dizer que a mão e o saquinho que aparecem no vídeo são dele. O misterioso pó branco não passava de açúcar. Era para adoçar o café...

Com fina ironia, o comunicado era intitulado de “Com açúcar e com afecto”. Rufar de tambores. Fecha o pano.

Ou como diria o meu Tio Olavo: “Se o Brasil comprasse um circo, o anão crescia”.

Edson Athayde escreve todas as sextas-feiras no Dinheiro Vivo

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