SOL. Tratar do sorriso dos jovens bem no centro de Lisboa

A Santa Casa da Misericórdia de Lisboa lançou há um mês um serviço de atendimento de saúde oral de acesso universal para as crianças da cidade até aos 18 anos.

David Barreiro tem 14 anos e os dentes tortos. Em poucas semanas terá aparelho nos dentes, tal como muitos dos seus amigos. Mas o aparelho de David será colocado no serviço Saúde Oral em Lisboa (SOL), da Santa Casa da Misericórdia, que oferece cuidados de saúde oral a jovens até aos 18 anos que vivem ou estudam na cidade. O jovem que frequenta o 9.º ano foi um dos primeiros utentes da clínica que abriu portas há um mês.

David está contente porque vai ter os dentes direitos como sonha - "mais vale ter aparelho agora do que quando for mais velho" - e a sua mãe está satisfeita com o alívio na carteira, dado que este tratamento é mais em conta neste serviço. "Há sempre outras prioridades, o dentista é sempre uma coisa que pensamos deixar para mais tarde", reconhece Adelaide Barreiro.

Além do aparelho, David aprendeu que deve ter melhores cuidados de higiene. "Lavo os dentes mais depressa do que devia e também tenho de lavar mais vezes porque só lavo uma vez por dia", admite. Conselhos que lhe foram dados pelo médico no primeiro dia de visita à clínica da Avenida Almirante Reis e que o adolescente até gostou de ouvir. "Os médicos são muito simpáticos", elogia no final da consulta. Isto porque, como lembra a sua mãe, a primeira e única vez que David esteve num dentista não correu muito bem, o que também ajudou a que só agora regressasse.

À frente da equipa de 30 pessoas, que vai receber todas as crianças e jovens da cidade, está André Brandão de Almeida. O diretor clínico já dava consultas na Santa Casa e acabou por assumir este desafio, depois de um processo de recrutamento interno e externo.

Mudar o paradigma da saúde oral

A ideia de disponibilizar cuidados de saúde oral de forma gratuita a crianças e jovens até aos 18 anos de Lisboa surgiu da vontade do provedor da Santa Casa, Edmundo Martinho, conforme sublinha o médico dentista. André Brandão de Almeida recorda que toda a equipa que já dava consultas na instituição acabou por se envolver e dar ideias para o projeto. Foi feito um estudo de impacto financeiro e um ano depois nasceu o espaço que hoje está aberto ao público, bem no centro de Lisboa.

Apesar de recente - abriu a 20 de agosto -, o serviço tem tanto sucesso, que o diretor clínico admite a possibilidade de a equipa ter de crescer para dar resposta aos objetivos. Neste momento, são dez médicos dentistas, três higienistas orais, dez assistentes dentários, quatro administrativos, uma pessoa dedicada à esterilização e mais o pessoal da limpeza e da segurança, enumera o coordenador do SOL.

Uma equipa e um espaço que pretendem tratar todas as pessoas da cidade dos 0 aos 18 anos. "Uma das preocupações do provedor e da Mesa da Santa Casa foi sempre fazer diferente. E, sendo o centro ortodontopediátrico algo de inovador, não poderia ser mais uma resposta apenas para os carenciados, porque a Santa Casa já tinha essa resposta em várias especialidades, incluindo a medicina dentária. Esta alteração de paradigma é precisamente tornar este serviço universal, apenas até ao dia em que os jovens fazem 18 anos, é um facto, mas o acesso é gratuito para todos independentemente da condição social", sublinha André Brandão de Almeida. Fica a garantia de que se um jovem estiver a meio de um tratamento quando faz 18 anos, esse tratamento "não será interrompido".

O acesso aos serviços e aos tratamentos é gratuito, mas dependente, "primeiro, da necessidade que o médico identifica para fazer o tratamento, depois se recebe abono de família independentemente do escalão - o que dá acesso gratuito aos tratamentos. A exceção é para fazer ortodontia, aí tem de fazer um contrapagamento que corresponde ao custo dos materiais de acordo com uma tabela, porque há vários tipos de materiais e de aparelho, mas ficará sempre abaixo do preço de mercado", explica o diretor clínico do SOL.

Um parente pobre da saúde geral

A dificuldade de acesso a cuidados de saúde oral no Serviço Nacional de Saúde (SNS) foi um dos problemas que motivaram a criação deste espaço. "É amplamente conhecido que a medicina dentária é um dos parentes pobres da medicina geral e vários erros históricos fizeram que a saúde oral não estivesse no SNS, embora tenham sido dados alguns passos com programas nacionais como o cheque-dentista, mas ainda assim esta área é ainda muito lacunar", lamenta o médico dentista.

Não se querendo substituir ao que André Brandão de Almeida considera ser uma necessidade a que o Estado terá de responder rapidamente, "a Santa Casa da Misericórdia uma vez mais tenta complementar o SNS na área de Lisboa, que é a sua área de atuação, e dar resposta de forma inovadora". Sem esquecer que os problemas de saúde oral se não forem tratados são "muito impactantes na saúde geral, portanto, uma criança que tenha funções básicas comprometidas, como a fala, o sorriso ou a mastigação, necessariamente terá um futuro diferente de uma pessoa que cresça completamente saudável", exemplifica o responsável do SOL.

Além disso, problemas de saúde oral têm consequências também no aspeto de socialização das crianças na escola, que podem ter vergonha de sorrir, problemas de concentração nas aulas porque estão com dor ou a pensar naquela dor ou até problemas de nutrição, com um estudo a indicar que uma criança com cárie pode ter até menos um quilo do que uma criança sem cárie. "Todo este trajeto que a doença faz e que tem impacte na criança, na família, mas também na sociedade, se o conseguirmos travar precocemente com prevenção e atendimento precoce, é muito mais barato do ponto de vista financeiro do que deixar a doença correr e termos de ser muito mais invasivos."

É também para cumprir esse objetivo que o serviço SOL nasce, reforça André Brandão de Almeida. E ao entrar no espaço, os utentes podem ver "tecnologia muito diferenciada", além de uma vasta equipa de profissionais. O que o jovem David Barreiro descreve como um "espaço muito agradável".

As primeiras semanas permitiram perceber que quem chega à clínica não são só famílias carenciadas, mas também de classe média, que acabam por não poder fazer os tratamentos mais caros. "Temos pessoas que nunca foram ao dentista, ou aquelas que só foram em casos extremos, e depois pessoas de classe média com mais filhos e preocupadas com a sua saúde oral."

Mais do que adolescentes, o espaço SOL tem recebido neste primeiro mês muitas crianças, cujos pais explicam que decidiram aproveitar o acesso facilitado. "Têm tentado receber conselhos, vêm perceber hábitos, o que podem fazer, que tipo de escova ou pasta dentífrica. Muitas dúvidas", aponta André Brandão de Almeida.
Questões para as quais passou a haver respostas acessíveis na clínica SOL, para todas as crianças e jovens da cidade.

Cuidados de saúde oral para os mais novos

O serviço de Saúde Oral em Lisboa (SOL) foi criado pela Santa Casa da Misericórdia de Lisboa como um serviço de medicina dentária pediátrica especializado, constituído por uma equipa com elevada formação e experiência, e dotado de equipamentos modernos e de uma avançada tecnologia, orientado para prestar cuidados de qualidade, apostando na inovação, rigor científico e excelência.

A utilização dos serviços e dos tratamentos está isenta de qualquer pagamento, exceto nos tratamentos e nas intervenções em ortodontia. No entanto, os beneficiários de abono de família estão totalmente isentos do pagamento em qualquer ato, tratamento e intervenção no SOL.

Exclusivos