Izidoro que afinal foi Martim. As histórias dos bebés da roda

Durante séculos, famílias pobres deixaram bebés aos cuidados da Misericórdia na chamada Roda dos expostos. A maioria trazia uma mensagem para que os acolhessem e um sinal que os identificava. Hoje, esses milhares de sinais estão guardados naquele que é o maior arquivo do género do mundo, na Santa Casa

Martim e Palmyra são dois bebés que nasceram há dois séculos e cujas histórias chegaram até nós pela persistência de familiares e investigadores, em busca das suas origens. Foram ambos deixados na roda dos expostos da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa: ele com um dia, numa noite de novembro de 1866, e um bilhete em que se pedia que lhe chamassem Izidoro e uma fita de seda cor de laranja com listas pretas, o sinal com que alguém pensava resgatá-lo, um dia; ela, com pouco mais de um mês, foi deixada num dia de fevereiro de 1894, numa altura em que a entrega de crianças já não era anónima. Os pais nunca chegaram a ir buscá-los, mas estes bebés sobreviveram e construíram as suas próprias famílias.

São esses descendentes, amigos e investigadores que hoje procuram no Arquivo Histórico da Santa Casa respostas sobre as suas origens. Elizabete Marteleira e o investigador Orlando Carvalho encontraram-se nesta semana naquele que é o maior arquivo do mundo de sinais e contrassinais (as provas que os pais guardavam para mais tarde reclamarem as crianças), com cerca de 87 mil itens.

O avô ruivo que se saiu bem na vida

Elizabete, de 74 anos, nunca conheceu o avô Martim. A mãe era aliás muito jovem quando o pai morreu de gripe pneumónica, aos 56 anos. Isso despertou em Elizabete o desejo de "conhecer alguma coisa sobre o avô do qual quase ninguém conhecia absolutamente nada". O primeiro na família a aventurar-se nesta investigação foi um irmão da bancária reformada, mas na Torre do Tombo não conseguiu grandes informações. Foi depois de ver uma exposição sobre os sinais dos meninos da roda, em 2014, que Elizabete se pôs a pensar se o seu avô não teria sido deixado em Lisboa, apesar de ter vivido toda a vida na zona da Lourinhã.

Martim José Gonçalves teve sete filhos, mas nenhum deles acabou por saber nada da sua história. "As pessoas não falavam muito", resume a neta. Os mais velhos "lembravam-se de que ele era ruivo de olhos azuis, que era um pouco rebelde, mas de resto não havia grande informação." A primeira pista veio da família que o terá criado quando era pequeno e que terá mantido contacto com os filhos mais velhos de Martim. Mas quando Elizabete quis tentar saber mais, os tios já tinham morrido e da família que criou o avô também não restava quem se lembrasse desses tempos.

Tudo se tornou mais fácil com o levantamento da certidão de óbito do avô, que declarava que Martim tinha sido um dos expostos da roda e filho de pais incógnitos - a solução que restava a Elizabete era o Arquivo da Santa Casa, onde passou muitas manhãs. Foi assim que chegou à nota da entrega do seu avô, aquela em que pediam que lhe chamassem Izidoro, e à fita laranja. No entanto, a investigação quanto às origens não avançou muito mais, já que apenas se sabe da existência desse pedaço de fita. Ainda assim conseguiu colorir pedaços que faltavam da vida do avô, que acabou por ser Martim por ter nascido na véspera do dia de São Martinho, e que depois foi entregue a uma ama em Pregança do Mar (uma aldeia no concelho da Lourinhã), para onde viajou com poucos dias de vida, de burro, como era costume na altura.

Martim ficou com essa família até aos 10, 11 anos e acabaria mais tarde por casar-se com uma das filhas do dono da quinta onde era caseiro. Recentemente, Elizabete descobriu uma fotografia do avô e que este fez parte da equipa fundadora de um banco na zona. Apesar de ainda desconhecer muitos pormenores da sua origem, agora sente "um bocadinho" mais satisfeito "o sentido de pertença".

Palmyra: pode descender de escravos

Orlando Carvalho, de 64 anos, também é visita assídua do arquivo do Largo de São Roque. Mas não porque tenha um antepassado "exposto" ou "enjeitado", como eram chamados os meninos da roda. A sua chegada aqui é mais ou menos acidental. Na pesquisa para escrever um livro sobre o padre Carlos dos Santos, que liderou a paróquia de São Domingos de Benfica e morreu em 1997, descobriu que a mãe do pároco tinha sido abandonada na roda -um assunto que o sacerdote nunca tinha abordado com o amigo.

Foi através de uma das cunhadas do padre Carlos que Orlando ficou a saber que Palmyra tinha sido abandonada em bebé. Ela entregou-lhe "a cédula que a Santa Casa deu à mãe dele quando ela foi entregue a uma família". Orlando acabaria por ter mais sorte do que Elizabete nas suas investigações, já que a partir de 1870 as entregas de bebés deixaram de ser anónimas. Assim, no documento de registo de Palmyra dos Santos está pelo menos o nome da mãe.

"O documento tem o seu nascimento no Hospital de São José, o batismo e a entrega na Misericórdia, as várias amas a quem foi entregue ao longo dos tempos e finalmente a entrega a uma família como criada de servir, onde estava estipulado o ordenado que a família lhe deveria pagar e que ela depois deveria vir devolver a roupa que levava vestida", explica o investigador.

Orlando conseguiu depois juntar informação sobre o local onde Palmyra viveu, os três filhos, a sua morte em 1970 na sequência de uma explosão de uma bilha de gás, e até quem era a sua mãe e possivelmente o seu pai. No registo de entrega está indicado que Palmyra era mulata e que a mãe era negra. Orlando já conseguiu chegar à bisavó do padre Carlos e está agora a tentar perceber se Palmira seria ou não descendente de escravos.

Dentes de lobo e letras de palha

Palmyra e Martim foram dois das dezenas de milhares de bebés que ao longo dos séculos foram confiados à misericórdia da Santa Casa - em meados do século XIX eram deixadas na roda sete crianças por dia, em média. Eram deixados numa roda, com apenas um toque de campainha para que do outro lado alguém aparecesse para recolher o bebé. Nenhum dos lados via o outro. E essa entrega anónima era apenas quebrada pelos bilhetinhos que pediam que cuidassem daquela criança, às vezes explicando as fracas condições económicas, outras sem qualquer justificação. E também pelos sinais, ou marcas, que permitiriam mais tarde reconhecer o bebé, caso a família viesse buscá-lo.

Uma particularidade da época é que, ao contrário do que se pode pensar, não era um estigma entregar um recém-nascido na roda. "Pelo menos até meados do século XVIII era perfeitamente normal, porque esta era a resposta encontrada pela sociedade para dar apoio a quem mais necessitava. A roda era para apoiar as famílias pobres, as amas eram pessoas pobres."

"Essa documentação fervilha e tem fogo, emociona até mesmo quem não tem a ver diretamente, não tem um antepassado exposto"

Esta explicação de Francisco d'Orey Manoel serve também para refrear algumas expectativas que os familiares possam ter. Quando não se conhecem as origens, a tendência é para enaltecer, mas a hipótese de ter sido deixado na roda um herdeiro de uma coroa ou algum nobre é "muito remota", assegura.

O mais comum era mesmo a família não ter posses e deixar a criança ou a mãe ter sido abandonada e não ter condições.

Alguns voltavam para reaver a criança, casando o sinal com o contrassinal. No momento da entrega tinham deixado um pedaço de tecido, uma carta recortada de forma irregular que encaixava na outra metade, uma medalha cortada, uma das meias de um par, cartas de jogar, estampas de santos ou sinais inesperados - um dente de lobo ou um simples P de palha. No momento da recolha as metades casavam na perfeição. "Essa documentação fervilha e tem fogo, emociona até mesmo quem não tem a ver diretamente, não tem um antepassado exposto, quanto mais quando na sala de leitura vem um familiar e descobre um avô, um bisavô, um trisavô."