Crítica de vinhos: Douro Superior, Vila Nova de Foz Côa

Pelo menos uma vez por ano, Vila Nova de Foz Côa engalana-se e acolhe o estandarte da sub-região do Douro Superior.

Solos únicos de transição xisto-granito, clima amigo do produtor e sobretudo demonstrador do potencial do grande vale vinhateiro. Premiámos a diferença na edição deste ano do Festival do Vinho do Douro Superior.

Quando tudo começou aqui, nesta terra prometida com bandeira em Foz Côa, o Alto Douro congregava apenas os dois segmentos do rio Douro Baixo Corgo, em torno da Régua, e Cima Corgo, em redor do Pinhão. Subir mais o Douro era entrar no longe e distante, sorridente apenas para os audazes e temerários. Fernando Nicolau de Almeida, criador do mítico Barca Velha, inscreveu na galáxia dos grandes vinhos esse outro território a nascente, ao dar os granitos para lá de foz do Sabor como fundamentais para obter as melhores e mais equilibradas uvas. Dois dias de viagem só para chegar nunca o fizeram deter-se de ir, com o beneplácito de Fernando Van Zeller Guedes, fundador da Sogrape. Hoje, quinze dias apenas são suficientes para ver nascer novas vinhas por esses lugares outrora pouco visitados.

Frescura e mineralidade são notas comuns do Douro Superior, criando tintos de grande elegância e tendencialmente os melhores brancos de todo o Douro. Em mutação constante, há que ir comprando e provando o que se vai fazendo por lá. Tarefa mais simples do que dantes, pela liberdade de inscrição no rótulo da sub-região de proveniência.

Os preços dos melhores vinhos continuam altos e não parece possível que baixem, pela intensidade de trabalho e custos envolvidos; o Douro Superior continua a ficar longe, como nos anos 1950 dos primeiros Barca Velha. Por outro lado, as ótimas relações preço-qualidade que se consegue encontrar democratizam o negócio e permitem que os pesos-pesados fiquem para aqueles dias especiais. Entremos nós também na festa, a mesa e os amigos merecem.

Qualquer seleção é por definição injusta, tudo depende do que se procura e prova. Mas o Douro Superior está a mostrar uma diversidade inédita, com vinhos geralmente equilibrados e universais na aceitação pelos consumidores. Na selecção que propomos, olhámos sobretudo para as diferenças entre eles. Boas provas!

Percorrer a fotogaleria para ver as avaliações do nosso crítico Fernando Melo.

Fonte: Evasões

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