A fascinante presença portuguesa na Índia, desde o Governo de Afonso de Albuquerque, entre 1509 e 1515, teve assentamentos em Goa, Ormuz e Malaca e uma extensa fileira de feitorias e de fortalezas. Geraram-se circuitos mercantis, designadamente de produtos considerados de luxo, como a pimenta, a canela, o cravinho e a noz-moscada, e, ainda, de outros também lucrativos, como víveres, tecidos e artesanato. Isto fez-me pensar no conceito do luxo, presentemente em mudança. Se uma viagem à India, há cinco séculos, seria apenas para aventureiros apoiados pela Coroa, hoje em dia basta um quinhão de euros para se descobrir uma terra, cujos responsáveis governamentais têm desenvolvido esforços combinados para promover produtos turísticos de nicho, como o rural, o de cruzeiro, o médico, o ecoturismo e o gastronómico. Se aquelas especiarias eram um luxo para os países conquistadores da época, hoje em dia tornaram-se comuns na cozinha europeia. A mudança do conceito teve impacto no sector das viagens e das experiências turísticas. A sumptuosidade ou os ostentosos meios de transporte privados eram elementos do anterior conceito de luxo. As gerações mais novas têm tido acesso a bens materiais impensáveis para gerações precedentes. Talvez por isso as noções de luxo pessoal sejam distintas para estes novos consumidores. Presentemente, os destinos mais autênticos e genuínos atraem uma parte importante dos novos viajantes, que veem o mundo de uma forma mais global e integrada. Numa viagem à Índia, podemos encontrar esses lugares. Porém, ela pode ser feita, também, pela literatura contemporânea, sobretudo quando alia heranças e tradições com as mudanças no mundo. Kiran Desai foi a escritora mais nova a vencer o Booker Prize, com "O Legado da Perda" (2007), uma história sobre o impacto da globalização numa pequena cidade da Índia. Em janeiro de 2015, integrou a lista das 20 mulheres indianas mais influentes da atualidade, numa escolha do jornal "The Economic Times". O título do livro induz as temáticas do colonialismo e depois da perda de predomínios de Estados em relação a territórios anteriormente dominados. A leitura que lhe fiz deixou-me permanentemente com o sentido de que o declínio e o fim da presença de Portugal no mundo foram uma perda que, no século XX, se iniciou precisamente neste território. A autora, indiana de Chandigarh, narra as consequências do colonialismo e dos conflitos das nações, com destaque para os conceitos e preconceitos de religião e de raça, numa visão muito particular da Índia. Numa casa isolada, no sopé do monte Kanchenjunga, no Himalaia, vive um juiz amargo e taciturno que pretende fugir de um mundo que só lhe trouxe desilusões, mas os acontecimentos em seu redor sempre o impedem de desfrutar da tão esperada paz. A autora apresenta os dilemas humanos enfrentados por uma variedade de personagens e esclarece as consequências da globalização, do multiculturalismo, da desigualdade económica, do fundamentalismo e da violência terrorista. Retive esta frase de intensa descrição: "Durante todo o dia as cores tinham sido como as do anoitecer, neblina deslizando como uma criatura de água pelos grandes flancos de montanhas tomadas por sombras e profundidades oceânicas." Valha-nos o que fica em cada território, à espera do nosso encontro ou regresso, digo eu. Na vida, porém, a mudança e a perda são inevitáveis. A felicidade reside na nossa adaptabilidade em sobreviver, assim, neste mundo tão diferente..Jorge Mangorrinha, professor universitário e pós-doutorado em turismo, faz um ensaio de memória através de fragmentos de viagem realizadas por ar, mar e terra e por olhares, leituras e conversas, entre o sonho que se fez realidade e a realidade que se fez sonho. Viagens fascinantes que são descritas pelo único português que até à data colocou em palavras imaginativas o que sente por todos os países do mundo. Uma série para ler aqui, na edição digital do DN.