Iémen. Uma Manhattan no deserto

Mala de viagem (84). Um retrato muito pessoal do Iémen.
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A República Árabe do Iémen ingressou na Organização das Nações Unidas em 30 de setembro de 1947, enquanto a República Democrática Popular do Iémen ingressou em 14 de dezembro em 1967. Os dois países uniram-se, em 1990, sob a designação de Iémen. Tentei criar condições para uma viagem ao país, mesmo antes da guerra e da crise humanitária num país rico em história e cultura literária e arquitetónica, mas não consegui. A recensão crítica à literatura de novos autores locais foi a minha companheira de viagem para entender o Iémen do presente. Em 2011, iniciou-se no país uma série de protestos contra a pobreza, o desemprego e a corrupção, bem como contra o projeto de alteração da Constituição e a eliminação do limite de mandatos presidenciais. Durante o período da Primavera Árabe, o país entrou numa grande instabilidade política e social. No entanto, apesar dos problemas políticos, muitos romances foram publicados por autores iemenitas, que precisamente descreviam alguns desses problemas, como política, história, religião, igualdade de género e questões de identidade. Tal como a canção de protesto foi tão importante para que opositores em diferentes partes do mundo enfrentassem regimes totalitários, também a instabilidade política e económica no Iémen e na região são os impulsionadores para o ressurgimento da literatura iemenita, através da escrita sobre o dia-a-dia das pessoas, não as normais ou as felizes, mas sobre as vidas que estão cheias de tristezas e dificuldades. Talvez a Primavera Árabe tenha sido um motor para a literatura, tal como, hoje em dia, a união política dos dois setores do Iémen, com duas sociedades bastantes diferentes, com duas idiossincrasias. Também existe o Iémen moderno, progressista e cosmopolita ao lado do Iémen que se refugia na sua tradição. A outrora "Arábia feliz", apelidada pelos romanos, encontra-se numa encruzilhada, depois de séculos de influências estrangeiras. O encanto original e o contemporâneo leem-se na nova literatura e veem-se na estada máxima permitida de 30 dias, mesmo que as cidades e as aldeias não fiquem iluminadas durante a noite. À luz do dia, Saná, a capital do Iémen, tem permanecido com as suas características especiais, onde se vive há mais de 2500 anos, sendo uma das mais antigas cidades permanentemente habitadas. Porém, a curiosidade mais interessante para um arquiteto viajante está na cidade de Shibam, que continua a ser a metrópole mais antiga do mundo a usar a construção vertical, um denso aglomerado de prédios altos feitos de adobe, com tijolos de barro e palha, ostentando alguns desses prédios pinturas de diferentes cores, mais ou menos extensas nas fachadas. Por isso, é conhecida como "a cidade de arranha-céus mais antiga do mundo" ou, mesmo, a "Manhattan do deserto". Ao longe, parece mesmo uma construção de Lego. Foi projetada, no século XVI, em terrenos de cota alta para evitar inundações e rodeada por uma muralha fortificada, mas próxima de campos agrícolas e da água. Inscrita na lista do Património Mundial da Humanidade, está em curso um programa de reabilitação, no sentido de se manter o testemunho da identidade cultural deixada pelos povos antigos e o seu modo de vida tradicional, a sua autenticidade chegada até nós. Mais cedo ou mais tarde, nas pessoas, tal como nas cidades como esta, o que fica em evidência é quem realmente somos.

Jorge Mangorrinha, professor universitário e pós-doutorado em turismo, faz um ensaio de memória através de fragmentos de viagem realizadas por ar, mar e terra e por olhares, leituras e conversas, entre o sonho que se fez realidade e a realidade que se fez sonho. Viagens fascinantes que são descritas pelo único português que até à data colocou em palavras imaginativas o que sente por todos os países do mundo. Uma série para ler aqui, na edição digital do DN.

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