#deixemoconanempaz

E agora há quem se entretenha a pedir a Conan Osíris que não vá a Israel representar Portugal na Eurovisão. Boicote a Israel, pedem. Não se pense que o objetivo é a sensibilização de Conan e do mundo para a problemática do conflito israelo-palestiniano. Se fosse, estariam a pedir-lhe para fazer ouvir a sua voz em Israel, para visitar organizações que trabalham pela paz, para se deslocar às zonas de conflito ou para contactar com artistas locais. E não era necessário pedir neutralidade; podia mesmo ser um pedido de quem tem posição definitiva, típica de quem julga saber que há um só lado, como se a coisa fosse assim, simples simples.

Mas não é nada disso.

O que lhe está a ser pedido é que faça um boicote a Israel, que não vá representar Portugal por ser em Israel, que não se desloque a Telavive por ser Israel, porque Israel é Israel e é Israel. E Israel não pode receber o Conan, nem artistas nem conferencistas nem romancistas nem publicistas nem coisas acabadas em istas porque Israel é Israel e em Israel não se pode ir, não se pode estar, sob pena de se compactuar, de se tomar uma posição.

Ir a Israel, ao que parece, é legitimar o governo de Israel, a política de Israel, como se em Israel não houvesse gente, gente que é independente dos governos, que não é responsável pelo que é feito pelo Estado, como se Israel não fosse a única democracia do Médio Oriente, onde há oposição, onde há movimento pacifista, onde há imprensa livre, onde mulheres são tratadas por igual, onde as minorias têm direitos - tudo coisas inexistentes nos países vizinhos que nunca ninguém boicota.

E ninguém boicota esses países porque não é assim que se faz a mudança e se sensibiliza o mundo.

Alguém ouviu apelos ao boicote da Eurovisão em Moscovo ou em Kiev ou em Baku, onde há tanto por explicar em matéria de direitos humanos? Há boicotes organizados para não se ir cantar ao Brasil de Bolsonaro ou aos EUA de Trump (só para usar dois exemplos caros a quem costuma apelar ao boicote a Israel, mas podia acrescentar Cuba ou Venezuela)? Claro que não houve nem há apelos ao boicote desses países, porque a conversa do boicote só se aplica a Israel. Pudessem boicotar o próprio do país e a coisa dava-se mesmo.

A ida de Conan a Israel é a representação de Portugal num dos eventos mais tolerantes do mundo, um evento que força os países organizadores a tolerar e a permitir atitudes e comportamentos que alguns deles normalmente proíbem.

A ida de Conan não significa qualquer legitimação de qualquer ato de Israel, assim como se Conan tivesse optado por não concorrer ao Festival RTP na possibilidade de, ganhando, ter de ir a Israel não significaria uma legitimação de qualquer ato terrorista contra Israel. É por isso absurda e intolerável essa insinuação, essa chantagem, que está a ser feita a Conan. Deixem o Conan em paz.

Advogado

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