Hungria. Buda e Peste, a cidade a dobrar

Mala de viagem (83). Um retrato muito pessoal da Hungria.
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Quando frequentei o ensino primário, a caneta de tinta permanente era obrigatória. Sujava as mãos e, por vezes, as folhas; precisava de mata-borrão e de tinteiro para recarga, porque, afinal, a tinta não era assim tão permanente, no sentido de duradoura, na caneta. Porém, já havia esferográficas. A mais popular e idêntica às atuais nasceu na Hungria, pela imaginação do jornalista húngaro, depois naturalizado argentino, László József Bíró. A esferográfica de Bíró era mais leve, fina e portátil. Tomou o nome de Birome e utilizava uma tinta grossa, desenvolvida pelo irmão de László, químico de formação. A esfera era molhada no cartucho interno da tinta e, assim, a Birome permitia uma escrita fácil e macia sobre qualquer tipo de papel, secando rapidamente e resolvendo os problemas das canetas de tinta permanente. Já na Argentina, para onde se exilara para fugir aos invasores nazis, Bíró vendeu a patente, em 1945, ao empresário francês Marcel Bich. Este tornou a esferográfica o principal produto da sua empresa, a Bic, expandindo a produção por todo o mundo, até à atualidade. No quarto do hotel, havia um conjunto de esferográficas e, juntamente, um cartão que informava ter sido ali a origem daquele objeto comum nos nossos dias. Ao lado, estava a indumentária de banho. Olhando o corrupio diário de banhistas para as termas, agarrei nas folhas timbradas e levei-as para a zona de descanso da fumegante piscina exterior. Comecei a escrever, usando aquela caneta azul da cor das águas quentes e, também, das do rio que separa, ou une, as duas partes da cidade. Eu estava no meio do Danúbio, naquela ilha e na cidade que é a capital não só da Hungria, como também da cultura termal europeia. As suas águas termais permitem que residentes e turistas usufruam de piscinas coletivas, ao contrário de outras águas que, pela sua maior mineralização, não o possibilitam. Na ilha de Santa Margarida (Margitsziget), entre Buda e Peste, de antigo lugar de construções monásticas passou a ter, no século XVIII, um recinto romântico para se descansar, destinado aos palatinos e seus convidados. Apenas em 1908 a ilha foi aberta ao público e se passaram a conhecer melhor as nascentes termais, expostas pelo engenheiro hidráulico Vilmos Zsigmondy. Elas nascem das entranhas telúricas e misteriosas do subsolo. A ilha é acessível pela Ponte Margarida e pela Ponte Árpád. Curioso é notar que, sendo Budapeste uma cidade a dobrar pela existência de duas partes que por aglutinação dão o nome à cidade, eu estava numa espécie de território neutro. Corpos de todas as idades nadavam e conversavam em plena piscina. Ao meu lado estava um grupo de mulheres que falavam seguramente a língua húngara. Uma delas tinha um exemplar do "Népszabadság", que, soube depois, significa "A Liberdade do Povo". Foi um jornal de  esquerda  húngaro, fundado em  1956, órgão central do Partido dos Trabalhadores Húngaros, que atingiu a maior tiragem no país. No início da década de 1990, após o colapso do regime comunista, o jornal foi privatizado. E já depois da minha visita, em 2016, supostas reuniões entre o primeiro-ministro Viktor Orbán e o proprietário da Mediaworks Heinrich Pecina não coincidem com a afirmação deste sobre a não-lucratividade. Pude vê-lo nas mãos daquelas jovens, que talvez fossem uma amostra da mulher húngara, predisposta a conversas com ocidentais, promovendo a interação entre lados opostos da cultura europeia e muitas delas constituindo matrimónio. O amor tem destas coisas, precisamente o que falta à política. Naquela ilha, a neutralidade parece ser a melhor receita. É como um lugar que miscigena o melhor de cada lado da cidade e potencia as preferências. Até nas esferográficas a que tive direito como oferta do hotel - "Bic laranja e Bic cristal, duas escritas à minha escolha". Porém, estas não são permanentes, mas descartáveis, tal como os jornais mais incómodos.

Jorge Mangorrinha, professor universitário e pós-doutorado em turismo, faz um ensaio de memória através de fragmentos de viagem realizadas por ar, mar e terra e por olhares, leituras e conversas, entre o sonho que se fez realidade e a realidade que se fez sonho. Viagens fascinantes que são descritas pelo único português que até à data colocou em palavras imaginativas o que sente por todos os países do mundo. Uma série para ler aqui, na edição digital do DN.

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