Doentes deixam de ir ao médico de família para terem fisioterapia

Os hospitais vão passar a encaminhar diretamente os doentes para as clínicas de reabilitação, para evitar atrasos no início dos tratamentos e burocracias. Medida deve chegar a todo o país no início de 2020

Ss pessoas que precisam de fazer fisioterapia a seguir a um acidente vascular cerebral (AVC) ou um acidente vão deixar de ter de passar primeiro pelo médico de família. Os hospitais vão passar a encaminhar diretamente os doentes para as clínicas de reabilitação, uma medida simplex a ser publicada amanhã no Diário da República e que o governo espera que esteja no terreno em todo o país no início de 2020. A ideia é que os utentes demorem menos tempo a começar os tratamentos, que agora podem ter atrasos de mais de um mês, e libertar os centros de saúde de burocracias.

Na prática, um doente que agora seja tratado num hospital a problemas que vão de AVC, enfartes, hérnias, até à colocação de uma prótese na anca ou uma simples lombalgia - que representam largas dezenas de milhares de casos todos os anos -, recebe uma carta do seu especialista, que tem de ser transcrita pelo médico de família, para depois fazer o encaminhamento para uma unidade convencionada. Burocracia que pode demorar demasiado e que em muitas situações faz a diferença no sucesso da reabilitação.

Hoje, há atrasos que podem ser de mais de um mês.

"Hoje, há atrasos que podem ser de mais de um mês." Henrique Soudo, fisiatra em Setúbal e presidente da associação de profissionais desta área, reforça que na prótese da anca ou do joelho, por exemplo, é fundamental começar a reabilitação logo após a saída do hospital. "E mesmo nas doenças neurológicas, como os acidentes vasculares cerebrais, vê-se recuperações mais rápidas se o doente iniciar o tratamento mais cedo."

Aliás, no próprio despacho - assinado pelo secretário de Estado da Saúde, Fernando Araújo - pode ler-se que "a celeridade da resposta em termos de continuidade de cuidados é crítica para se obter ganhos para os cidadãos". O ministério espera também que as prescrições em formato digital acelerem ainda mais este processo.

O documento, a que o DN teve acesso, resulta das propostas de um grupo de trabalho formado há dois anos e admite que "muitos cidadãos, após alta hospitalar, recorrem ao seu médico de família, por vezes em condição clínica de extrema vulnerabilidade, por forma a obterem prescrição para a continuidade de cuidados de medicina física e de reabilitação". No futuro próximo, será o médico hospitalar do Serviço Nacional de Saúde que passa a assegurar a prescrição desses cuidados de fisioterapia para as clínicas convencionadas, sendo esta despesa da responsabilidade da respetiva Administração Regional de Saúde (ARS).

"Há uma simplificação do processo, porque o médico de família não acrescentava nada ao que o especialista hospitalar escrevia", explica o presidente da ARS do Norte, que participou na discussão da medida. António Pimenta Marinho acrescenta que o método atual, "além de atrasar o início dos tratamentos, causava transtorno às famílias, que tinham de acompanhar o doente, e ainda pesava na atividade dos centros de saúde". Ainda assim, no novo modelo, os médicos de família têm de continuar a ser informados automaticamente pelos hospitais e, ao fim de 30 dias de tratamento após a alta, são eles que têm de avaliar se os seus doentes mantêm-se em reabilitação.

Experiência arranca em 2019

Apesar de ainda não conhecer o texto do despacho, Henrique Soudo, que também pertence à direção da Federação dos Prestadores de Cuidados de Saúde, elogia uma medida que "até já existiu, até ao tempo de Paulo Macedo". "Este acesso direto dos hospitais à rede convencionada pode ser uma mais-valia, mas só se vier acompanhada de uma verdadeira liberdade de escolha." Um ponto que, garante o presidente da ARS Norte, está garantido. "Isto porque será o doente que escolhe o conven- cionado que mais lhe convém dentro da lista de prestadores. E há uma boa rede em todo o país, essa não é uma preocupação", sublinha Pimenta Marinho.
Este novo processo é publicado amanhã mas só entra em vigor em abril de 2019, em experiências-piloto, para dar tempo aos serviços para fazerem as adaptações técnicas. O Ministério da Saúde espera ter a medida implementada em todo o país no início de 2020.

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