A eletrificação da economia a partir de fontes renováveis é um desígnio europeu, sobretudo num momento em que a urgência da independência energética se tornou mais do que óbvia. E Portugal não está em melhor posição do que outros, ao contrário da tranquilidade que alguns tentam vender-nos: somos o 11.º entre 27 países na dependência de estrangeiros para nos fornecer a energia de que precisamos. Simplesmente a nossa garantia não vem da Rússia, vem da Nigéria, dos EUA e da Argélia..Com uma guerra à porta e o invasor a controlar o interruptor da fonte que alimenta o velho continente, a Europa vê-se forçada a empreender ações concretas para se libertar dos combustíveis fósseis e investir a sério nas fontes energéticas que possam compensar a dependência do gás natural, agora que a prioridade é que o petróleo saia da equação e com a vontade de desligar o nuclear a ganhar força..Na maratona europeia pela independência energética, recolher energia do sol, do vento, das ondas e dos rios é só uma parte do desafio. Não só é preciso infraestruturas e inovação tecnológica para permitir que as fontes renováveis jorrem energia suficiente para alimentar a rede ou fazer funcionar soluções alternativas, como o hidrogénio, sem que se liberte CO2 na produção - por isso chamado verde - como há que assegurar equipamento capaz de armazenar essa energia para a ela podermos recorrer quando e onde não há sol ou vento ou água..Uma vez que voltar às cavernas não é uma opção - até os ecoterroristas que invadem instalações privadas e boicotam atividades industriais e produções animais precisam de carregar os smartphones que usam para registar e difundir os seus atos -, é preciso encontrar soluções viáveis para aproveitar a energia gerada pela natureza..Simplificando, sem barragens, aerogeradores, painéis fotovoltaicos, turbinas e afins não há recolha. Sem baterias não há armazenamento. E sem lítio não há baterias..Querer preservar a natureza é importante, mas há momentos que obrigam a escolhas. Portugal tem uma das maiores reservas de lítio conhecidas da Europa e pode ocupar um papel fundamental na transformação energética em curso, como fornecedor da matéria-prima essencial ao fabrico de baterias - melhor ainda se puder conter aqui a transformação do lítio, vendendo-o já com valor acrescentado. Isto implica esburacar, destruir a paisagem atual, fazer uma pedreira e uma fábrica. Toda a evolução força mudança. O que é preciso pesar é quanto se perde e quanto se ganha, assegurar que a perda é mais do que compensada e o ganho maximizado..Sugerir que se explore lítio onde este não existe em quantidade e qualidade é uma ideia tão palerma quanto pretender pescar em terra. E dizer que queremos energias limpas sem o custo ambiental correspondente - a paisagem, os aerogeradores que matam passarinhos, a biodiversidade afugentada pelas barragens, etc. - é egoísta e pouco sério. Sabemos que alguém terá de ter esses custos, mas não nos ralamos com isso a menos que caiam no nosso colo..A barragem do Alqueva, que permitiu criar o maior reservatório artificial de água da Europa Ocidental e literalmente dar vida ao Alentejo, criando não só fontes de regadio para inúmeras culturas e atividades como assegurar a produção de energia suficiente para responder às necessidades de Évora, Beja, Portel, Moura e Vidigueira, demorou quase 40 anos a arrancar, com ruidosos protestos pela aldeia inundada, pelas pinturas rupestres escondidas, pela perda de espécies vegetais e animais....Demorar décadas para tomar uma decisão transformadora e com impacto europeu é um luxo a que não podemos dar-nos. E mais do que egoísmo, é estupidez perder a oportunidade de estarmos na liderança dos que podem ser peças fundamentais na transformação energética.