A falta que a conversa faz

Um nevoeiro ou neblina matinal, como dizia Anthímio de Azevedo no tempo em que havia boletim meteorológico, esconde a foz do Sado, Troia e o Portinho da Arrábida. São dez da manhã, está aquele frio que dá vontade de vestir camisolas confortáveis, acabou o pequeno-almoço e vamos passar as próximas duas horas a conversar sobre um livro. Podia dizer que íamos discutir diferentes ideias ou perspetivas, mas é mesmo conversar.

Atravessado o caminho que leva até ao propriamente dito Convento da Arrábida, instalam-se quinze pessoas à volta de uma mesa antiga de madeira, abrem-se edições diferentes da Antígona, de Sófocles, começa-se pela personagem mais improvável e só se acaba no dia seguinte, ao fim da manhã, sem se ter chegado a conclusão quase nenhuma. Pelo menos definitiva e unânime.

A ideia é mesmo essa. A conversa é um exercício intelectual, é um prazer partilhado, mas não tem de ser finalista nem utilitária, e não precisa de ter resultados únicos ou, menos ainda, impostos.

O grupo à volta daquela mesa tem em comum ter estudado, há mais ou menos tempo (uns há vinte, outros há cinco anos), Ciência Política e/ou Relações Internacionais no Instituto de Estudos Políticos (IEP) da Universidade Católica, mas este encontro não tem nada de académico. Não é uma aula, é um regresso aos livros em boa companhia. É uma herança nossa.

As regras deste jogo são simples: não é preciso ser-se especialista, mas tem de se ter lido o livro; falar, mas sobretudo ouvir; não tornar a leitura de um clássico numa discussão contemporânea que irremediavelmente transforme um grego de antes de Cristo em Trump. O modelo é importado de uma universidade americana e existe replicado nos Açores, num programa anual para alunos do secundário, dirigido pelo Miguel Monjardino.

Neste caso, porém, quem orienta a conversa é o mesmo, mas aqui somos todos adultos, o encontro dura dois dias - porque além da conversa à volta daquela mesa há passeios, almoços e jantares - e não serve para nada. Não tem notas, não dá títulos, não acrescenta uma linha ao curriculum vitae. A razão de ser disto tudo é a convicção de que há muito que aprender com os clássicos, há muitas leituras possíveis, que dependem mais da história e das histórias de cada um, e que uma conversa entre iguais muito diferentes enriquece muito mais do que uma discussão.

O que é que isto tem que ver com a Europa? Nada. Ou muito. A política europeia está a perder duas características importantes: a ideia de que podemos divergir sem quebrar e o sentido da história. À medida que deixamos que os radicais tomem conta do essencial do espaço público, tornamos a discussão política numa luta entre irreconciliáveis que só pode acabar em conflito. E, nesse processo, entre a excitação de um tweet e uma proposta fraturante, ignoramos que a história, sem ser um eterno retorno, é feita de homens que são, mais coisa menos coisas, muito parecidos. E que ler o Facebook não é a melhor maneira de perceber onde estamos.

Disclaimer: este encontro foi uma iniciava do IEP Alumni Club, de que sou presidente. Por isso não devia fazer esta apologia. Mas faço.

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