O mundo nas nossas mãos

Descobri a magia da leitura ao colo do meu padrinho, enquanto ele lia o jornal. O meu padrinho levantava-se muito cedo (nos países tropicais os dias começam pelas cinco da manhã, com cerca de 12 horas de sol). De segunda a sábado, ele saía cedo para fazer a ronda das padarias. O meu padrinho era um empresário português, da aldeia do meu pai, que emigrou cedo para o Brasil (talvez nos anos de 1940), casou com a minha madrinha algures no Ceará e depois foi viver para Valência, na Venezuela, onde eu nasci e passei a infância. O meu pai emigrou em 1955 com uma carta de chamada do meu padrinho e trabalhou para ele durante os 16 anos que viveu na Venezuela; nunca se tornou "empresário", apenas sócio de uma padaria na qual trabalhava com a minha mãe 364 dias por ano (fechava no 1.º de Maio). Passei em casa dos meus padrinhos muitos dias da minha infância, provavelmente os mais felizes daquela época. O meu padrinho costumava sentar-se no pátio das traseiras, depois do almoço e ao final da tarde, em camisola de alças, a ler ao jornal. Quando eu lá estava, invariavelmente me convidava para o seu colo, enquanto lia e comentava as notícias. Lembro-me das notícias sobre Brasília, a mágica cidade inaugurada em 1960, ano em que nasci, mas cuja construção prosseguiu por toda aquela década (não sei até que ponto esta recordação será uma criação minha, mas gosto dela e por isso a torno filha legítima da minha memória). Acho que foi assim que aprendi a ler e a gostar de jornais.

Lembro-me de os redescobrir em Tomar, onde chegavam depois das 13h00, no pós-25 de Abril. A minha representação de gente crescida passava por me sentar no café Paraíso a seguir ao almoço, a ler o jornal. Quando não havia dinheiro para o café, era no Mouchão ou no Parque das Merendas. Não me lembro de ler o Diário de Notícias, porque preferia os jornais com formato mais pequeno; gostava d'O Jornal e do Expresso, semanários, porque eram grandes e tinham muitas coisas diferentes. Já adulta, nada se comparava ao prazer de, nas manhãs de sábado e domingo, ler o jornal, então também o DN, no café.

A minha paixão por jornais foi esmorecendo com o tempo, provavelmente porque eles se foram tornando mais magrinhos, sem grandes reportagens, nem divulgação de ciência, nem temas originais, sem trazer o mundo às minhas mãos. Acredito que também o meu olhar tenha envelhecido e ficado incapaz de ver a sua magia. A verdade é que, desde há alguns anos, leio cada vez menos o jornal e apenas navego descuidadamente nas suas páginas online. Mas tenho muitas saudades do jornal em papel e é por isso com alegria que me antevejo em 2021 a saborear o mundo nas páginas do DN, que voltam a ser diariamente impressas.

Um novo ano é apenas um número num calendário, mero sistema de contagem do tempo. Ao iniciar um novo ano é inevitável, porém, rever o passado e projetar o futuro. Consigo resistir à tentação de fazer uma retrospetiva de 2020 (que poderia acrescentar?), mas recuso-me a prescindir dos projetos e desejos de ano novo, porque é o futuro que alimenta o sonho e nos move. Desejo que 2021 nos dê condições para sermos de novo livres e gregários, capazes de superar esta sobrevida e de viver integralmente.

Feliz 2021!

Professora e investigadora, coordenadora do Portal da Língua Portuguesa

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