Um dia, um homem abriu um livro

Num evento como a Folio, em que escritores andam soltos pelas ruas, e numa cidade em que hotéis, adegas, mercados e até igrejas veem-se lindamente abarrotados de livros, como Óbidos, fico a imaginar como se sentiria um cidadão americano chamado Burt Britton se lá estivesse. Exceto pelos livreiros e bibliotecários profissionais, não me lembro de ter conhecido ninguém tão ligado aos livros como Britton. E olhe que, na verdade, não o conheci. Aliás, só soube de sua existência há duas semanas, ao ler sobre sua morte, aos 84 anos, em um artigo no The New York Times.

Burt Britton é a prova de que há algo inexplicável nos livros. Nascido em 1933 em Brooklyn, em Nova Iorque, filho de pais envolvidos com o negócio de restaurantes, ele levou seus primeiros 27 anos de vida da maneira mais opaca possível. Foi um estudante inexpressivo, serviu nos Fuzileiros Navais sem qualquer distinção e pensou vagamente em ser ator. Importante: até por volta dos 24 anos, mal tinha aberto um livro. E, então, aconteceu - um dia, em 1957, ele abriu um livro. Mais exatamente, The Hamlet, um romance de William Faulkner. Leu as primeiras 30 páginas e, de repente, raios e trovões espocaram dentro de sua cabeça, um jato de luz vazou-lhe os olhos e ele sentiu sua temperatura subir como se invadido por um vulcão. Tudo isso durou um segundo. Mas sua vida nunca mais foi a mesma.

Quero crer que Faulkner não tenha sido o mais importante nessa convulsão. Poderia ter sido qualquer escritor - Homero, Shakespeare, James Joyce ou até mesmo a Baronesa Orczy, autora de O Pimpinela Escarlate. Não foi Faulkner, foi o livro - aquele objeto que, uma vez aberto, traga seu usuário para dentro de suas páginas, enfeitiça-o, hipnotiza-o, escraviza-o e faz dele um sábio, um idiota ou qualquer outra coisa que os livros fazem com seus leitores. Foi assim com Burt Britton.

A partir daí, ele começou a passar o dia nas livrarias de Nova Iorque, tentando ler, em pé, de graça, o máximo de livros que pudesse - ficção, principalmente. Levava horas em cada livraria e, para não dar na vista, revezava-as - ia de uma à outra lendo o mesmo livro até terminá-lo. Para sustentar essa rotina, trabalhava à noite como motorista de táxi ou barman. Como era inevitável, ficou conhecido nas livrarias e, para sua surpresa, ninguém tentava reprimir sua leitura grátis.

Ao contrário. Até gostavam quando Britton, espontaneamente, se oferecia para indicar este ou aquele romance a clientes indecisos - afinal, já tinha lido tudo o que saíra. E, entre um cliente e outro, continuava lendo. Até que uma das livrarias o contratou: a Strand, o fabuloso alfarrábio do Village, talvez o maior do mundo. "Já que passa tantas horas aqui, por que não vem trabalhar connosco?", disse-lhe Benjamin Bass, o proprietário. Deram-lhe até uma poltrona no subsolo, reduto dos livros mais nobres, para finalmente poder ler sentado. E assim, durante anos, Burt foi pago para fazer o que faria de graça desde que o deixassem em paz - ler. E nunca deixou de frequentar as outras livrarias que conhecia.

Com os anos, Britton adquiriu outra mania e tão benigna quanto. Ao ver um escritor adentrar uma livraria em que estivesse, apresentava-se, oferecia-lhe uma folha de papel e um lápis, e o convidava a desenhar sua própria autocaricatura. Nem todos aceitavam, claro. Mas veja esta amostra dos que o atenderam: Gore Vidal, Norman Mailer, Lillian Hellman, John Cheever, Isaac Bachevis Singer, Kurt Vonnegut Jr., Saul Bellow. Muitas dessas caricaturas estão hoje penduradas na Strand.

Burt Britton tinha uma frase definitiva: "Dá o mesmo trabalho ler um mau livro ou um bom livro. Então, por que não ler um bom livro?" Era por isso que, depois de conversar com ele, um cliente em busca de, digamos, Paulo Coelho acabava comprando Flaubert ou Balzac - para o bem de si mesmo.

Que pena que, ao morrer outro dia em Manhattan, Burt não tenha tido a oportunidade de conhecer a Folio. Um homem entre livros - mesmo sem ler ou falar português, ele se sentiria em casa.

Ruy Castro

Jornalista e escritor brasileiro, autor de, entre outros, Estrela Solitária - Um Brasileiro Chamado Garrincha, agora editado em Portugal pela Tinta-da-China

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