Mosteiro da Batalha. Símbolo de um Portugal moderno, criativo e empreendedor

As narrativas podem variar. Mas comecemos com a da memória e da identidade. Em 2016 a Assembleia da República atribuiu ao Mosteiro da Batalha o estatuto de Panteão Nacional, encerrando-se assim um grande ciclo de reconhecimento do monumento como lugar de memória identitária por excelência, conceito que está na génese da sua construção e que explica a grandeza do empreendimento e o seu impacto artístico e arquitetónico (por isso mesmo reconhecido como obra-prima do gótico e berço do "manuelino").

Mandado erguer em cumprimento da promessa feita a Nossa Senhora da Vitória, nas vésperas da Batalha de Aljubarrota, o mosteiro vincula-se decisivamente aos feitos e à memória de uma dinastia fundadora, a de Avis, quando D. João I, em 1426, ordena a mestre Huguet a construção de uma capela sepulcral, para aí ser sepultado juntamente com a sua esposa D. Filipa de Lencastre (já falecida em 1415) e seus filhos, os infantes. Na realidade, a Capela do Fundador é também o primeiro Panteão Régio, nessa função unificadora post mortem.

Essa mesma vocação será reafirmada com a encomenda de D. Duarte, ao mesmo mestre, de um segundo panteão régio, que nunca será terminado por vicissitudes várias e que, por isso, ficará conhecido como Capelas Imperfeitas.

Assim, desde a sua fundação, o Mosteiro da Batalha sempre se assumiu como território de memória identitária e se foi consolidando ao longo do tempo, especialmente nos séculos XIX e XX, como "espaço de vocação do destino pátrio", citando o historiador Saul António Gomes.

Porque, para além da Capela do Fundador, em todo o seu espaço, como que numa representação social que forja uma identidade, encontram-se sepultados não só muitos frades e priores cujos nomes, numa aparente damnatio memoriae, foram apagados com as intervenções liberais do século XIX, mas sobretudo os representantes das elites governativas que marcaram a história nacional e mundial, por via dos descobrimentos e conquistas: quatro reis - D. João I, D. Duarte, D. Afonso V e D. João II; três rainhas - D. Filipa de Lencastre, D. Leonor de Aragão e D. Isabel de Coimbra; quatro infantes - D. Pedro, o das Sete Partidas, que foi regente, D. Henrique , o Navegador, D. João e D. Fernando, o Infante Santo; e ainda um príncipe - D. Afonso (que morreu aos 16 anos) e vários nobres. Mais ainda: caso único na Europa do seu tempo e no contexto do estatuto social dos mestres arquitetos, Mateus Fernandes, o criador do "manuelino", será sepultado logo após a sua morte, em 1515, à entrada da igreja, num dos lugares mais sagrados de todo o espaço conventual.

Deste "monumento pátrio", Alexandre Herculano também dirá, alegoricamente, que é "A Divina Comédia portuguesa, lavrada em pedra". E o mesmo Alexandre Herculano, coincidindo com as grandes campanhas de restauro levadas a cabo pelos governos liberais após 1840, por ação de D. Fernando II, e que salvaram o mosteiro da ruína, apoderar-se-á, até hoje, do imaginário português com a sua narrativa de "A abóbada não caiu, a abóbada não cairá!", que foi passando como verdade histórica para gerações de leitores. O professor José Mattoso, por exemplo, recordará como a descrição vívida e emocionada, pelo seu professor da escola primária, do sacrifício de mestre Afonso Domingues, em plena Sala do Capítulo, o marcará no seu decisivo encontro com a história.

No ocaso da monarquia, também o Mosteiro da Batalha se fortalecerá simbolicamente como berço da nação. No final do século XIX, as ossadas de D. Afonso V, de D. João II e do seu filho, o príncipe D. Afonso, serão trasladadas de outros espaços do mosteiro para a Capela do Fundador, em novos túmulos que copiam integralmente os modelos originais - na realidade promovendo politicamente a imagem da unidade, reconstruindo um "certo" passado glorioso e heroico. Em 1907 obtém precocemente a qualificação de Monumento Nacional e na I República, a nação, ao decidir em 1921 prestar as honras nacionais na Sala do Capítulo aos dois Soldados Desconhecidos mortos na I Grande Guerra, confirmará esse estatuto de monumento memorial.

O Estado Novo, bem perto de nós, reforçará significativamente, à sua maneira, este pendor memorialista, que é de todos bem conhecido. Mas foi mais longe. Vinculado como monumento de exaltação nacionalista, tornou-se um dos seus ícones de culto, assim como os seus "heróis" e "santos" aí sepultados - que motivará, por exemplo, a partir dos anos 1940, a reedificação de toda a paisagem urbana envolvente, abrindo-se inclusivamente uma estrada nacional na encosta sobranceira, na tentativa de o projetar não só como monumento purificado, mas como "aparição" súbita e surpreendente.

Dele dirá ainda um dia o poeta leiriense Afonso Lopes Vieira, sem ambiguidades serôdias, que o Mosteiro da Batalha é o "monumento em que mais pátria há!".

E, surpreendentemente, o monumento, passados quase 50 anos sobre a Revolução de Abril, ainda sofre, diremos nós quase subliminarmente, desse demasiado peso nacionalista e patriótico com que a história o sobrecarregou, mesmo no seio de determinada intelligentsia, que o olha desconfiado por isso mesmo, porque verdadeiramente só conhece o monumento pela sua narrativa mais memorialista e mais exaltada.

Mas a verdade é que o estatuto de Monumento Património Mundial pela UNESCO, logo em 1983, projeta o monumento numa dimensão internacional, para fora dos limites estreitos do conceito de "Estado-nação". Não é apenas o "monumento dos portugueses", mas inequivocamente obra-prima do génio criativo, herança de toda a humanidade. Esse estatuto é, na realidade, um dos mais significativos. Não apenas porque atrai anualmente centenas de milhares de visitantes, estrangeiros na sua maioria, mas sobretudo porque nos remete para uma outra narrativa: a de um monumento que foi ao longo de 150 anos o principal estaleiro de inovação artística e arquitetónica do país (porque tudo o que nele se fez foi novo e inovador), que foi ao longo de 50 anos a principal oficina da arte de fazer o vitral (aprendida com Luís, o Alemão) e que, ao atrair inúmeros mestres e artesãos vindos de todas a Europa, se tornou um centro artístico multinacional, sem paralelo no país. Uma obra que no seu tempo seria representativa de uma realeza poderosa, mas mais do que isso: de um Portugal moderno, criativo e empreendedor.

Diretor do Mosteiro da Batalha

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