A forma descartável como Trump olha para os aliados, a constante desvalorização das organizações multilaterais e a fórmula penalizante que imprime às negociações comerciais têm sido vistas como a trilogia exótica da nova política externa americana. Em perspetiva, nada disto é verdadeiramente uma inovação. Num contexto bem menos agregado de relações políticas e financeiras à escala mundial, o comportamento americano até 1945 foi estruturalmente desconfiado de alianças permanentes, pouco ou nada vinculado a compromissos externos, profundamente umbiguista e largamente povoado de administrações mais paroquiais do que internacionalistas. Todo o período da Guerra Fria e posterior transição geopolítica em resultado da implosão da União Soviética traduzem um período histórico excecional na história da conduta externa dos EUA, não a regra. Neste sentido, a transição que vivemos coloca a administração Trump num curso mais alinhado com a história dos EUA do que parece, aproveitando duas correntes internas em desagregação..A primeira resulta da fadiga internacionalista da América, geradora de uma exaustão cultural endógena cada vez menos crente nos méritos da sua ação externa, sobretudo na ressaca das longas guerras do Afeganistão e do Iraque. Foi ao ler esta "vontade popular" acentuadamente transversal que Obama agiu como agiu na Líbia e, depois, na Síria. Se juntarmos ao efeito social desta espargata militar a descredibilização do modelo financeiro americano aquando da crise de 2008-2009, temos a receita para a retração geopolítica: asseguram-se mínimos olímpicos mas está fora de questão qualquer apoio generalizado a renovados votos de longa duração com o resto mundo. Além de politicamente frágeis, custam biliões ao tesouro. Hoje é politicamente difícil colher uma legitimidade popular alargada com um discurso internacionalista..A segunda diz respeito ao consenso das elites políticas e culturais bipartidárias que moldaram a criação das estruturas definidoras da ordem liberal ocidental, progressivamente globalizante. Hoje, este consenso não existe. Basta ver o perfil dos candidatos às primárias do partido democrata e o unanimismo crescente entre os republicanos em redor da política externa de Trump para percebermos como a defesa das democracias, a sua expansão geográfica, a crença no livre comércio e a preservação de instituições multilaterais estão cada vez mais ausentes das prioridades dos dois partidos. Nesta dupla deriva revolucionária vão perder-se boas referências dos últimos 70 anos que, atualizadas e corrigidas nos seus problemas, poderiam ajudar a consolidar a extensão de um período absolutamente singular na história da humanidade..Se durante a Guerra Fria as premissas deste modelo foram testadas pela ameaça soviética, consolidando-se entre os seus defensores, depois de 1989 tornou-se o mantra indisputável e apetecível a outras regiões para lá dos EUA e da Europa Ocidental. Durante estas décadas, mais de quatro biliões de pessoas saíram da pobreza e o número de democracias multiplicou-se por dez. Novas liberdades individuais foram conquistadas, novos direitos laborais trouxeram maior dignidade e coesão às sociedades, as redes universitárias e culturais passaram a entrelaçar milhões de pessoas à escala global, formatando laços económicos e estabilizando relações diplomáticas entre novos Estados. Esta dinâmica, em muitos níveis posta agora em causa com o regresso cíclico das ancestrais vagas identitárias, é estruturalmente tão perigosa como amplifica as vulnerabilidades dos mais pequenos, comprometidos com o lado mais cosmopolita do sistema internacional, como é o caso de Portugal..Perigoso porque alinha um conjunto de homens-fortes à frente de grandes potências, certamente com interesses nacionais diferentes, mas convergentes na conduta que querem imprimir às relações internacionais: beligerante, de soma zero, agressiva, de bullying permanente, desgarrada no método mas calculada no alcance. Tudo isto seria domável se estivéssemos apenas a falar de Duterte ou de Viktor Orbán. Mas o quadro é um pouco mais sofisticado. Há testosterona geopolítica num arco que vai de Trump a Bolsonaro, Putin a Xi, Erdogan a Sisi, Salvini a Netanyahu, Maduro a Salman. A globalização tirou milhões da miséria mas também trouxe para o centro da influência geopolítica todos estes líderes ao mesmo tempo. É neste alinhamento que as instituições liberais tremem: o próximo Parlamento Europeu pode vir a ter mais de 30% de deputados anti-UE sentados nos privilégios de Bruxelas; o nome proposto por Trump para liderar o Banco Mundial é alguém que desconfia dos méritos da sua missão; e a NATO está a atravessar um novo dilema existencial sob pressão intensa do seu maior acionista. Tudo pode deslassar de forma incontrolável..A exposição das vulnerabilidades dos pequenos-médios Estados integrados nesta ordem é evidente. Primeiro porque são mesmo pequenos para influenciar as grandes questões da política internacional se atuarem isoladamente. É para isto que existem a UE e a NATO: para lhe dar escala e maximizar poder. De qualquer forma, saindo o Reino Unido e com os limites crónicos da Alemanha ou a autoflagelação que reina em Paris, torna-se difícil encontrar um rumo agregador. Ora, para um país como Portugal, de economia aberta e exposto a riscos vários, a geometria variável das suas relações tem-lhe permitindo encontrar fórmulas compensatórias e equilibradoras, não perdendo o eixo central da sua política externa. Tudo isto estava facilitado com a previsibilidade do modelo oferecido em Washington, mas hoje, com o alinhamento nacionalista em alta, vamos ser levados a definir com outra exatidão o nosso papel na história. Há quanto tempo não ouvimos um primeiro-ministro português proferir um grande discurso sobre política externa? Pois, eu também não lembro..Investigador universitário