Meninos, decoro

Há coisas que não se entendem. Só há poucos meses, imagine-se, é que França decidiu declarar Sade tesouro nacional. Nas vésperas de ir à praça o manuscrito original de Os Cento e Vinte Dias de Sodoma ou Escola da Libertinagem, avidamente disputado por tarados do mundo inteiro, o Estado francês classificou e impediu a venda do mítico rolo de papel de doze metros de comprimento em que Donatien Alphonse François de Sade, preso nas masmorras da Bastilha em 1785, deu vazão às suas pulsões mais íntimas, escritas numa caligrafia minúscula, quase imperceptível. Doravante, o libidinoso papiro terá muitas dificuldades em sair do país, à semelhança de outro clássico da luxúria, as memórias de Casanova, que a Biblioteca Nacional de França adquiriu em 2010 pela bonita soma de sete milhões de euros. Calcula-se que, leiloados, Os Cento e Vinte Dias de Sodoma iriam atingir um valor superior, de oito ou mais milhões, o que não está nada mal para uma obra escrita de jacto, em trinta e sete dias, por um artista que passou quase trinta anos da sua vida encravado em penitenciárias húmidas e asilos de loucos. Já em 2014 o Presidente Hollande, outro melro, tentara comprá-la para a República, acabando por desistir com receio de críticas moralistas a uma aquisição milionária feita em tempos de austeridade. Segundo se diz, os coleccionadores mais interessados no sádico libelo são norte-americanos, o que se compreende num país presidido por Donald J. Trump, e turcos, o que também não admira se tivermos presente que o grotesco L"origine du monde foi pintado por Courbet a encomenda de um diplomata turco otomano, que teve de se livrar dele para pagar dívidas de jogo; o óleo pornográfico, como se sabe, andou em bolandas até ir parar à casa de campo de Lacan, que o teve pudicamente escondido dos olhares do mundo até que, por sua morte, a família o doou ao Estado francês para pagar os direitos sucessórios do histórico psicanalista. Está hoje no Musée d"Orsay, à vista de todos.

Quanto ao rolo de Sade, a trama é conhecida: no dia 1 de Novembro de um ano não identificado mas no final do reinado de Luís XIV, quatro poderosos cavalheiros, todos de péssima índole, reúnem-se no castelo de Silling, na discreta Suíça, para fazerem muitas malandrices. Junto deles, de olhos bem fechados, quarenta e duas vítimas de orgias inconcebíveis e indescritíveis, que o Divino Marquês concebeu e descreveu ao pormenor escabroso. Les 120 journées de Sodome é uma porcaria completa do princípio ao fim, e termina com os quatro malvados a regressarem a Paris, após uma grande farra que durou um par de meses e provocou número indeterminado de mortos e feridos, de ambos os sexos e de todos os géneros.

Menos conhecido - e nas raias do absurdo - é o facto de Sade se ter inspirado nas regras da vida monástica para descrever o ambiente nada monástico do castelo de Silling, ali aos Alpes. Quem o diz é Altissima Povertà, livro do filósofo italiano Giorgio Agamben, que, sendo um homem circunspecto e muito sério, não avançou esta tese por ambição de escândalo ou iconoclastia fácil.

No castelo de Silling tudo era regido à minúcia, tal qual como nos conventos, ainda que o propósito não fosse aumentar a devoção dos residentes mas, bem pelo contrário, favorecer a máxima lubricidade, levada aos extremos mais radicais. Mal chegados à Suíça, uma das primeiras medidas dos quatro libertinos consistiu em aprovar um rigorosíssimo regulamento que determinava, exactamente como nas vidas dos frades e noutros universos concentracionários, as horas de acordar, comer e deitar. Sade parodiava assim as regras conventuais e o regulamento mandava que, finda a ceia, se passasse ao salão da assembleia "para a celebração daquilo a que se chama orgias". As casas de banho foram instaladas, claro está, na antiga capela do castelo.

Mimetizando a lectio das Escrituras, que nos conventos acompanha as refeições em conjunto e outros momentos do dia, em Silling existiam quatro historiennes - a Duclos, a Champville, a Martaine e a Desgranges - que antes de cada orgia contavam ritualmente as suas vidas pretéritas, plenas de depravação. Se as Regula monachorum impunham uma obediência sem limites, até à morte, dos monges aos seus superiores, e proibiam o riso, também no castelo suíço "o mais pequeno sorriso, a mais pequena falta de atenção ou de respeito ou de submissão nas assembleias de deboche será falta das mais graves e das mais cruelmente castigadas". Noutros aspectos, contudo, as liturgias de Silling nada tinham a ver com as dos mosteiros. "O nome de Deus só poderá ser pronunciado acompanhado de invectivas ou imprecações, e será repetido o maior número possível de vezes", era uma das regras impostas pelos quatro libertinos, anticlericais empedernidos como o marquês que os concebeu e levou à cena, por sinal porca e devassa.

Lê-se no jornal um escândalo de pedofilia num mosteiro beneditino da Baviera. Agora não é Sade quem copia a abadia, mas justamente o inverso, terrivelmente o inverso. Noutra notícia surgem meninos do coro de uma catedral alemã. Noutra ainda, um corista nigeriano chefiava uma rede de prostituição masculina no Vaticano envolvendo seminaristas e imigrantes clandestinos. Numa escuta telefónica dessa investigação, o predador pergunta à presa: "A que horas tens de voltar para o seminário?" Há mesmo coisas que não se entendem.

Ler mais

Exclusivos

Premium

Henrique Burnay

Discretamente, sem ninguém ver

Enquanto nos Estados Unidos se discute se o candidato a juiz do Supremo Tribunal de Justiça americano tentou, ou não, há 36 anos abusar, ou mesmo violar, uma colega (quando tinham 17 e 15 anos), para além de tudo o que Kavanauhg pensa, pensou, já disse ou escreveu sobre o que quer que seja, em Portugal ninguém desconfia quem seja, o que pensa ou o que pretende fazer a senhora nomeada procuradora-geral da República, na noite de quinta-feira passada. Enquanto lá se esmiúça, por cá elogia-se (quem elogia) que o primeiro-ministro e o Presidente da República tenham muito discretamente combinado entre si e apanhado toda a gente de surpresa. Aliás, o apanhar toda a gente de surpresa deu, até, direito a que se recordasse como havia aqui genialidade tática. E os jornais que garantiram ter boas fontes a informar que ia ser outra coisa pedem desculpa mas não dizem se enganaram ou foram enganados. A diferença entre lá e cá é monumental.

Premium

Ruy Castro

À falta do Nobel, o Ig Nobel

Uma das frustrações brasileiras históricas é a de que, até hoje, o Brasil não ganhou um Prémio Nobel. Não por falta de quem o merecesse - se fizesse direitinho o seu dever de casa, a Academia Sueca, que distribui o prémio desde 1901, teria descoberto qualidades no nosso Alberto Santos-Dumont, que foi o verdadeiro inventor do avião, em João Guimarães Rosa, autor do romance Grande Sertão: Veredas, escrito num misto de português e sânscrito arcaico, e, naturalmente, no querido Garrincha, nem que tivessem de providenciar uma categoria especial para ele.