Se a cidade

Por entre os bancos, por entre a turbulência, as mãos dela (e se houvesse palavras para descrever mãos, mas não há) agarradas ao telemóvel, as unhas longas, tratadas mas como se não estivessem, o rolo da câmara, e ela a escolher que fotografias apaga, que fotografias deixa. O dedo seleciona o que fica e o que parte. Por vezes é muito fácil, faz cinco, seis de uma vez, noutras demora mais, hesita, anda para cima, volta abaixo. Quando para numa foto, antes de a aumentar, olha para o lado, para o namorado, para ver se ele está a ver, é discreta, faz bem a coisa, parece treinada.

De onde estou, não vejo se ele dorme, se mergulha no seu telemóvel, se olha pela janela para o algodão-doce das nuvens, mas o importante era não olhar para as fotos que ela apaga, e isso não olha porque ela não para. Ele não pode ver, mas eu tento, por entre os bancos. Printscreens de conversas, e uma ou duas de pessoas, conversas. E ela apaga, temente da paga, ou pode ser por causa da memória, da pouca do telemóvel, da muita dele, ou da que ela não quer ter. São mais novos, e os mais novos não dizem telemóvel, dizem telefone, porque o telefone sempre foi móvel, como eles, nascidos no mundo low-cost.

No elevador, cruzamo-nos várias vezes, ela a comer migalhas com a ponta dos dedos de um bolo esfarelado, com prazer que se sente, que se ouve. Parece ser um momento de prazer permitido numa dieta, ou a violação de uma dieta, que ainda dá mais prazer, como qualquer desregro dá. Não parece tocar com os dedos na boca quando o faz, dedos também imaculados, de quem não trinca as peles, ou trinca e elas regeneram entre uma mordida e outra. É elegante, altiva, como qualquer depenicadora de bolo.

Duas mulheres descem a Avenida, o problema dos homens muito inteligentes, diz uma, não sei qual delas, é que são só isso, muito inteligentes, e depois não percebem o resto, estás a perceber, e a outra deve ter dito que sim com a cabeça, ou com um ar cúmplice, um ar de quem a amiga sabe por que é que ela sabe, e por isso responde apenas pois, com pena de a amiga ter tido de passar por aquilo. Só da voz, e do que imagino, apostaria que nem passou tão mal, nem a amiga tem tanta pena como isso, mas ambas concordaram em manter a coisa assim, como se acreditassem tudo uma na outra.

Se o mundo fosse um livro (não é?), se a cidade fosse como eu a desenhasse, as mãos do avião apagariam mensagens do rapaz inteligente, o que desiludiu mas não tanto como isso uma das amigas da Avenida, e que de manhã deixou à porta da empresa a respigadora de migalhas de bolo. Também podia ser que o rapaz do avião que olha pela janela fosse o tal que era inteligente, mas só isso, e apagadora de fotografias apagasse um printscreen de uma conversa de grupo, antes de ter saído do grupo, com a das migalhas e as da Avenida, em que a avisam que ele não pode ser muito inteligente, mas é muito mais do que isso, neste caso muito menos, mas ela apaga porque não quer saber, porque o avião está quase a aterrar, e o que é que elas sabem, muito menos do que ela, aqueles dias em Madrid tão bons, ele é muito mais do que isso. E no fim seriam felizes nem sempre.

Advogado

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