Fatalismo e democracia

Nem as ditaduras são eternas nem as democracias estão condenadas. Nem o populismo é uma vaga imparável nem os partidos tradicionais têm os dias contados. Isso não quer dizer que, também em Portugal, o trumpismo não vá pondo a cabeça de fora.

A recente mudança de governo em Itália, excomungando Matteo Salvini, a derrota de Benjamin Netanyahu nas legislativas desta semana em Israel, o papel do PSOE como pivot de soluções numa Espanha em transformação política acelerada, a subida dos verdes alemães a segundo partido nacional, ou ainda, recuando no tempo, ao surgimento de Macron nas presidenciais francesas, passando pela vitória dos sociais-democratas holandeses dados como mortos na hecatombe nas legislativas de 2017, mostram que o fatalismo em democracia é contradição nos termos. Não há nenhum determinismo político nestes tempos de choque tectónico global que necessariamente tenha de mergulhar as democracias ocidentais num novo inverno nacionalista, protecionista e xenófobo, antecâmara de novas guerras.

Uma coisa é haver indicadores alarmistas que merecem redobrada atenção, requerem respostas à altura e muita coragem política. Nestas alturas fica claro quem está num lado da barricada e quem está disponível para preservar o outro. Outra coisa diferente é tornar esse alarmismo num magma que nos consome de tal maneira até cegarmos de pessimismo, numa espiral sem fim. Nem as ditaduras são eternas nem as democracias, por mais anátemas que carreguem, estão condenadas a sucumbir aos populismos. As democracias têm sempre correção, sempre solução, sempre regeneração. Quanto mais não seja porque, ao contrário do que se quer fazer crer, as instituições têm provado altos índices de resiliência aos choques tremendistas da última década - crises financeira, migratória, ideológica, multilateral, credibilidade política -, resistindo com dignidade a más decisões de maus líderes políticos. Em democracia, é muito mais rápido livrarmo-nos de um líder tóxico do que implodir uma instituição que funcione como alicerce do regime.

Ou seja, em sociedades atentas e com quadros de estabilidade social minimamente prolongados (o que não significa ausência de crises económicas) não se destroem democracias do pé para a mão. Não é uma fornada de outdoors com um qualquer populista de algibeira que, por si só, consegue alterar os equilíbrios que garantem a estabilidade num país. Normalmente esses populistas têm um saco vazio de políticas públicas para propor e, quando as têm, só um adversário politicamente iletrado consegue ser derrotado. Ora, a existência de partidos (grandes ou não) estruturalmente consolidados no tecido social e institucional de uma democracia, tem o condão de trazer experiência acumulada, conhecimento da evolução histórica de um país, proximidade com as comunidades, preferencialmente juntando tudo isto ao diálogo constante com a sociedade civil para evitar criar uma bolha administrativa, e também a abertura indispensável à emergência de novas gerações com mais mundo do que a política e menos vícios do que os da hierarquia das estruturas partidárias. Isto para dizer que mais do que novos partidos, as democracias podem e devem ser capazes de aproveitar a estabilidade que os tradicionais lhes dão, antecipando isso sim os riscos inevitáveis da erosão, regenerando no modo e no tempo certos. Como sabemos, são muitos os casos em que isto só a custo acontece.

O papel dos media é fundamental nestes momentos. O bom jornalismo fiscaliza abusos na economia e na política, obriga a mudanças, questiona decisões, desperta consciências, forma uma sociedade atenta. Deve ser capaz de introduzir temas que parecem nunca sair do anonimato, descolar da ditadura da agenda partidária, expurgar da sua oferta a futebolização da linguagem, primar por criatividade analítica, descentralizar conteúdos, dar tempo ao que precisa de tempo, cuidar da sua estética para aumentar o seu auditório, aproximar-se dos seus leitores. A tabloidização dos media também não é um fatalismo.

Vale a pena lembrar que uma democracia não respira sem pluralismo, sem a credibilidade dos seus intervenientes, sem separação de poderes, sem maturidade no relacionamento entre eleitos e eleitores. Tal como não se torna saudável menorizar a inteligência das pessoas, dando-lhes sangue e circo à exaustão, ou frases polémicas em feeds de redes sociais, apenas porque uns iluminados determinaram ser isso o que "as pessoas querem". O paternalismo jornalístico é tão perverso como o político e, mais cedo ou mais tarde, vira-se contra o feiticeiro. Ninguém gosta de ser estupidificado eternamente.

A complexidade das democracias pede seriedade na abordagem destes vasos comunicantes. E sobretudo responsabilidade coletiva. Preservar instituições enraizadas, partidos tradicionais, jornais históricos, não é o mesmo que cristalizá-los, recusando mudanças, adaptações, correções profundas. É ter a noção de que reformar sem destruir é normalmente o caminho mais prudente, quando não há nenhuma razão de fundo para as tentar implodir em nome do vazio ou de um voluntarismo infantil.

Pode parecer que a campanha portuguesa para as legislativas assumiu definitivamente um grande consenso social-democrata (como se isso fosse mau), mas valia a pena estar atento a certas vozes convergentes no espírito caterpillar para a mudança radical do sistema político, virando partidos tradicionais de pernas para o ar e tomando alguma imprensa que não alinha com eles como inimiga figadal. A esta trilogia chama-se trumpismo. Não sendo um fatalismo, anda por aí com a cabeça de fora.

Investigador universitário

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