Macedónia do Norte. A enguia que vive da saudade

Mala de viagem (106). Um retrato muito pessoal da Macedónia do Norte.

Da capital albanesa à cidade de Ohrid, na atual Macedónia do Norte, são 130 quilómetros, os últimos dos quais se percorrem numa das margens do lago de mesmo nome. Portanto, aproveitei o facto de estar na Albânia para fazer um reconhecimento para além da fronteira a leste. A cidade de Ohrid, também chamada Ocrida, é, conjuntamente com o lago, considerada Património Mundial. Em 1979, o Comité da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) decidiu inscrevê-la sob critérios naturais e, no ano seguinte, este reconhecimento foi ampliado para incluir a área cultural e histórica, com base em critérios culturais. Cheguei à cidade ao princípio da noite, para que, no outro dia, pudesse subir ao castelo para ver o lago em toda a sua plenitude. De noite, Ohrid tem um centro urbano luminoso, já que em muitas ruas os pisos térreos são preenchidos de comércio de todo o tipo, desde marcas internacionais a pequenas lojas de bijuterias. As principais ruas são pedonais, com lajeados de pedra. Apenas a luz das montras iluminavam aquelas ruas. Os candeeiros permaneciam desligados, apesar de o céu estar escuro. A rua principal é conhecida como "Velho Bazar", com muitas lojas e restaurantes. Na zona mais diversificada e aberta, o comércio sai de portas. Mais adiante, a rua alarga-se numa espécie de terreiro, também pejado de vida e de comércio. Entro numa área mais antiga, com origens no período bizantino, de ruas estreitas, estas já com iluminação pública a funcionar. Uma porta pequena indica um local para comer um "falafel", por sinal saboroso, bem temperado e num prato com outros vegetais. O "falafel" é crocante por fora e macio por dentro, com um bom equilíbrio de ervas e especiarias. Pernoitei num "hostel" na parte antiga da cidade, mas o som do exterior foi quase permanente durante a noite. Como tal, na manhã seguinte, subi ao topo da cidade com a proteção "divina" dos óculos escuros. Vislumbrei o lago e a cidade por inteiro, a mesma que os gregos mencionavam como Lychnidos, ou "cidade das luzes". Só foi renomeada para Ohrid em 879 d.C., nome que significa "Na colina". A cidade foi um ponto cultural e económico importante, servindo de centro episcopal da Igreja Ortodoxa Búlgara. Daqui, a cultura eslava espalhou-se para outras partes da Europa, e não é de surpreender que esta região possua a primeira universidade nos Balcãs - a escola literária de Ohrid que difundiu a escrita, a educação e a cultura por todo o antigo mundo eslavo. Um fenómeno natural superlativo a esta cidade é o facto de estar junto do lago, que existe há cerca de três milhões de anos. A relação é, portanto, umbilical. O lago Ohrid tem uma fauna rica, desde a truta, o peixe branco e certas espécies de caracóis. Em particular, a presença da enguia europeia e o seu desconcertante ciclo reprodutivo trazem-nos uma história admirável. Ela chega ao lago desde milhares de quilómetros de distância e assenta nas profundezas por dez anos. Quando sexualmente madura, a enguia é impulsionada por instintos inexplicáveis, no outono, para voltar ao ponto de nascimento, portanto, de novo a milhares de quilómetros. Lá desova e morre, deixando aos seus descendentes a contínua procura por estas águas lagunares para recomeçarem o ciclo e assegurarem a descendência, talvez como filhos do mesmo deus que criou este lago há milhões de anos. E eu, a propósito, sou aquele que viaja para se cobrir de lembranças ou esquecer a falta de sucessão, mas que também regressa no tempo e se perde dentro de si, disperso num labirinto de saudade do futuro.

Jorge Mangorrinha, professor universitário e pós-doutorado em turismo, faz um ensaio de memória através de fragmentos de viagem realizadas por ar, mar e terra e por olhares, leituras e conversas, entre o sonho que se fez realidade e a realidade que se fez sonho. Viagens fascinantes que são descritas pelo único português que até à data colocou em palavras imaginativas o que sente por todos os países do mundo. Uma série para ler aqui, na edição digital do DN.

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