O homem mais interessante da lua

O projecto de explorar os astros envolveu somas astronómicas e a mobilização de recursos sem precedentes em tempo de paz, pelo que muitos dos lucros intangíveis eram imediatamente reinvestidos em retórica estratosférica.

No dia 20 de Julho de 1969, o homem mais famoso do planeta estava fora do planeta. A 384 mil quilómetros de distância, perante 600 milhões de espectadores, com um uniforme de 180 quilos e o coração a bater 150 vezes por minuto, o famoso Neil Armstrong preparava-se para dar um famoso primeiro passo, acompanhado de um ainda mais famoso solecismo, resultado do eclipse de um artigo indefinido ("That's one small step for [a] man, one giant leap for mankind"). Depois deu um famoso passeio.

Dos vários documentários que assinalaram os 50 anos do "salto gigantesco", a RTP1 optou sensatamente por transmitir um dos melhores. À Descoberta da Lua (produzido pela PBS americana) consiste exclusivamente em imagens de arquivo e esporádica narração contemporânea, e recolhe uma bela selecção de momentos: Michael Collins a lamentar numa conferência de imprensa que a ausência de um ecrã no módulo orbital fará dele uma das poucas pessoas a não ver o momento em directo; Wernher von Braun a comparecer no talk show de Dick Cavett para explicar com fluência e tranquilidade que não era, de todo, um grandessíssimo nazi; o mesmo Von Braun a colaborar com Walt Disney numa série de palestras didácticas sobre a colonização do espaço - uma confluência cultural tão apetitosa que quase é possível ouvir o ruído de um livro de Baudrillard a escrever-se sozinho; e um estonteante apontamento sobre o ambiente típico em Cocoa Beach durante os ensaios gerais ("seiscentos jornalistas de ressaca" a descreverem fumo e fogo por telefone).

O documentário faz também um bom trabalho de síntese a explicar como a América desmobilizada do pós-guerra passou, em poucos anos, de um desinteresse céptico sobre o espaço para um colossal investimento político e económico na sua exploração.

A resposta curta e tradicional tem apenas uma palavra: Sputnik. Na verdade, o impacto do primeiro satélite soviético não foi imediato. Apesar de alguns pitorescos vox pop da época (transeuntes de ar assustado a explicar a repórteres que a ideia de um objecto russo "lá em cima" era muito preocupante), a reacção de pânico demorou algumas semanas a ganhar ímpeto, e foi fruto do memorando de um estratega do Partido Democrata, que conseguiu convencer Lyndon Johnson (na altura líder do Senado) que aquele era o assunto perfeito para sacudir a próxima campanha eleitoral.

Depois de uma sequência de outros desaires anímicos - incluindo a Laika, Gagarin e a espectacular explosão do Vanguard, que detonou uma curta experiência americana com o humor autodepreciativo ("Flopnik! e "Kaputnik!" foram algumas das manchetes da altura) - outro memorando inaugurou oficiosamente o programa Apollo. É um documento político fascinante, e que pode ser consultado online, no qual John Kennedy pergunta a Lyndon Johnson qual é a proeza espacial com efeito suficientemente dramático na qual ainda seria possível "ganhar" aos russos. Seguindo a velha máxima americana de que a melhor maneira de dominar um desporto é inventar um que mais ninguém jogue, a resposta encontrada foi uma viagem tripulada à Lua: tarefa tecnicamente tão mais exigente do que as que andavam a ser tentadas, que as duas nações iriam ambas começar do zero.

A partir daí, a questão era de investimento. O projecto de explorar os astros envolveu somas astronómicas e a mobilização de recursos sem precedentes em tempo de paz, pelo que muitos dos lucros intangíveis eram imediatamente reinvestidos em retórica estratosférica. "Uma proeza espantosa", ""uma aventura cósmica", "um novo estágio na evolução da espécie, comparável ao primeiro anfíbio que se arrastou até terra firme" - culminando nas palavras de Nixon ao receber os astronautas regressados: "Esta é a semana mais importante desde a criação do universo." Todo o projecto foi em larga medida uma empreitada de relações públicas, e um dos efeitos colaterais foi a criação de uma nova classe de celebridades. Muitos deles militares com salários modestos, os astronautas foram obrigados a negociar níveis de exposição mediática outrora reservados para actores e presidentes. A exposição era paga (pela revista Life, principalmente), o que lhes permitia, como explicou John Glenn a um compreensivo Kennedy, comprar as roupas adequadas a essa exposição.

O filme de 2018 First Man (que a TVCINE1 transmite neste sábado) tenta ser, entre outras coisas, um "retrato" da figura mais proeminente e ao mesmo tempo mais opaca dessa nova e efémera classe. Interpretado por Ryan Gosling, o maior especialista actual em representar cifras masculinas que escondem as suas emoções sob uma carapaça de estoicismo, o primeiro homem na Lua revela-se surpreendentemente uma cifra masculina que esconde as suas emoções sob uma carapaça de estoicismo. Seguindo o princípio operativo de todos os biopics de Hollywood, que estipula que a orientação dramática de qualquer protagonista é mudar o mundo em resposta a uma qualquer ferida psíquica secreta (o mesmo princípio aplicado, por exemplo, em The Social Network para mostrar que o Facebook nasceu devido a um namoro que correu mal), First Man quase sugere que Neil Armstrong só foi à Lua porque perdeu uma filha. Quando a filha morre, verte uma lágrima. Quando outras pessoas morrem (e são várias), limita-se a olhar fixamente o horizonte ou a apertar um telefone com um pouco de força a mais. Por vezes sai de casa e vai andar de carro, estoicamente.

Apesar de tudo, o filme faz coisas interessantes quando se desinteressa do estoicismo heróico e interroga com maior perspicácia qual a típica composição emocional para lidar com a mistura de monotonia e mórbida ameaça que constitui uma viagem espacial. E nesse sentido, Armstrong seria de facto o mais típico de todos: com a combinação necessária de profissionalismo e passividade para se sentar em cima de três mil toneladas de tecnologia precária e explosiva, a fazer cálculos em papel quadriculado antes de perder os sentidos.

Há um conto curto do escritor de ficção científica Steve Aylett intitulado "If Armstrong Was Interesting". É um delírio de duas páginas, catalogando possibilidades alternativas às que a história nos deixou, e sugerindo todas as coisas que Armstrong podia ter feito, mas não fez. Amostra: "Se Armstrong fosse interessante, teria emergido do módulo podre de bêbado. Daria saltinhos amaricados pelas dunas. Içaria a bandeira chilena. Insultaria amargamente a própria mãe. Se Armstrong fosse interessante, diria "até na Lua há pombos", ou "o meu capacete está cheio de ranho" (etc.)". O ponto do delírio é que a missão era demasiado interessante para ser entregue às mãos de uma pessoa "interessante".

Não seria possível escrever o mesmo conto sobre Buzz Aldrin. O piloto do módulo foi talvez o mais atípico dos 12 homens que pisaram a Lua, com um sentido de humor invulgar e propensão para dizer coisas esquisitas em momentos inapropriados. Regressado da "desolação magnífica" que baptizou para uma carreira enquanto propagandista da NASA, dedicou-se ao alcoolismo e à insólita fama que recai sobre a segunda pessoa a fazer algo extremamente simbólico; foi o Garrincha para o Pelé de Armstrong (um estatuto subalterno que o pai, ainda mais "interessante" do que ele, nunca lhe perdoou). Em 2002, abordado à saída de um hotel por um conspiracionista profissional que o acusou de nunca ter ido à Lua e ter participado numa fraude, Aldrin reagiu da forma mais interessante possível, esmurrando-o. Foi um pequeno gesto para um homem, mas um salto gigante para o equilíbrio narrativo.

Escreve de acordo com a antiga ortografia.

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