O bater de asas dos submarinos

Pode a China, sem dar um passo, provocar elevada tensão entre potências aliadas ocidentais, como os Estados Unidos da América e a França? Ao que tudo indica, sim. E o presidente francês, Emmanuel Macron, não teve com meias medidas: chamou a Paris os embaixadores em Washington e Camberra como sinal de protesto pela aliança EUA/Reino Unido/Austrália para a região Indo-Pacífico implicar a compra, pelas autoridades australianas, de submarinos nucleares de fabrico norte-americano, em vez de submarinos franceses a diesel.

O pretexto é a ameaça da China, mas, como sempre tem acontecido em diversas regiões do mundo com potencial de conflito bélico, o armamento envolve sempre um menu de interesses industriais e financeiros, combinado de doses fortes de geoestratégia e realpolitik. Recordando Samuel P. Huntington, que, no início dos anos 90 do século passado, alertava para o risco de um conflito inevitável entre EUA e China sob o pretexto de Taiwan, as notícias que vamos conhecendo e fazem manchete (por exemplo, ontem no Le Monde) transportam-nos para filmes a que já assistimos no cinema ou na televisão sobre a escalada de tensão política e os jogos diplomáticos entre potências, quase sempre empurrados pelos interesses da indústria do armamento e das relações comerciais entre mercados regionais.

Mas a vida das pessoas e das nações não é ficção, e aqui o ângulo novo é o gesto de elevado simbolismo político-diplomático de Macron e as duras declarações do chefe da diplomacia francesa, que traduzem também a surpresa dos dirigentes da União Europeia perante a rapidez do acordo norte-americano e britânico com o governo australiano. No mesmo dia, e poucas horas depois, a UE preparava-se para apresentar uma nova estratégia para o Indo-Pacífico, reclamando para si ser "o principal investidor e parceiro de cooperação e um dos maiores parceiros comerciais" com aquela região do mundo. Paris, a arder de fúria, soube pela imprensa.

Voltemos a Huntington. O cientista político e especialista em relações internacionais, autor de reflexões prospetivas na revista Foreign Affairs no início da década de 90 e, entre outras obras, do livro O choque de civilizações e a reconstrução da ordem mundial (1996), defendia a tese de que as diferenças culturais e religiosas seriam as maiores fontes de conflito no mundo pós-Guerra Fria, a par dos interesses económicos e militares das grandes potências em regiões ou países que são linhas de fronteira (cultural fault lines), como, por exemplo, as margens chinesas do oceano Pacífico e zonas envolventes, a Turquia ou o Médio Oriente.

Estaremos então perante um crescimento da tensão entre EUA e China na região do Índico e do Pacífico, tendo como coprotagonistas a Austrália e o Reino Unido? Provavelmente, e é matéria a acompanhar. Mas o que não era expectável era a reação francesa, ao ponto de o MNE francês, Jean-Yves Le Drian, considerar que se trata de "uma facada nas costas. Estou irritado, com muito ressentimento, isto não se faz entre aliados". A França ficou de fora desta jogada de xadrez, bem como os 27 da UE, embora esteja no tabuleiro da região Indo-Pacífico, do mercado do armamento e das relações com a China.

Por seu lado, a China reagiu prontamente: "A cooperação entre EUA, Reino Unido e Austrália em matéria de submarinos nucleares compromete seriamente a paz e a estabilidade regionais, intensifica a corrida aos armamentos e compromete os esforços internacionais de não-proliferação nuclear", avisou o porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros da China. Para bom entendedor, meia palavra basta.

A metáfora de um meteorologista, Edward Lorenz, em 1969, conhecida por teoria do caos, pode estar estafada, mas deve ser aqui recordada, dada a sensibilidade e o risco político militar em jogo: "O simples bater de asas num determinado local pode criar um tufão no outro lado do mundo."

Como se já não bastasse as diversas vagas da pandemia de covid-19 e alguma incerteza quanto ao controlo de novas vagas ou variantes no inverno, este bater de asas de submarinos (e não de borboletas) não estava, de todo, no cenário para os próximos tempos, mas convém sempre contar com variáveis inesperadas, como, aliás, recordava Nassim Nicholas Taleb na sua teoria do cisne negro, num livro lançado em julho de 2008, na véspera da gigantesca crise financeira mundial que eclodiu nos Estados Unidos, em setembro desse ano. Por vezes, não vemos ou não queremos ver o que está a acontecer debaixo do nosso nariz, nem a importância decisiva de um evento raro no desenrolar da História.

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