Incêndios na Califórnia: "Deus tirou férias e não está a tomar conta de nós"

Dezenas de mortos, centenas de desaparecidos e milhares sem casa. Os habitantes de Paradise, pequena cidade do norte da Califórnia, perderam quase tudo nas chamas. Trump passou por lá no sábado e voltou a causar polémica.

Quarenta e dois mortos e mais de 6500 casas arrasadas. A pequena cidade de Paradise, no condado de Butte, foi o epicentro dos violentos incêndios que atingiram o estado da Califórnia. E os relatos dos sobreviventes desta comunidade - ontem visitada pelo presidente Donald Trump - são coincidentes. "Um pesadelo", uma "zona de guerra", "muralhas de chamas" e um misto de tristeza, por ver a própria terra desaparecer, e de temor pela própria vida e pelas vidas de familiares e amigos.

Brynn Parrot Chafield, que publicou no Facebook um vídeo da própria fuga de automóvel por uma estrada engolida pelas chamas - num cenário que aos portugueses parecerá dolorosamente semelhante aos dos incêndios de 2017 em Pedrógão Grande -, descreveu à CNN os momentos de angústia vividos, por si e pelos que deixava para trás: "Eu estava completamente devastada por ter a minha cidade de Paradise em chamas e estávamos, de forma completamente inesperada, a atravessar o fogo, porque nessa altura ainda não sabia que aquela parte da cidade também estava a arder, temíamos pelas nossas vidas", contou.

Os três filhos tinham sido retirados "cerca de meia hora antes, com a avó", numa altura em que o incêndio ainda não tinha atingido aquela dimensão. "A experiência deles não foi esta, coisa pela qual estou muito grata. Numa pequena fração de tempo, havia aqueles incêndios e milhares de pessoas precisavam ainda de ser retiradas." Na altura, admitiu, chegou a pensar que não voltaria a ver os filhos. "Aquele percurso durou apenas dois ou três minutos mas a experiência parece ter levado horas."

No rescaldo, com centenas de desaparecidos, muitos sobreviventes percorriam quadros de mensagens nos abrigos temporários, procurando os nomes de familiares e amigos ou acrescentando eles próprios os nomes daqueles cujo rastro tinham perdido. Alguns conseguiram o reencontro, como Amanda, que localizou o pai, idoso, "depois de ter percorrido 12 abrigos à procura dele", contou à MSNBC.

"Sentimos a culpa dos sobreviventes. Perguntamo-nos porque é que estamos aqui"

Muitos não tiveram a mesma sorte. E mesmo quem não tinha perdido alguma pessoa que lhe era próxima sentia o impacto da tragédia. "Muito pouca gente viveu coisas como esta", explicou à NPR, uma rádio do Illinois, Sam Walker, pastor na First Baptist Church de Paradise. "Sentimos a culpa dos sobreviventes. Perguntamo-nos: 'Porque é que estamos aqui? Porque é que a minha família está aqui? Como é que a minha igreja ainda está de pé? Não sei [porque sinto isto]", admitiu. "A minha casa também desapareceu, como muitas outras."

Atualmente, conclui o The Huffington Post numa reportagem, muitos dos sobreviventes do incêndio "são refugiados no seu próprio condado". E o sentimento inicial de gratidão, até de otimismo, vai dando lugar à melancolia, ao choque de frente com a realidade. "Um fogo lixa-nos a cabeça de formas diferentes e inesperadas", contou a este jornal Caz Tomaszewski, que, em 2015, sobreviveu mas viu a sua casa ser destruída noutro grande incêndio na Califórnia. "A maioria das pessoas assume que isso é causado por perderem todas as suas coisas e terem de fugir para salvarem a vida, mas, mais do que isso, é perder todas as rotinas, toda a familiaridade, todos os seus refúgios, todos os sítios que pertencem a ti e à tua comunidade."

Reconstruir, para devolver aos cidadãos esse sentimento de comunidade, seria à partida o primeiro passo a dar depois de todos os rescaldos estarem feitos. Mas, neste momento, esse é um passo que parece ainda muito distante.

Monica Evans e o marido, um veterano de guerra dependente de uma pensão, viviam há 19 anos com os três filhos e nove animais de estimação numa casa alugada, pela qual pagavam 360 euros mensais de renda. Escaparam ilesos às chamas mas, de um momento para o outro, viram a casa reduzida a cinzas. Estão temporariamente instalados no apartamento de uma divisão cedido por amigos, do qual também terão de sair em breve. "Nunca quis deixar Paradise, nem pensei que teria de o fazer", contou à NBC News. "Há milhares de nós sem local para onde ir. Os abrigos estão cheios e os hotéis mais próximos estão a horas de distância e, de qualquer forma, não temos dinheiro para os pagar."

"Parece um apocalipse. Que Deus tirou umas férias e não está a tomar conta de nós", disse, também àMSNBC, Michelle Owens, que também escapou às chamas mas regressou a Paradise apenas para encontrar a própria casa reduzida a um monte de escombros e cinzas.

Trump leva a política partidária para o cenário de tragédia

Donald Trump - que seguramente não é Deus - visitou o condado na manhã deste sábado, manifestando solidariedade e deixando a promessa de apoio federal para a reconstrução, numa visita que gerou sentimentos distintos entre a população.

Se houve quem agradecesse a sua presença, também não faltou quem recordasse mais uma aparentemente irrefletida mensagem deixada pelo presidente noTwitter, culpando a "má gestão florestal" daquele estado pela gravidade da tragédia e deixando no ar a hipótese de um corte nos fundos transferidos pelo governo federal.

Como recordou o presidente do sindicato de bombeiros da Califórnia, Brian K. Rice, que, citado peloMercury News, classificou as declarações do presidente de "desinformadas" e "inoportunas", mais de 60% da floresta da Califórnia, nomeadamente a área onde se acredita que o incêndio terá começado, está sob o controlo do governo federal. "Os desastres naturais não são vermelhos ou azuis", criticou, numa alusão às cores dos republicanos e dos democratas. "Eles destroem independentemente dos partidos. Neste momento as famílias estão de luto, milhares perderam as suas casas, e um quarto de milhão de americanos tiveram de fugir."

Também o recém-eleito governador do estado da Califórnia, o democrata Gavin Newson, criticou as palavras do presidente, defendendo que "esta não é uma altura para partidarismos e, sim, para coordenar o alívio e resposta e reerguer aqueles que precisam de ajuda".

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