Carga fiscal é a principal preocupação das empresas familiares

Estudo encomendado pela AEP à Universidade do Minho revela que 70% dos negócios familiares são microempresas com menos de nove trabalhadores, e quase 80% existem há quase cinco décadas.

O peso da carga fiscal e a incerteza do ambiente económico e financeiro em Portugal são as principais preocupações das empresas familiares, a par da redução do lucro e vendas. Contrariamente, questões fulcrais para o futuro como a sucessão ou a profissionalização da gestão não são sinalizadas como pontos críticos. Respostas que causam "curiosidade e estranheza" à socióloga Ana Paula Marques, da Universidade do Minho, responsável pelo estudo sobre empresas familiares que na quinta-feira será apresentado em Guimarães.

O trabalho, intitulado "Roadmap para Empresas Familiares: Mapeamento, Profissionalização e Inovação", foi encomendado pela Associação Empresarial de Portugal (AEP), que pretendia, assim, "contribuir para um melhor conhecimento e avaliação do impacto das empresas familiares da região norte na economia local, nacional e internacional".

O primeiro passo foi identificar quantas empresas familiares existem porque, diz Ana Paula Marques, no Centro Interdisciplinar de Ciências Sociais não há nenhum registo que as identifique, apenas estimativas. Do levantamento estatístico que realizou e do cruzamento de dados que fez criou uma base de dados de 41 496 empresas, um número que fica muito aquém, acredita, da realidade. "Há muito mais a fazer ao nível da identificação e registo", defende. Desta base de dados foi selecionada uma amostra de 1148 empresas que responderam a questionários online e presenciais e que participaram em workshops sobre matérias tão distintas como a economia digital, a competitividade no quadro da globalização, a sucessão ou a burocracia.

Os dados do trabalho, cujas conclusões serão conhecidas na quinta-feira, mostram, antes de mais, que se "acentua a litoralização" das empresas familiares, com 50% deste universo sediado na Área Metropolitana do Porto e cerca de 12% no Cávado e no Ave. No que ao tamanho e antiguidade diz respeito, mais de 70% são microempresas, com menos de nove trabalhadores, e quase 80% existem há quase cinco décadas. Centenárias são, apenas, 0,3%.

"As empresas familiares são mais resilientes, tendem a sobreviver mais anos. E o empresário faz tudo o que estiver ao seu alcance para manter a empresa. Cortam despesas, fazem o que for preciso. Está ali o legado familiar, só no limite é que desistem do projeto empresarial", diz Ana Paula Marques, destacando a importância "emocional e intangível" do valor do investimento familiar. Para Paulo Nunes de Almeida, presidente da AEP, a "grande capacidade de resiliência" das empresas familiares é o que as torna "a força motriz para as regiões saírem mais cedo das crises, e, por isso, a região norte funciona como a alavanca para o país".

"Rapidez e flexibilidade"

Quanto às áreas de negócio, as empresas familiares predominam no comércio, na indústria transformadora e na construção, mas não só. "São transversais a todos os setores de atividade, incluindo as tecnologias de informação e comunicação", destaca a investigadora. A maioria criou emprego nos últimos três anos, mas apenas um terço destas empresas se assumem como exportadoras, sendo o peso maior nas criadas há menos de cinco anos.

Chamados a identificar as principais vantagens das empresas familiares, os empresários apontam a "rapidez e flexibilidade" nas decisões, a "fidelização e valorização do atendimento ao cliente", a "relação de proximidade ao meio em que está inserida", a prática de preços competitivos e a existência de uma marca forte. Mas a maioria das empresas familiares tem falhas ao nível da ligação aos centros de I&D e do marketing. E não valoriza a questão da atração e fixação de trabalhadores mais qualificados. A robustez financeira é outro dos pontos fortes que não são valorizados.

O peso da carga fiscal, a incerteza no ambiente económico e a redução do lucro e vendas são as principais preocupações manifestadas. Pelo contrário, as questões da sucessão, da definição de regras de participação dos membros da família nas empresas, da gestão de conflitos e da profissionalização da gestão não são apontadas ou reconhecidas como prioritárias. "Não há abertura a membros externos, há aqui uma dimensão de reserva que é defendida", refere a socióloga, que defende a necessidade do trabalho ser aprofundado e alargado ao resto do país. Paulo Nunes de Almeida destaca que "esta informação será útil para continuarmos a definir estratégias de aproximação às empresas".

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