Res non verba, em pandemia

A pandemia provoca-nos hoje um sobressalto maior, seja pelas filas de ambulâncias à porta dos hospitais seja pelo receio de contágio nas filas para o voto antecipado. Os especialistas alertam que os próximos dias poderão ser ainda piores e que vão ser necessárias, pelo menos, sete semanas para regressarmos aos números registados antes do Natal. Por isso, apesar da preocupação com as urgências de curto prazo, não devemos deixar de olhar para o médio prazo ou para a floresta como um todo e não apenas para a árvore. Perante um cenário de profunda recessão económica com efeitos sociais devastadores (e ainda não é possível contabilizar todos os efeitos no setor financeiro e nas contas públicas...), só três palavras importam a quem passa hoje por muitas dificuldades: saúde, comida e solidariedade.

É tempo de mobilização cívica e de uma onda solidária que deve ir além das ajudas públicas. É tempo de contratar mais médicos, enfermeiros, auxiliares e reunir todos os profissionais (civis e militares) para ajudar nos hospitais e centros de saúde. É tempo de entregar refeições a quem realmente precisa por parte de quem possa contribuir, de forma altruísta e generosa.

Sabendo que muitos portugueses têm auxiliado hospitais, instituições sociais e famílias de forma anónima desde o início da pandemia, recordo apenas três exemplos recentes de grupos familiares portugueses, liderados por Rui Nabeiro (Delta Cafés), que está a comprar refeições aos restaurantes com maiores provações e a oferecer à população carenciada; por António Rios Amorim (Corticeira Amorim), que ofereceu um prémio de mil euros a cada um dos trabalhadores do grupo; e por Pedro Soares dos Santos, que distribuiu perto de 6,6 milhões de euros aos colaboradores da operação do retalho alimentar (Pingo Doce), em Portugal. São empresas grandes e de cariz familiar, com ADN lusitano. Poderiam refugiar-se na crise, mas apoiaram a comunidade, pois essa é também a função social das empresas.

Em situação de calamidade, é tempo de atos e não de palavras (res non verba). Pode parecer uma contradição afirmá-lo num jornal em papel e site, quando os meios de comunicação são feitos por palavras. Mas, no jornalismo sério e independente, a palavra é uma ação, uma arma. Por isso, usamos essa arma - a palavra - na construção diária da democracia: hoje no combate contra a pandemia (e os seus terríveis efeitos na sociedade e na economia) e sempre na procura da verdade, fornecendo informação que seja útil e relevante para os cidadãos. É a hora da solidariedade e da cidadania. Se não o percebermos e praticarmos, não estaremos à altura deste desafio das nossas vidas nem a dar o exemplo aos nossos filhos ou aos nossos netos, por um país solidário, confiante e com futuro.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG