Que comece o ano da abundância do signo do Rato para os chineses

A comunidade chinesa festeja o Novo Ano, o ano do rato, um animal inteligente e que traz boas oportunidades. Este fim de semana na Alameda D. Afonso Henriques, com dança, música, artes marciais, gastronomia e artesanato chinês. Com muito vermelho, para dar sorte.

A Ivone, a Mariana e a Jéssica são três adolescentes, frequentam as escolas portuguesas, partilham os hábitos e as preferências dos colegas e amigos. Mas são diferentes na sua igualdade, como todos os outros. Uma das suas diferenças está no apelido: Fu, Chen e Zhu, respetivamente. As famílias são chinesas e estão a iniciar as comemorações do Ano Novo Chinês, dia 25 de janeiro. Em Portugal começaram na quinta-feira, em Lagoa (Algarve), seguindo para Lisboa, neste sábado e domingo, terminado em Vila do Conde (segunda-feira).

As três jovens participam no desfile na Almirante Reis e numa das representações da Escola Chinesa de Lisboa. Contam ao DN que há só um pequeno problema: não têm férias como se vivessem na China; ou como têm os estudantes portugueses nas mesmas festividades. Nada que lhes estrague a festa.

"Desfilamos no sábado e apresentamos uma dança folclórica chamada Flor de Jasmim. É a flor a nascer, é um novo começo", conta Jéssica Zhu, 12 anos, que frequenta o 7.º ano do ensino português, no Colégio Moderno, e o mesmo nível na Escola Chinesa de Lisboa (ECL). Vestem de verde-claro, creme e branco, não faltando a tradicional sombrinha chinesa, que originalmente é de bambu.

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A escola tem vindo a desenvolver-se nos últimos anos, ao ritmo em que cresce a comunidade chinesa e surgem novos apoios. Dão aulas em Lisboa (mil alunos), Cascais (cem alunos) e em Coimbra (50), incluindo cem portugueses. Empregam 56 professores nas disciplinas de Mandarim, História, Caligrafia, Pintura Tradicional, Dança e Música.

"Há cada vez mais pais que põem os filhos na escola chinesa. São crianças entre os 4 e os 16 anos. Aprendem a língua e a cultura do seu país, o que é muito importante", explica a diretora da escola, que já ensinava no seu país. Chama-se Chen Xiao Hong, mas escolheu Aurora para nome português. "Xiao quer dizer madrugada, nasci às 06.00, e Hong significa vermelho, sou uma Aurora." Tem 57 anos, dos quais 15 vividos em Portugal.

Os imigrantes chineses não querem que os filhos percam a cultura originária e isso acontece tanto em Portugal como em outros países, mesmo que saibam que não vão viver na China, acrescenta a professora. "As crianças chinesas preferem estudar em Portugal, no Reino Unido ou, até, nos Estados Unidos."

"Estou na área de Economia e penso entrar para a Universidade Nova de Lisboa, em Carcavelos, mas gostava muito de ir para Inglaterra viver sozinha, ser independente", confessa Ivone Fu, 16 anos. Um futuro que está mais perto do que o das amigas por ser a mais velha. Está no 10.º na Escola Secundária Fernando Lopes Graça, na Parede, e no 7.º ano da Escola Chinesa de Lisboa.

Mariana Chen não pensou o que vai seguir, "ainda é cedo". Tem 12 anos e está no 7.º ano, na escola chinesa e na portuguesa, no Colégio Sagrado Coração de Maria.

As famílias das três são da província de Zhejiang, de onde é natural grande parte da comunidade chinesa em Portugal. E todas já a visitaram pelo menos quatro vezes. A exceção é a Jéssica, que viaja para a China todos os anos. "A China é mais avançada a nível das tecnologias", diz. "É muito bom, estamos com a família, fazemos programas, há as comidas. Mas aqui também comemos comida chinesa", acrescenta Mariana.

Dança e muita música

A Escola Chinesa de Lisboa vai ter uma presença mais ativa nas comemorações deste ano da capital portuguesa, com oito peças. Participam no desfile na Almirante Reis, sábado entre as 11.00 e as 12.00, da Igreja dos Anjos à Alameda D. Afonso Henriques (veja o programa completo aqui). Dançam e cantam, têm um coro misto que interpretará uma canção portuguesa (A Primavera) e uma chinesa (Porcelana Azul e Branca). O vermelho é a cor dominante do desfile, sendo que os alunos chineses lhe acrescentam "o verde de Portugal", diz Aurora.

Mas a estrela das comemorações de 2020 é a Companhia de Dança e de Canção de Shaanxi, que atuou nesta quarta-feira em Lagoa, no Algarve. A cidade algarvia é uma das três onde se realizam as comemorações oficiais e que são dinamizadas pela Embaixada da República Popular da China. E, depois de dois dias de espetáculos na Alameda D. Afonso Henriques, deslocam-se a Vila do Conde ao Teatro Municipal (segunda-feira).

A província de Shaanxi situa-se no norte do país, a oeste das montanhas de Taihang e a este do rio Amarelo, e tem uma longa história na cultura chinesa. The Glamour of Shaanxi é o espetáculo que a companhia idealizou para Portugal. Abrem as comemorações em Lisboa, às 13.00, com a dança do leão, seguindo-se uma série de atuações ao longo das tardes do fim de semana.

A festa tem lugar em Lisboa pelo sétimo ano. Em 2019, saiu do Martim Moniz para os jardins da Alameda D. Afonso Henriques, dado o elevado número de espetadores, chineses mas também muitos portugueses e de outras nacionalidades. Sempre com a sua dança do dragão, representada por elementos do Instituto Confúcio de Aveiro, que também farão demonstrações de artes marciais. Atuam, ainda, o Grupo Feminino Dança Clássica, a Associação da Cultura Chinesa e Pensamento Oriental, uma delegação de Alunos Macau-China, o Centro de Línguas e Culturas Shumin, o Centro de Formação Cultural e de Arte Huaxing, o Grupo de Dança Tibetano e o Dança Praça de Lua. E continua a marcar presença o Grupo Folclórico Danças e Cantares Verde Minho.

O jardim junto à Fonte Luminosa vai ter 60 stands, mais dez do que o ano passado, com gastronomia, artesanato, informação sobre as associações representaitivas da comunidade em Portugal, bem como algumas das suas empresas.

Esperteza do rato

O calendário chinês segue a contagem gregoriana, mas os ciclos dos 12 signos são anuais. Neste ano entra-se no signo do Rato. Um animal que significa inteligência e perspicácia para a comunidade.

Conta a lenda que os animais, sabendo que os signos chineses seriam representados por eles, decidiram fazer uma corrida e os 12 primeiros tinham direito a um signo. O rato, sabendo que as suas hipóteses não eram muitas, subiu para o dorso do boi e, em cima da meta, saltou para o chão, ganhando até ao próprio boi. Primeiro sinal de inteligência. O segundo sinal traz à baila a velha rivalidade entre o rato e o gato. O rato mentiu ao gato sobre a hora da partida da corrida, ou seja, o gato chegou bem depois de os outros terem terminado a prova. Os 12 vencedores foram: rato, boi, porco, cão, serpente, galo, macaco, carneiro, coelho, dragão, cavalo e tigre.

Os chineses preveem um ano de abundância, de oportunidades e de bons projetos. Mas, atenção, há que contar com algumas incertezas, uma vez que o rato não parece ser de confiar. Também é considerado inconstante, com atração pelo incerto (jogo) e não de trato difícil. "O rato dá um bom exemplo de como uma virtude, se exagerada, se pode transformar num defeito. Por ser franco demais, muitas vezes melindra as pessoas. Sem contar que se trata de um dos mais liberais dos signos, sempre ansioso por novas experiências", diz o signo chinês.

As pessoas quem são do signo do Rato, não pensem que este será um ano particularmente feliz, já que "poderá ser muito bom mas também poderá ser muito mau". Acontece com qualquer pessoa que case o seu signo com o ano da celebração, explica a professora Aurora. Acrescenta que o melhor é acreditar nas crenças e usar uma peça de roupa, um objeto, o que for, de cor vermelha, de 12 em 12 anos, tantos são os ciclos zodíacos chineses. "Quando fiz 24 anos, era nova, não queria acreditar nestas coisas, não liguei. O ano não me correu muito bem. Nos 36, andei todo o ano com o cinto vermelho", conta.

Já a professora Isabel, na verdade Shien Yang, de 28 anos, prefere pintar os lábios ou as unhas de vermelho "mais moderno", ri. Veio para Portugal há três anos, para tirar o mestrado em Ciência da Educação. Namora com um português e, neste ano, festejou o Novo Ano com as 12 passas. E, no dia 24 para 25, festejará outro novo ano, agora com roupa vermelha, comendo guiozas (ou jiaozi), um pastel recheado e há quem lhe ponha dentro moedas. Os mais novos recebem dos mais velhos envelopes vermelhos com dinheiro. A casa também é decorada com vermelho e lançam-se foguetes para afastar a má sorte.

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