Almoços digitais


Hoje dispomos de um conjunto espantoso e precioso de serviços, que nos facilitam imenso a vida, e que há poucos anos não existiam. O mais extraordinário é a forma como essas coisas nos chegam às mãos.

Graças ao Google Maps, por exemplo, localizamos imediatamente os destinos mais recônditos, descobrindo distâncias, meios de acesso e alojamentos, antes sempre difícil e incerto. Em cima desses mapas electrónicos, serviços como Waze, TomTom, e outros sistemas de navegação GPS, guiam-nos direitinhos ao local desejado. Se procuramos informação de qualquer tipo, o local certo é a Wikipedia, a maior enciclopédia do mundo, com versões em 301 línguas, quinze das quais com mais de um milhão de entradas, num total superior a 48 milhões de artigos, além de múltiplas iniciativas, Wiktionary, Wikiquote, Wikibooks, Wikimedia Commons, Wikinews, Wikiversity, Wikispecies, Wikivoyage e Wikidata. Se o problema é resolver equações do 3º grau, cozinhar chispalhada à portuguesa ou ouvir versões das sonatas de Beethoven, vamos ao YouTube, onde tudo se ensina e tudo se aprende. Estes são apenas alguns exemplos de inúmeras ajudas inestimáveis, como traduções no Linguee, bab.la ou Google Translate, ou planeamento de férias no Booking.com e TripAdvisor.

O mais espantoso é, em geral, o acesso ser gratuito e sem subsídios estatais. Os vários governos gostam de dizer que nos servem à borla, depois de nos terem obrigado a pagar com impostos; mas não é esse o processo aqui. É verdade que existem valiosos sites públicos, como as bases estatísticas do INE, Eurostat, FMI, etc. (embora muitos prefiram a Pordata.pt privada), a meteorologia no ipma.pt ou a Europeana.eu, agregando o espólio de três mil instituições culturais europeias. Não é aí, porém, que está a esmagadora maioria do tráfico electrónico que usamos na vida diária.

A quase totalidade dos sites que visitamos sem pagar são fornecidos por empresas capitalistas, com accionistas e muitos salários e lucros. Por exemplo, o que está a fazer neste preciso momento, lendo o DN, é aceder de graça a um serviço informativo, caro de produzir, mas fornecido sem preço. Hoje até se criou o acrónimo FANG para denominar o conjunto de quatro empresas, Facebook, Amazon, Netflix e Google, as mais poderosas do mundo digital. Só que, mesmo nestes gigantes, apenas a Netflix usa o sistema tradicional de servir clientes pagantes; nas outras o produto é gratuito, como na generalidade dos sites. Até na Amazon, aquilo que paga é o bem comprado, não o espantoso serviço de catálogo e acesso, o mais valioso. Aliás, surpreendentemente, os utentes ficariam muito ofendidos se tivessem de pagar algo que lhes é precioso e muito difícil de conseguir.

É verdade que, em muitos casos, a empresa aproveita-se do trabalho de milhões de pessoas a quem também não paga. A Wikipedia é redigida por inúmeros voluntários, tal como são incontáveis os autores que fornecem YouTube e Facebook. Mas isso não deve esconder o enorme esforço indispensável para manter a infraestrutura, além da própria obtenção da informação, que, por exemplo, no caso do Google Maps e Google Books constitui um dos maiores investimentos da história da humanidade. Se pensarmos por momentos, seja nos enormes custos de produção, seja no incrível valor que esses serviços têm para os consumidores, é incompreensível que sejam grátis, quanto mais que seja uma exigência universal. Achamos normal, e até reclamamos, que o uso dos complexos motores de busca da Google tenha o mesmo preço que o ar atmosférico e a língua portuguesa.

Uma das respostas ao enigma é a escala de produção. Quando se fornece todo o mundo, um pequeno pagamento individual, por exemplo vendo publicidade, chega para suportar a despesa, por vir multiplicado por biliões. De facto, qualquer pessoa, em qualquer lugar, pode aceder-lhes, desde que saiba inglês, tenha um computador sofrível e razoável acesso à internet. Estas três condições continuam proibitivas para muito mais de metade da humanidade, pelo que a ideia de estar a servir todo o mundo é ainda ilusória. Mas, mesmo com multiplicação por centenas de milhões, as receitas são astronómicas.

Isso tem implicações evidentes: os serviços têm de se concentrar e centralizar em grandes monopólios. O "processo de acumulação capitalista", que Marx formulou em 1867, está hoje em pleno funcionamento no mundo digital. Isto, compreensivelmente, tem levantado muitos receios acerca do poder destes monstros. Até porque a mercadoria central do processo, informação, é gerada em quantidades descomunais todos os dias por milhões de utilizadores, que a deixam nas mãos desses colossos empresariais. Opiniões, preferências, visualizações, tráfico, hoje vale ouro para muitos interesses, de políticos a empresariais. Por isso não faltam os que querem proibir ou limitar o uso desses dados. Isso tem evidente justificação, mas não deve pôr em risco tudo o que obtemos dessas empresas sem pagar. Afinal, não há almoços grátis.

Professor universitário

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