A perigosa fronteira de Itália

O partido que de facto governa a terceira maior economia da zona euro, um membro do G7 e da NATO, acaba de estabelecer um grupo político no Parlamento Europeu com o partido de Marine Le Pen, com a alemã Alternative für Deutschland (AFD) e o belga Vlaams Belang. O governo italiano fez uma aliança com as extremas-direitas alemã, francesa, belga e austríaca. Isto não é inteiramente novo na história, é novo na União Europeia e pede resposta.

No Parlamento Europeu houve sempre partidos extremistas. São o reflexo do que há nos Estados membros. Nas anteriores europeias, Marine Le Pen já tinha vencido em França, Farage anda por ali há anos, e há muitos outros, alguns bastante exóticos, à direita e à esquerda. O que há de novo, depois destas eleições, é que há um partido que de facto lidera um governo (a Liga Norte, de Matteo Salvini, em Itália), que se senta no Conselho Europeu com os restantes chefes de Estado e de governo da União Europeia (por interposta pessoa, mas de facto senta), e se senta no Parlamento Europeu com quase toda a extrema-direita (poupemos a discussão sobre a pureza dos conceitos e usemos o que está genericamente aceite).

A União Europeia é, acima de tudo, o produto da decisão dos Estados europeus. Foram eles que criaram as instituições, assinaram os tratados e inclusive deram poder ao Parlamento Europeu. O Conselho é, verdadeiramente, o centro do poder da Europa. Sentam-se ali os principais partidos democráticos europeus. A grande coligação, que fundou e manteve a "Europa", entre socialistas e democratas cristãos fez-se ali. Também com liberais nórdicos, conservadores britânicos e alguma outra exceção, o Conselho era o reflexo do poder europeu: fundamentalmente ao grande centro e capaz de dialogar entre si. Já houve casos excecionais, com os austríacos, Tsipras, Orbán e o PiS polaco (para falar de tempos recentes), mas, em todo o caso, havia uma fronteira que não tinha sido ultrapassada: nenhum governo europeu tinha, até hoje, ousado aliar-se ao mainstream da extrema-direita europeia. Salvini fê-lo.

Sendo Itália como é, e tendo o Conselho e o Parlamento dinâmicas diferentes, tudo isto pode ser apenas um exibicionismo inconsequente. Mas não é certo e nestas matérias mais vale prevenir.

Agora, há duas coisas que interessam. Uma, reduzir ao máximo o impacto da agenda deste grupo no poder europeu, o que tem a grave consequência de implicar isolar Itália, que não é o mesmo que a Hungria ou até a Polónia. A outra, enfrentar o problema. Gritar contra Salvini, adjetivá-lo ou insultar a sua agenda pode aliviar, mas não resolve. É preciso recuperar a Itália. Para isso é preciso recuperar os eleitores italianos. E, de caminho, os franceses. Se a Europa não for capaz disso, não serve para tanto quanto diz servir. A política europeia dos próximos anos vai certamente ter de ser sobre como fazê-lo.

Consultor em assuntos europeus

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