"Corta!", dizem os Diáconos Remédios da vida

É muito irónico Plácido Domingo já não cantar a 6 de setembro na Ópera de São Francisco. Nove mulheres, todas adultas, todas livres, acusaram-no agora de assédios antigos, quando já elas eram todas maiores e livres. Não houve nenhuma acusação, nem judicial nem policial, só uma afirmação em tom de denúncia. O tenor lançou-lhes o seu maior charme, a voz, acrescida de ter acontecido quando ele era mais magro e ter menos cãs na barba - só isso, e que já é muito (e digo de longe, ouvido e visto da plateia) -, lançou, foi aceite por umas senhoras, recusado por outras, mas agora com todas a revelar ter havido em cada caso uma pressão por parte dele. O âmago do assunto é no fundo uma das constantes, a maior delas, daquilo que as óperas falam: o amor (em todas as suas vertentes).

A pedra que sustenta a abóbada desta acusação, a clé de voûte deste escândalo artístico, é a tal "pressão". Aparente palavrinha, só isso, mas fonte de grande mistério. Lembro aos leitores, todos os domingos, todos os canais televisivos portugueses dedicam, cada um deles, meia dúzia de maduros a debater a impenetrável questão: foi suficiente a "pressão" nas costas do avançado para marcar penálti ou não? Nunca, mas nunca, ouvi unanimidade. Vamos também no caso deste Domingo não concordar todos. Que pressão, por causa do amor (talvez aqui só numa vertente), usou o tenor com cada uma das senhoras?

O jornal El País, ontem, referindo-se ao caso, citou uma frase de Norman Lebrecht, um dos críticos de ópera mais conhecidos no mundo: "A relação entre a batuta e o pénis é mais poderosa do que muitos maestros estariam dispostos a reconhecer." E mais outra frase: "Os abusos de poder na música são uma rotina, já que toda a autoridade vem de um homenzinho com um pequeno bastão." O crítico falava de maestros mas poderia fazer sentido trazê-lo para o caso de um tenor, não fossem frases dessas prestarem maior tributo aos efeitos especiais do que à verdade. E nunca me esqueço de como estive quase para perder grandes obras-primas de Hitchcock, tão boas sobre coisas simples da vida, e tão pirosas pelo parolo preito americano aos psicanalistas, nos anos 1950 e 60.

Afirmações em forma de denúncia feitas, e sem acusação judicial ou policial, já Plácido Domingo não será Romeu, no próximo espetáculo em São Francisco. Está aí a primeira ironia. Até no Romeu e Julieta, de Gounod, lhe fecham a porta. Desde o primeiro ato, e dura por todos os cinco, Romeu e Julieta amam-se ao primeiro olhar, "oh, anjo adorável!", gorjeia ele, falam-se com um balcão de permeio, sem conflito nem briga, se há mortes no fim é por engano - entre os dois não há pressão de quem quer que seja. E muito menos não há autoridade de um homenzinho com curto bastão. Ambos iguais, os do casal. Não sem razão, o libreto é inspirado em peça de Shakespeare, homem de outro século que não os que alimentaram os sentimentos exacerbados da ópera.

A maior das ironias está neste castigo da Ópera de São Francisco, e já se diz que outras se seguirão, quando tudo o que a imensa maioria das óperas cantam são, justamente, as pressões amorosas exacerbadas dos seus (e suas) personagens. Em La Traviata, de Verdi, Violeta está prometida a um barão, mas, logo no primeiro ato, quando Alfredo lhe é apresentado, ele declara-se. Violeta diz que é noiva, mas sempre lhe oferece uma rosa que trazia no peito... No segundo ato já eles estão no propriamente ato. Carmen, Fidelio, La Bohème... a lista é longa e quase unitemática: há um que toma a iniciativa e outra que hesita (ou ao contrário, em Carmen), convencem ou/e traem. Na Fidelio há mulher que por amor ao homem se veste de homem, levando outra a amá-la julgando-o homem... O amor em todas as suas vertentes nunca é linear e por isso as óperas nos empolgam e tão bem contam. A ópera devia ser a última a julgar Plácido Domingo.

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