Eça e o DN

O lápis, naturalmente sarcástico, é de Rafael Bordalo Pinheiro. Em agosto de 1880, a publicação humorística Álbum das Glórias, retrato dos famosos de Portugal, desenhou Eduardo Coelho. O jornalista tinha 45 anos, era atarracado, de bigode farto e cavanhaque, olhar seguro, confirmado pela mão esquerda levada à cinta, e vestia uma sobrecasaca manhosa. A sua falta de elegância é ainda mais notória porque logo antes dele - também com direito a desenho de Bordalo a ocupar no álbum uma página inteira - está caricaturado Eça de Queiroz, falso vencido da vida, de monóculo, calças listadas e casaca, estirado num sofá, onde pousara de forma displicente o chapéu alto e encostara a bengala.

A Eduardo Coelho, que não quer ser dândi, basta-lhe a energia ilustrada pela resma de papéis que segura na mão direita: um jornal, onde algumas letras deixam adivinhar o cabeçalho, Diário de Notícias. Eis o que une o jornalista ao escritor, na compaginação daquelas caricaturas de Bordalo: Coelho fundou o jornal e Eça foi seu repórter. Dez anos antes daquela edição do Álbum das Glórias, no verão de 1870, com colaboração de Ramalho Ortigão, Eça vai assinar no DN o folhetim O Mistério da Estrada de Sintra. Meses antes, em janeiro, feito repórter internacional (o passaporte que o levou ao Egito e à Palestina dizia-o "encarregado de despachos"), já Eça de Queiroz publicara, também neste jornal, quatro longas reportagens contando a abertura do canal de Suez.

As reportagens são reproduzidas hoje nestas páginas dedicadas aos 150 anos do grande acontecimento mundial que abriu o Mediterrâneo ao Extremo Oriente. E são um momento alto do nosso jornalismo. Basta passear pelos destaques. "O vice-rei e Mr. De Lesseps sucumbem", "Como os árabes esgotam um pântano", "Um começo de vida imoral", "As tendas dos xeques", "Os imperadores em dromedários", "Cantadores, mágicos, psilos...), "Morrem centenas de operários"... -, tudo sugestões de Eça, basta isso, para reconhecermos um jornalista que escreve para ser lido. E escreve conquistando o interesse do leitor, ao mesmo tempo que o torna mais culto (psilos são os encantadores de serpentes).

Sabe-se que aquela viagem do repórter, seis semanas no Oriente, influenciou-o na expressão literária a que ele se dedicaria vida fora. Não só na sua estreia literária, o já referido folhetim O Mistério da Estrada de Sintra, escrito logo de seguida, como também o inspirou na trama do romance A Relíquia, bem mais tarde (1884). É caso para "citar" Eça, que usou como epígrafe deste romance uma frase famosa, parafraseando-a aqui: "Sobre a nudez forte da reportagem - o manto diáfano da ficção"...

Mas cabe a esta crónica contar a causa inicial que juntou o maior romancista português ao jornal que inventou o jornalismo moderno em Portugal. Eça era adolescente, 19 anos, quando o Diário de Notícias foi fundado, em 1864. Até então, os jornais eram capelas políticas, religiosas ou literárias. Eduardo Coelho, na primeira edição do DN, dirigiu-se ao público, assim: "A publicação que hoje empreendemos, convencidos da sua necessidade e utilidade, visa um único fim - interessar a todas as classes, ser acessível a todas as bolsas, e compreensível a todas as inteligências." O apelo era para o público em geral, e sublinhava mesmo isso, geral. Parecia nivelar por baixo, mas não era assim.

Nessa altura, já Eça estudava em Coimbra, dois anos depois teria a sua licenciatura em Direito. Antero de Quental já era seu amigo e os seus interesses intelectuais, presume-se, mais do que por um jornal assumidamente popular, poderiam ser mais bem servidos por uma daquelas gazetas literárias de difusão quase clandestina. Há, porém, este pormenor no editorial de Coelho: "O Diário de Notícias - o seu título o está dizendo..." E o que diz: que é diário e de notícias. Reparem na formulação enxuta, "o seu título o está dizendo", elegante e direito ao assunto. Há ali relentos do futuro Eça a escrever os seus destaques, 16 anos depois, repórter contando mundo (leiam nas páginas anteriores a esta crónica): "Um café-cantante em Port Said", "O baile em metade do palácio de Ismailia"...). Há 150 anos Eça escrevia, como há 155 anos o DN convidava a que se escrevesse no Portugal que o novo jornal se propunha modernizar.

Entretanto, permitam-me um foco que ainda não apontei a Eduardo Coelho. Ao jornalista já aludi, mas se há corporação que deveria ir em romagem ao busto erguido no Jardim de São Pedro de Alcântara, seria a dos patrões, se há lugar para se fazer uma conferência inspiradora de despenteados jovens de startups, seria ao Eduardo Coelho em bronze desse miradouro lisboeta. Está ali um fazedor, um patrão, que tanto escasseia entre nós. Ao Eduardo Coelho não bastava ter belas ideias, acompanhava-as com o saber executá-las.

Já lá vamos a como isso nos leva a Eça de Queiroz. Mas insisto no negócio (a magnífica falta de ócio que ajuda o mundo a girar) com que o DN se iniciou. Dizia aquele exemplar fundador, logo na capa, nas primeiríssimas letras e até em acima do título: "Cada Numéro 10 Réis." Quer dizer, comprava-se o jornal por um quarto ou um quinto da concorrência - pagava-se com a mais pequena das moedas em circulação. Em 1864. Muitos anos depois, até 1920, mais de meio século, o jornal já não se pagava com réis, é certo - a revolução trocara o nome da moeda para escudo -, mas o valor era o mesmo. O DN custava um centavo (dez réis), sempre a mais pequena das moedas.

E essa ideia simples e revolucionária foi o que fez de uma bela ideia um facto transformador e com sucesso. As tiragens subiam em flecha, e se isso não trazia grande receita da venda, pois a moedinha do custo era modesta, era-se compensado pela publicidade, agradada pela corrida aos quiosques. No Jardim de São Pedro de Alcântara, sob o busto de Eduardo Coelho, um ardina, também ideia dele, bebida no estrangeiro. Um ardina que corria a cidade e gritava pela cidade o jornal novo. E aqui, fascinado, encerro o lado negociante do pai do jornalismo português.

Volto ao jornalista, ainda mais fascinante. Porque o DN poderia ter sido só um sucesso financeiro, o que já não seria pouco. Mas ele deu-se como destino juntar o barato (para atingir o máximo dos leitores) à qualidade (para prestar um serviço bom, bom mesmo). As notícias, como ele prometera, eram de estilo simples. No dia seguinte ao lançamento, escreveu: "O DN participa aos seus leitores que não conta só delícias mas que também descreve horrores. Há agora um casamento? - solta-se um riso de alegria. Mas se acaso o alegre noivo caiu no chão - o jornal mostra-se triste. Veem já que com tais modos é um jornal para todos." Não se deixem iludir com o tom simples: é mesmo um modo pensado, determinado e executado.

Volto à primeira edição, a uma pequena e clara notícia, como todas, das suas só quatro páginas. Uma lição já clássica sobre como se conta, jornalismo, enfim: "Não foi bom o esquecimento que teve, a noite passada, o aprendiz da carpintaria situada na Rua do Almada, n.º 1. Se a patrulha que girava por aquella rua, às 2 horas, não dá com ella, e a não vae guardando no quartel da respetiva companhia, a coisa podia ter as suas consequências. - Mas de que ella fala? - Da chave que o sr. Mesquita, o aprendiz em questão, deixou, por descuido, na porta da loja. Hoje, acompanhado por um cabo, o sr. Mesquita verificou que nada faltava naquele estabelecimento, mas podia ter-lhe acontecido o contrário."

500 caracteres só, mas um texto enxuto, claro, dialogado com o leitor. Pouco depois, acrescentavam-se folhetins de Eça, desenhos de Bordalo e crónicas de Camilo. Tudo a ver.

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